Quem gosta de ler,sensacional!!!

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wagner12345

Os mais antigos e os cinéfilos vão se lembrar de um grande filme britânico de 1967 com Sidney Poitier chamado “To Sir, with Love”, um drama muito conhecido no Brasil como “Ao Mestre, com Carinho” que passava sistematicamente na Sessão da Tarde nos anos 70 e 80 (não sei por que esse filme não aparece em canais cult atualmente). Poitier, negro, encarna o papel do engenheiro desempregado que vai dar aulas em Londres para um grupo de alunos tão brancos quanto rebeldes. Aquele bando de adolescentes indisciplinados e arrogantes logo mostra grande repulsa pela chegada do novo professor, que encara com coragem e muita honradez o duro desafio de endireitar aqueles jovens desordeiros. A questão racial tem seu peso forte no filme, mas a história vai muito além disso. As lições são muitas, e acho que cabe aqui uma comparação com os poucos meses de trabalho de Juan Carlos Osorio no São Paulo.

Osorio não é negro, mas é estrangeiro e treinador de futebol tentando a sorte no Brasil. Há uma certa rejeição a esse tipo de figura por aqui, sabemos que existe um corporativismo entre os técnicos brasileiros que não veem com bons olhos a chegada de profissionais gringos da prancheta, um medo de perderem o mercado nacional. Esse pé atrás com treinadores estrangeiros se estende a parte da imprensa e, por tabela, aos torcedores brasileiros. É como se o técnico gringo fosse mesmo um peixe fora da água aqui, pois temos todas as nossas diferenciadas peculiaridades: um calendário diferenciado, uma arbitragem diferenciada, um tribunal diferenciado, uma organização diferenciada, um estilo de jogo diferenciado, uma torcida diferenciada, uma imprensa diferenciada, uma educação diferenciada etc.

Muito preparado, deveras estudioso e bastante polido, Osorio deixa sua Colômbia ovacionado, chorando ao ver como seu trabalho e seu caráter foram tão bem aceitos no Atlético Nacional de Medellín. Latino, ele foi aprender muita coisa sobre futebol e sobre a vida na Europa e nos Estados Unidos, mas deixou saudade também no México, que o cobiça muito agora por conta dos ótimos relatos que jogadores e outros fazem de sua pessoa e de seus métodos. Em poucos meses de Brasil, os relatos que tenho ouvido dos jogadores são-paulinos e dos colegas que acompanham o dia-a-dia dos treinos de Osorio seguem essa linha. Ele é mesmo diferenciado (não quer dizer que é melhor ou pior que os técnicos brasileiros, apenas que ele é diferente, ops diferenciado).

Pois bem, onde está o drama? Osorio em pouco tempo virou logo um alvo de análises, piadas, desaforos e trairagens. Alguns de seus comandados o trataram inicialmente de forma infantil e covarde, casos de Ganso, que saiu de campo rejeitando um aperto de mão diante das câmeras, de Michel Bastos, que pelo menos uma vez soltou palavrão contra o seu treinador por ter sido substituído, e de Centurión, que usou mídia social para alfinetar e questionar o superior que fala sua língua. Talvez o elenco são-paulino seja o mais mimado e mais cheio de egos do país, unindo figuras como Rogério Ceni, Pato, Luis Fabiano, Ganso, Michel Bastos, Wesley etc. Domar essas “feras” não deve ser moleza, e parecia que Osorio seria engolido pelo vestiário logo de cara. Mas, tal qual o professor Mark Thackeray, o Mestre interpretado por Sidney Poitier, Osorio conquistou com conversa, trabalho e bons exemplos seu grupo de indomáveis. Fez Pato jogar o que não vinha jogando há séculos, a ponto de ele ser artilheiro e melhor jogador do time, um jogador cotado para a seleção brasileira e para grandes clubes europeus de novo. Fez Ganso aceitar vez ou outra um descanso e virar um jogador um pouco mais participativo, rendendo em bom nível até como “falso 9”. Fez rodízio até com Rogério Ceni, que, em fim de carreira, admitiu estar aprendendo muito com seu último Mestre (Osorio tem licença máxima da Uefa, ele sim pode ser chamado pelos jogadores e até pelo articulado goleiro-artilheiro tricolor de “Professor”). Fez Breno, um cidadão que ficou praticamente quatro anos desenganado, um jogador que foi dado como morto, voltar em grande estilo, ousando escalar o outrora zagueiro de volante num clássico contra o Corinthians, maior rival e líder (Osorio venceu muito bem a batalha tática contra Tite, o melhor técnico do Brasil, e só não o venceu por causa das traves e de um pênalti não marcado e não chorado por ele no final, assim como só não venceu bem o atual técnico bicampeão brasileiro, Marcelo Oliveira, porque seu time perdeu alguns gols e Rogério entregou o ouro para o Palmeiras no fim). Fez Milton Cruz, um auxiliar aparentemente inofensivo mas que é um eficiente leva-e-traz da diretoria são-paulina, virar verdadeiramente seu amigo e fã (pelo que ouvi, Milton o coloca como um dos dois técnicos com quem ele trabalhou que mais entendem de futebol).

Osorio não teve que se desdobrar apenas para ganhar seu elenco e os seus pares de trabalho. Ele foi surpreendido pela arbitragem brasileira. Não porque essa é ruim (e sabemos que ela é um mundo à parte), mas porque não se pode sequer conversar com um homem do apito no Brasil. Osorio foi expulso no início do seu trabalho basicamente por se direcionar ao árbitro e falar o seguinte: “A advertência do meu jogador [Bruno> foi injusta, você errou, você está equivocado”. Osorio foi motivo de brincadeiras por conta de suas canetas e seus bilhetes na imprensa desde antes de sua chegada, mas aqui passou a conviver muito com o rótulo de “Professor Pardal”, algo pejorativo usado especialmente por alguns jornalistas que são avessos a improvisações, testes, troca de posições, rodízio etc. “Carlinhos, lateral-esquerdo, como ponta-direita? Olha o Professor Pardal”, ouvi e li aqui e ali. Foi assim, por exemplo, que o São Paulo eliminou o Ceará da Copa do Brasil jogando fora de casa. Carlinhos, quando atuou mais adiantado, rendeu melhor do que como lateral, até gol fez contra o Palmeiras. Mais um acerto de Osorio em suas tentativas. Ele arrisca, ele experimenta, ele não faz o óbvio, ele surpreende, pensa.

Mais recentemente, li e ouvi alguns colegas da imprensa questionarem o desempenho de Osorio no São Paulo apontando para seus números no clube, algo lógico mas que não explica tudo. Seu aproveitamento é mediano, ronda 50%, mas ele eliminou o Ceará da Copa do Brasil com só 50% de aproveitamento no confronto (perdeu um jogo incrível no Morumbi com seu time fazendo mais de 20 finalizações a gol, a derrota foi um aborto da natureza, segundo os mesmos frios números). Em cerca de quatro meses, Osorio deve ter usado mais garotos e novidades no time do São Paulo do que Muricy Ramalho em quatro anos. Além de Renan Ribeiro no gol, Lyanco, Auro, Matheus Reis, Lucão, João Schmidt e João Paulo atuaram com ele em jogos importantes. Auro estava para sair, só ficou porque sabia que seria utilizado. Lucão era execrado mesmo sendo da seleção sub-20, virou um zagueiro mais confiável jogando ao lado do ainda jovem e bom Rodrigo Caio. Osorio driblou o desmanche do elenco são-paulino dando vez para a outrora esquecida base tricolor. Cotia enfim chegou à Barra Funda. Não foi assim que Osorio planejava, mas foi o que fizeram com ele. Tiraram dele a chance de disputar o título do Brasileiro, a diretoria não mentiu sobre o desmanche, apenas omitiu, assim como fez com a crise econômica do clube. Quando Osorio chegou, o pagamento de alguns atletas estava atrasado, inclusive o de “Alexander” Pato. Não deve ter sido nada fácil motivar esse time vaidoso, caro, mimado e com pendências. Basta ver como Michel Bastos se colocava publicamente antes.

Osorio teve que lutar contra os jogadores, contra os diretores, contra os árbitros e até contra a própria torcida. No insosso empate contra a Chapecoense, ele ousou falar uma verdade: o torcedor daqui não comparece em peso nem apóia o time o tempo todo, o torcedor brasileiro espera que o seu time o inflame, e não o contrário. Todos sabem disso há séculos, mas poucos têm a coragem de dizer isso publicamente. Precisou vir um estrangeiro para jogar luz sobre essa questão. Há uma hipocrisia enorme no futebol, um meio rodeado de mentiras e falsidades, coletivas improdutivas e dispensáveis, muito se fala de futebol e pouco se diz. Mesmo os melhores treinadores brasileiros vivem de rodeios, de frases feitas, de fugir dos assuntos mais picantes, de desviar o foco. Osorio é direto, é sincero, não deixa pergunta sem resposta. E isso choca muita gente. Ele recebeu muitas críticas porque disse em uma coletiva que não confiava na diretoria do São Paulo “no que se refere à perda de jogadores do elenco”. Ele não buscou a imprensa para falar isso, ele respondeu uma pergunta sobre isso. Que inveja que tenho dos repórteres que cobrem o São Paulo neste momento. Eles podem perguntar qualquer coisa que sabem que ouvirão a verdade de Osorio. “Não, Milton Cruz não sai do São Paulo, ele não vai comigo para o México se eu for para lá.” “Sim, meu sonho é treinar uma seleção numa Copa do Mundo e quero fazer isso antes dos 60 anos.” “Não, não tenho nenhum acerto ainda com a Federação Mexicana.” Osorio fala e não deixa dúvida, mas duvidam dele como se quem merecesse crédito fosse a diretoria são-paulina. O presidente Carlos Miguel Aidar diz num dia que a dívida do clube é alarmante e bate em R$ 270 milhões, mas no outro dia diz que ela não é preocupante e que é “só” de R$ 130 milhões. Faz acordos nebulosos com comissões comprometedoras com empresa de material esportivo, empresários e empresas para lá de suspeitas, talvez até sofra um impeachment no clube. Entre acreditar num cartola vaidoso como esse e num técnico simples como Osorio, eu fico facilmente do lado do treinador. Talvez eu não concorde quando ele fala uma outra coisa (“Alexandre Pato é dos um dos melhores de sua posição no mundo”), mas sei que ele fala porque acha aquilo mesmo, não tergiversa, o papo dele não faz curva. Por isso que suas coletivas estão entre as melhores da história recente do futebol brasileiro. Destoam. Ele explica bem taticamente o que faz, as escalações que usa, as substituições que promove. Ele assume a culpa nas derrotas (como quando menosprezou o Goiás no Morumbi tendo como base a posição do adversário na tabela e seus resultados antes do confronto no Morumbi). Ele também não se vangloria quando vai com um time de moleques para Porto Alegre vencer o Grêmio, algo singular neste Brasileiro, ou quando vai para o ataque contra o Galo no auge em BH em um dos melhores jogos do campeonato, um no qual ele saiu derrotado mas poderia muito bem ter vencido.

. Ele não é perfeito nem é a Madre Teresa de Calcutá, mas, repito, ele é diferente, ou, pior dizendo, ele é diferenciado. Ele é tão estrangeiro como eram Ricardo Gareca e Diego Aguirre, mas cada um é vangcada um. Osorio enfrentou problemas e situações diferentes, ele tem métodos e comportamento próprios, podemos compará-lo com outros treinadores gringos apenas até a página 9. Que grande personagem o futebol brasileiro recebeu. Não sei se ele ficará só mais alguns dias no Brasil trabalhando, mas certamente ele já deixou algumas boas lições (assim como fez o marcante personagem de Sidney Poitier dentro e fora da sala de aula) para jogadores, técnicos, juízes, jornalistas, torcedores, pessoas em geral. Osorio é muito do bem e, como um bom aluno (à distância) e fã dele, deixo aqui minha humilde homenagem a esse corajoso, inteligente, ousado, inovador, nobre e autêntico treinador de futebol.

http://m.foxsports.com.br/blogs/view/220595-ao-mestre-osorio-com-carinho

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