Análise: Lugano pode devolver ao São Paulo valores de um time vencedor - Por Alexandre Lozetti
http://globoesporte.globo.com/futebol/times/sao-paulo/noticia/2015/11/analise-lugano-pode-devolver-ao-sao-paulo-valores-de-um-time-vencedor.html
Todos os argumentos contra o retorno de Diego Lugano ao São Paulo soam válidos, aceitáveis, alguns bastante pertinentes. Trata-se de um jogador de 35 anos cujo auge ficou para trás, e de um baixo número de atuações nos últimos 18 meses. Não se pode condenar a diretoria por não tê-lo contratado nas oportunidades que teve, desde o ano retrasado. Mas...
Sempre há um "mas", e nesse caso há vários. Eu, se fosse um dos responsáveis pelo futebol do São Paulo, o presidente, o vice, o executivo ou o diretor, contrataria Lugano.
Se na sua casa falta uma lâmpada, você compra a lâmpada. Se falta uma cadeira na sala, é preciso ir à loja de móveis. Se o problema for abstrato e faltar amor, união, amizade, a solução não é tão simples. No time do São Paulo faltam valores que não se encontram na prateleira.
Valores, no esporte, são peculiares. São valorosos os atletas e equipes que mantêm acesa a luz da competição até a última gota de suor, e a consciência de que são responsáveis pela alegria ou tristeza de milhões de pessoas. Ou que não colocam seus interesses e caprichos pessoais acima do objetivo coletivo, do desejo de todos, do sucesso do clube e do amor dos torcedores.
Na tentativa de reconstituir sua imagem após escândalos, tapas e beijos de seus dirigentes, o São Paulo também precisa reaver os sentimentos que deseja passar com sua equipe de futebol. A torcida está machucada. Nos últimos sete anos, apenas um título. O Corinthians, multicampeão no período, é campeão brasileiro de novo, e Santos e Palmeiras estão na final da Copa do Brasil.
Mais do que resultados, o são-paulino quer voltar a sentir orgulho de seu time e prazer de ir ao Morumbi. Hoje, há uma distância entre gramado e arquibancadas muito maior do que a pista de atletismo do estádio. São pessoas que habitam o mesmo ambiente, mas não conversam. Não se falam. Não se entendem. Os problemas dessa casa Lugano pode resolver muito bem.
O uruguaio chegou em 2003 ao São Paulo e mal sabia dominar uma bola. À noite, no escuro, tabelava com os muros do CT para se desfazer do rótulo de "jogador do presidente".
Quando o Tricolor foi eliminado pelo River Plate, na semifinal da Sul-Americana daquele ano, Lugano foi um dos que perderam pênaltis na disputa. Ele descia a escada rumo ao vestiário, mas desistiu no meio do caminho e voltou a campo para retribuir os aplausos da torcida. Criou-se ali uma relação de respeito e cumplicidade que conduziu os títulos dos anos seguintes.
O zagueiro tem alma peculiar. Não gostava de trocar camisas, não admitia sorrisos depois de derrotas e jamais cobrou um companheiro dentro de campo, na vista das câmeras e dos olhares dos torcedores, para não jogá-lo a uma exposição pública. Mas, no vestiário, olho no olho, exigia de cada um os tais valores que carrega desde que era garoto na pacata cidade uruguaia de Canelones. E valores de vida são pilares de qualquer construção.
Nos últimos anos, o São Paulo optou por jogadores popstars. Bons meninos, longe de serem vilões, mas incapazes de assimilar tais valores que podem transformar uma equipe talentosa em vencedora. Se quiserem montar um DVD desse período de lances plásticos, gols bonitos e passes geniais, faltará espaço no disco. Mas se procurarem por vitórias épicas ou classificações heroicas, não haverá material suficiente para um Show do Intervalo.
O São Paulo é o time dos jogos fáceis. Nesses, seus talentosos astros do Instagram deitam e rolam. Mas não é o time que corre, sua e se suja mais do que está acostumado para conseguir vencer uma partida mais difícil, um adversário mais guerreiro.
"E o futebol?", hão de perguntar. Criaram-se alguns mitos em relação a Lugano – sem trocadilhos com o grandiosíssimo Rogério Ceni, símbolo da competitividade que vai se aposentar e deixar aberta uma lacuna insubstituível na referência para os torcedores. Um deles diz que o uruguaio só pode jogar no 3-5-2, quando, na verdade, ele só atuou nesse sistema no São Paulo. Outro garante que Lugano é um jogador apenas regular, superestimado pela idolatria tricolor. Bobagem.
Desde que ele deixou o país, em 2006, o São Paulo só teve um zagueiro superior: o craque Miranda. Breno, um fenômeno, jogou pouquíssimo tempo. Houve alguns similares e muitos bem piores que Lugano, capitão numa Copa do Mundo em que o Uruguai chegou à semifinal e na conquista da Copa América na Argentina, com direito a eliminar o anfitrião Messi e companhia.
É fato que sua característica não se encaixa no ideal de futebol que a diretoria vislumbra: defensores velozes, que iniciem a armação das jogadas, consigam pressionar o adversário numa linha adiantada, tenham certa habilidade com a bola nos pés.
Mas, sem dinheiro para montar o grupo que considera ideal, com espaço para zagueiros piores tecnicamente e sem nenhuma chance de criarem a história que Lugano construiu no futebol, carente de autoestima dentro e fora do campo e reincidente num modelo de contratações que enchia o estádio na apresentação dos reforços, e depois não mais, o São Paulo pode fortalecer o amor do jogador pelo clube, da torcida pelo jogador. O amor, dizem, costuma vencer.
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