Dois textos interessantes sobre a vitória - TEXTO 1
Sobre migalhas, profecias, Marcos e Guilhermes
O relógio marcava 3 e pouco. Baita solzão na zona sul de São Paulo e eu contando as lajotas da parede do quarto. Tentei ler um livro ali da estante, mas não dava. Nem Eduardo Galeano entenderia o turbilhão que é a cabeça de um torcedor são paulino nessas horas pré-jogo. Tentei ver um filme, mas não passei nem dos créditos iniciais. Se nem o maior escritor da terra de Don Diego Lugano consegue, imagina se o Netflix seria capaz de contemplar a paúra que invade nossas almas nesses dias. "Já sei!", pensei, "Vou dar uma volta com o cachorro no parque do lado de casa".
Entre uma fuçada na grama e outra, uma menininha se apaixonou por ele, e o pai disse: "Olha lá o au au, filha", ela se aproximou, "Ele morde, moço? Pode passar a mão? Como que ele chama?". Não, não, o Cueva não morde e adora a criançada, pode fazer carinho. Foi uma festa, um desses momentos bonitos e perfeitamente instagramizáveis de propaganda de margarina, sabe? Bom, teria sido, se eu não tivesse com a cabeça lá na lua. Ou melhor, lá no Rio.
Voltamos pra casa e faltavam só uns 5 minutos pra começar o jogo. Tomei meu lugar e escolhi a camisa da sorte, aquela branca da Bom Bril usada em todas as campanhas das Libertadores de 2004, 2005 e 2006. Nem o Once Caldas nem o Inter colocaram uma carga de zica que me fizesse desacreditar do poder desse manto sagrado. Os gameofthroneiros hão de concordar que não era preciso ser nenhum Bran Stark com poderes de warg pra saber que, espalhados pelo mundo inteiro, algumas centenas de milhares ou milhões de são paulinos rezavam para Santo Expedito, trajavam roupas de baixo carcomidas pelas traças, esfregavam pés de coelho ou seguravam trevos de quatro folhas naquele exato momento.
O juiz silvou o apito e, nossa senhora, como é bom ver o Profeta de volta, ainda mais com o número 15 que o consagrou. Que categoria e que tremendo cavanhaque feiamente estiloso. O Cueva jogador, esse sim, eu queria que mordesse. Mesmo un poquito rechonchudo, estava feroz na marcação, retomando sua boa fase, com Dorival formando a equipe num 4-1-4-1 pra acomodar Hernanes ao lado do Petros e o peruano aberto na esquerda como nos seus melhores dias. É bem verdade que dessa vez ele não chegou a brilhar tanto, mas enquanto seu xará canino roía meticuloso o sofá da sala ao meu lado, o camisa 10 fez bela jogada, se aproveitou de um gritante vacilo do João Paulo e abriu o placar. Na comemoração, mandou um "sai, urucubaca".
Infelizmente, não posso publicar as palavras que saíram da minha boca, mas posso garantir que assustaram o cachorro Cueva, que imediatamente deixou o sofá em paz. Céus, que alívio, taqueupariu! O Engenhão, merecidamente rebatizado de Nilton Santos, estava tomado por tricolores e ali jogávamos como se fosse em casa. Bom, a questão é que esse Botafogo do Cholo Jair Ventura é faceiro, não gosta de ter a bola e todo jogo tem heróis improváveis, bem a la Atlético de Madrid mesmo. De repente, menos de um minuto depois, Marcos Vinícius arrisca de longe e empata. Novamente, minha reação foi impublicável, dessa vez para o mal.
Admito que não sou um sujeito supersticioso, exceto quando o assunto é o São Paulo. Troquei de poltrona na sala e o mesmo Marcos Vinícius fez 2x1 num inclassificável peru de Renan Ribeiro, nosso herói de várias das últimas jornadas. Falando em peru, Cueva buscava o jogo, Hernanes tentava infiltrar em suas incursões na área, mas como um todo o time estava mal, engessado, com pouca mobilidade de Pratto, Marcinho, Jucilei, Petros e Edimar. A torcida, porém, não deixou de apoiar, mesmo diante de uma equipe tão travada quanto lutadora.
Decidi ver o segundo tempo no meu quarto. No intervalo, discuti no WhatsApp com um grande amigo que, otimista, defendia que o São Paulo tinha feito uma boa primeira etapa. "Não consigo mais me contentar com essas migalhas que o São Paulo me dá!", eu disse a ele, obviamente full pistola. O jogo reinicia e agora parecíamos melhores. Dorival lançou Wellington Nem e Marcos Guilherme de uma tacada só e, na primeira bola de Nem, ele recebe primoroso lançamento de Hernanes e desaba na área. O juiz aponta para a cal. Não gosto de injustiças e no íntimo pensei "Podia ser de outro jeito, com méritos". Por fora, lembrei de quantos jogos decisivos já perdemos por erros dos homens do apito e disse, para aliviar a própria consciência: "Bom, que assim seja então". Indiferente a meus dilemas internos, Cueva partiu em paradinha e cobrou carinhosamente nas patas de Gatito. Não pode ser! Que desgraça. Ele não tinha dispensado a uruca na comemoração do primeiro gol?
Esfreguei o símbolo da minha camisa com força, em busca de respostas. Num contra-ataque, o recém-entrado Guilherme fuzilou e fez 3x1 para o Botafogo, com direito a passe de Luis Ricardo, jogador de passagem lastimável pelo Morumbi. A temida Lei do Ex se estendeu até pras assistências agora, é? Eu já não tinha mais forças pra xingar. Cueva, o cão, subiu as escadas e ficou ali de canto no quarto, meio amoado, talvez em solidariedade ao dono, constrangido de abanar o rabo. Jair Ventura bailava livre, leve e solto no banco de reservas e um Rodrigo ainda mais Pimpão que seu técnico quase fez um gol de placa, de bicicleta, pra fechar o nosso caixão. No lance seguinte, Marcos Guilherme prendeu a bola e tropeçou nela, sucumbindo a um mar de botafoguenses. "Belo modo de estrear", pensei, com um sarcasmo masoquista e auto-destrutivo típico de quem se sente na lama.
Não é preciso ser Claudinho nem Buchecha pra saber o que é ter o relógio de mal contigo e se eu dissesse que estava com a fé intacta, estaria mentindo. Pelo contrário, estava fazendo contas e conferindo contra quem o Coritiba e o Bahia jogavam na rodada quando, aos 39 do 2o tempo, Cueva cruza uma bola vadia na área, Arboleda desvia e ele, o estreante Marcos Guilherme completa pra rede. Eu gritei um "goool" tímido, como quem quer acreditar que esse seria mais um capítulo do vasto livro "Tem coisas que só acontecem com o Botafogo".
Aí cabe ressaltar: o time teve postura exemplar, foi pra cima, se impôs e, reorganizado num 4-2-3-1, fez o Alvinegro se encolher mais e mais. Havia uma nítida sintonia entre a arquibancada e o retângulo das 4 linhas, algo que vem sendo notório nos últimos jogos e que tradicionalmente tanta falta faz ao São Paulo. Os botafoguenses que outrora cantavam "Arerêêê, São Paulo vai jogar a Série B" não mais se atreviam a cutucar a onça com vara curta. Nem bem digeriram o nosso segundo gol e, aos 40, Bruno foi ao fundo e cruzou para trás, como se deve fazer. Hernanes desviou, mas Cueva finalizou mal e, no meio de aproximadamente 17 homens de preto e branco, a pelota voltou cuidadosamente aos pés do Profeta, que tentou de direita, sem êxito. Como numa profecia mesmo, ela o procurou de novo: tapa de canhota e é caixa! Hernanes, o homem do cavanhaque chinês, dava uma pirueta que fazia explodir meio Nilton Santos e restaurava nossa fé no impossível: 3x3!
E foi aí que, já nos estertores do espetáculo, aos 46, Cueva foi buscar a bola lá atrás, saindo do que lhe fora designado, como cabe aos craques fazerem. Recebeu um espaço imperdoável dos incrédulos alvinegros no círculo central. Não se dá sopa ao azar assim, Botafogo. Tem que ser muito louco das ideias pra menosprezar o Cueva, caras. Gilberto recuou e arrastou um zagueiro consigo. Marcos Guilherme, então, fez o facão feito uma flecha, do flanco canhoto pra dentro, levando um desesperado Luis Ricardo na sua cola, de black power esvoaçante e tudo. O estreante tricolor ainda teve a frieza de sinalizar com as mãos para o bandeira, ressaltando que não estava impedido. Quem impediria um momento assim, Marcos? O passe de Cueva veio, como uma tacada de Rui Chapéu nas tardes dominicais dos anos 80: certeiro e milimétrico, passeando por 30 metros do tapete de veludo verde. Marcos Guilherme, em disparada, só cutucou para dentro para consumar o milagre: 4x3! Lendário. Mítico. Histórico. Inolvidável.
Em 10 minutos, o São Paulo Futebol Clube renasceu. Tomamos dois gols de um Marcos, um gol de um Guilherme, mas viramos o jogo com Marcos Guilherme. Dessa vez não teve palavrão, me caiu foi apenas uma lágrima. Não muitas, só uma mesmo. Há quanto tempo eu não chorava por futebol? Uma lágrima apenas já caracteriza choro? 3x0 é goleada? São muitas questões... Cueva, o cão, me olhava sem entender nada. Eu beijava o símbolo da camisa e sabia que ao redor do planeta, muitas outras pessoas passavam por experiências semelhantes. Reconheci ali aquele sentimento que poetas, filósofos e lendas do pagode tentam em vão descrever há séculos: a felicidade. Percebi que ela é tão boa justamente por não ser um estado permanente: é etérea, volátil, escorre pelos dedos e evapora num piscar de olhos. Cabe a nós reconhecê-la e desfrutá-la desavergonhadamente, porque esses momentos são que nem o Serginho, o Vagner e o França: não voltam.
Quinta-feira tem mais. Obrigado por esta migalha, Tricolor. Depois te mando a conta do cardiologista, viu Marcos Guilherme?
http://globoesporte.globo.com/sp/blogs/especial-blog/torcedor-do-sao-paulo/post/felicidade.html
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