Um desabafo
Lembro que no dia 11 de dezembro de 1993, dormi mais cedo que o habitual, tamanha a ansiedade para a chegada da primeira hora do dia 12. Eu tinha 12 anos e uma paixão, talvez a primeira mais intensa da minha vida, pelo São Paulo Futebol Clube. As recordações daquele dezembro de 93 me trazem de volta a sensação de ter, a muito custo, conciliado um sono agitado e logo ser acordado por meu pai, que segurava uma xícara de café ao lado da cama. “Vai começar”, ele disse. Meu pai referia-se ao mundial de clubes FIFA, no qual o SPFC enfrentaria o temido A.C. Milan, do técnico Fabio Capello. Coloquei o fardamento tricolor, aquele com gola polo e patrocínio da IBF Formulários. Nas costas, estava estampado o número 10, do meio campista e ídolo tricolor, Raí. Na televisão, os dois times em formação esperavam a execução dos hinos antes da partida. A tensão era visível. Do lado rossonero, desfilavam na tela craques que o mundo tinha visto brilhar no campeonato italiano e na Champions League. Costacurta, Maldini, Donadoni, Baresi e o perigoso atacante romero, Florin Raducioiu. Nos dois tempos nervosos e intermináveis, a equipe do mestre Telê Santana lutou contra os italianos de igual pra igual, impondo, já nos minutos finais, num gol quase impossível de Müller, a derrota por 3x2 aos europeus. Era o segundo título mundial do meu time. Já em 1992, eu tinha visto o começo dessa história de conquistar o mundo quando o tricolor do Morumbi bateu o estelar Barcelona de Cruyff por 2 tentos a 1. Começando o jogo perdendo, o SPFC teve a calma e o talento para empatar e definir a vitória com uma atuação de gala de Raí. O time azul-grená catalão contava na época com estrelas como o ótimo goleiro Zubizarreta e, como volante, o hoje técnico Pep Guardiola. Essas duas conquistas, somadas ao mundial vencido pelo tricolor em 2005, sob a liderança de Rogério Ceni, elevaram o SPFC ao patamar dos maiores do mundo, não tendo, por exemplo, par de tamanha grandeza no Brasil. O tricolor do Morumbi não foi só elevado a esse patamar dos gigantes do futebol mundial por suas conquistas internacionais. A pátria de chuteiras, o país do futebol viu o clube se agigantar sendo o primeiro (e único) tri-hexa campeão no certame nacional. Maior vencedor do campeonato, o SPFC só tem ao seu lado clubes que foram alçados a esses títulos de formas no mínimo duvidosas, como o Flamengo que, até decisão do STJD, se auto intitulava hexa campeão. Jamais foi. O campeonato de 1987 foi vencido pelo Sport de Recife. O Corinthians precisou, em 2005, de uma ajuda providencial de jogos remarcados numa suspeitíssima reta final de um campeonato que era vencido, com folga, pelo Internacional de Porto Alegre. Nem mencionar os títulos via fax de Santos e Palmeiras, que ganharam títulos do campeonato brasileiro quando... o campeonato brasileiro ainda não existia!
Hoje, no campeonato brasileiro de 2017, enquanto escrevo essas linhas, o SPFC ocupa na 18ª posição da tabela, a zona da degola. Isso aconteceu pouquíssimas vezes na história do clube que, vale lembrar, entre os times considerados grandes, é o mais jovem. Para os torcedores de clubes rivais, a mídia esportiva ultra clubista (vide a corintiana Globo, por exemplo), essa é a “crise” do São Paulo. Sofredores da síndrome da memória curta, esquecem que seus clubes não só estiveram nessa situação, como não conseguiram (como o SP já fez em 2013), sair dela. O descenso foi realidade para esses clubes (no caso do hoje endinheirado Palmeiras, duas vezes...). Então, onde está o sentido de tripudiar o momento do clube, quando esses mesmos já estiveram em situações ainda piores? Para se defender, ressaltam uma suposta arrogância da torcida são-paulina. É um engano. Não somos arrogantes, nem prepotentes, nem vivemos do passado. Ainda que nosso último título tenha sido conquistado em 2012, nós sempre fomos acostumados a ganhar. O normal no SPFC é vencer e ganhar títulos. Está no DNA da agremiação e em nós, torcedores. No meu caso, o meu amor pelo SP é o mesmo daquele garoto vendo o mundial pela tv a mais de 20 anos atrás. Jamais abandonarei e deixarei de ter fé no meu time, porque ele é o melhor, é o maior. E isso não é um mero discurso, está gravado em pedra, na história do futebol. Serei São Paulo F.C sempre, pois ecoa em mim, todos os jogos, o verso do nosso hino, que diz: entre os grandes, és o primeiro!
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