O descobridor da América
por Leo Lepri
Analisar a foto da seleção brasileira vice-campeão mundial sub-20 em 2009 é um bom exercício de memória. Faça o teste, amigo. Digite aí no Google e tente adivinhar o nome de todos os jogadores que aparecem. Na imagem, registrada no dia da final contra Gana, alguns rostos serão facilmente reconhecidos em uma rápida e primeira examinada. O PH Ganso, de tão magrinho, chega a dar dó. Giuliano com faixa de capitão e tudo. Douglas, o lateral. Rafael Tolói, zagueiro ainda com cara de menino que não assusta ninguém. Souza, Alan Kardec e aquele camisa 6 que faz o torcedor franzir a testa ao mergulhar no mais profundo das lembranças.
Em 2009 o mundo estava assustado com um surto de gripe suína. Um avião que saiu do Rio de Janeiro com destino a Paris caiu no Oceano Atlântico causando a morte de 228 pessoas. Michael Jackson foi encontrado sem vida em sua casa nos Estados Unidos, e Diogo Silvestre era o promissor lateral esquerdo da Seleção brasileira no mundial da categoria.
Realmente eram tempos difíceis para se viver. O garoto prodígio da base do São Paulo precisava de pista, estava pedindo passagem. Com poucas chances no time principal, decidiu entrar na Justiça para ter o passe na mão e fazer o próprio destino. Outra promessa antes dele, um meia de nome Oscar, já tinha marcado o atalho. Conseguiu a liberação para seguir a carreira no Internacional, onde era aproveitado. Só que a sorte de Diogo foi outra. A Justiça inclinou a balança a favor do Tricolor e o talento terminou encostado em Cotia.
"Não me incomoda falar do passado. Daquele episódio ficou a aprendizagem. Acho que se pudesse voltar no tempo não faria (ter entrado na Justiça). Se eu não tivesse feito tudo isso, certamente teria explodido muito antes".
É dessa forma que Diogo, aos 26 anos, olha para trás enquanto conversa com o Blog – misturando palavras em espanhol e português – no centro de treinamento de seu novo clube; o Estudiantes de La Plata. Ele será o único brasileiro a disputar essa temporada do futebol argentino (Campeonato e Copa). "Para mim também foi uma surpresa vir para cá, para a Argentina, porque não é o normal. É um desafio muito grande fazer o caminho inverso do que os jogadores estão acostumados, mas eu gosto de desafios."
De fato se trata do caminho oposto. Enquanto o futebol brasileiro se vê cada vez mais inundado de jogadores hablando castellano, o lateral esquerdo arrisca seu portuñol nas tradicionais ligas do Rio da Prata. Ele está sim no sentido contrário, mas não significa estar no sentido errado. Quando pensa nisso, Diogo prefere destacar a visibilidade e os benefícios de atuar em um clube com chances reais em competições internacionais.
"É muito importante estar aqui. Não desmerecendo nenhum clube no Brasil, mas é importante para o jogador vir para um time do tamanho do Estudiantes, que disputa mais de um torneio no ano. Aqui eu tenho a oportunidade de jogar a Copa Sul-Americana e talvez uma Libertadores. Também tem o campeonato local e a Copa Argentina. São muitos os campeonatos para eu poder demonstrar o meu futebol."
Ninguém menos do que La Brujita Verón foi buscá-lo do outro lado do charco, como é costume por aqui quando se referem ao Río de La Plata. O ex-jogador e hoje presidente do clube também está envolvido no processo de reorganização e gestão da nova AFA. Sobre o patrão, Diogo é só elogios; "Uma pessoa fantástica. O jogador que foi, o nome que tem e uma humildade impressionante. Só quem conhece sabe do que estou falando. Posso dizer que é um presidente diferente, compreende mais o jogador, sabe aquilo que a gente precisa".
Mas não pense o leitor que qualquer um está credenciado para o campeonato argentino. "Não é fama não. O futebol aqui é mais pegado sim, mais força mesmo. O futebol brasileiro é diferenciado, tem mais passes. Se hoje estou na Argentina, é porque antes tive a experiência de ter jogado no Uruguai. Se não tivesse passado por lá, acho que não teria chances por aqui. O futebol na Argentina e no Uruguai são muito parecidos, mas aqui se joga um pouco mais com a bola no pé".
Voltando um pouco mais no tempo, depois que saiu do São Paulo o lateral jogou em Portugal. Na Europa, tinha duas propostas em mãos: permanecer no Velho Mundo atuando em um clube romeno, ou voltar à América do Sul para defender um gigante do continente. Não pensou duas vezes. Diogo pegó la vuelta.
"Eu tive a felicidade de jogar no Peñarol. Não posso afirmar que o meu ciclo por lá acabou. A melhor passagem da minha carreira foi no Uruguai e acho que deixei as portas abertas. A torcida gosta de mim. Não posso dizer que são todos, mas a maioria (risos). Era para ser um contrato de apenas seis meses e acabou virando de dois anos. Eu consegui demonstrar o meu futebol, demonstrar a pessoa que eu sou. Hoje posso dizer tranquilamente que saí do Peñarol de cabeça erguida".
Assim, tranquilo e com o pensamento em algum dia voltar a jogar no Brasil, Diogo segue a carreira preenchendo o curriculum com históricos campeões da Libertadores.
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