As investigações conduzidas pela Polícia Civil sobre movimentações financeiras envolvendo o São Paulo e o ex-presidente Júlio Casares apontam para uma prática conhecida como “smurfing”, termo utilizado para descrever a fragmentação de grandes valores em diversos depósitos menores com o objetivo de evitar mecanismos automáticos de controle bancário.
A técnica consiste em dividir quantias elevadas em várias operações de menor valor, muitas vezes abaixo do limite que obriga comunicação automática ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras, atualmente fixado em R$ 50 mil. Por esse motivo, os depósitos passam despercebidos pelos sistemas de alerta, o que levanta suspeitas sobre a real origem dos recursos.
A apuração teve início a partir de uma denúncia anônima, mas ganhou corpo com base em um relatório do Coaf que analisou movimentações em contas do São Paulo e de Júlio Casares entre janeiro de 2023 e maio de 2025. No período, foram creditados R$ 3,19 milhões em uma conta vinculada ao dirigente.
Desse total, R$ 1,49 milhão foi depositado em dinheiro vivo, sem identificação da origem, diferentemente de transferências eletrônicas. O relatório destaca o número elevado de depósitos em valores reduzidos, alguns muito próximos do limite de notificação obrigatória, como operações de R$ 49 mil.
Em um dos trechos, o documento aponta a ocorrência de 12 depósitos em um único dia, o que, segundo o órgão, evidencia uma tentativa de burlar os mecanismos de controle. O relatório afirma que a evolução da forma de depósito sugere uso deliberado da técnica de smurfing para evitar alertas de compliance.
Outro ponto levantado diz respeito à incompatibilidade entre os valores movimentados e a renda declarada. Do total creditado, apenas R$ 617,5 mil teriam relação com o salário recebido como presidente do São Paulo. O restante, cerca de R$ 2,57 milhões, não possui lastro salarial identificado.
O relatório do Coaf destaca que, na prática, para cada R$ 1 com origem comprovada, outros R$ 4 ingressaram na conta sem vínculo com folha de pagamento. A predominância de depósitos em dinheiro é apontada como um dos principais indícios de tentativa de integrar recursos não contabilizados ao patrimônio pessoal.
As investigações também alcançam familiares de Casares. Contas em nome de sua filha, Deborah de Melo Casares, e de sua ex-mulher, Mara Suely, foram analisadas. Em alguns casos, foram identificados depósitos em espécie com valores ligeiramente abaixo do limite de comunicação automática, reforçando a suspeita de estruturação das operações.
O Coaf descreve ainda uma “operação combinada”, envolvendo depósitos em contas pessoais e em uma empresa da qual Deborah é sócia, também realizados em dinheiro vivo. Ao todo, R$ 157,1 mil foram identificados em depósitos fracionados nessas contas em um curto intervalo de tempo.
Para o órgão, o conjunto das movimentações indica um esquema financeiro atípico, estruturado para operar à margem dos controles bancários e fiscais. O relatório também aponta a manutenção de vínculos financeiros relevantes entre Casares e Mara, sugerindo comunhão de interesses econômicos mesmo após a separação formal.
A defesa de Júlio Casares afirma que os valores possuem origem lícita e correspondem a economias acumuladas ao longo de sua carreira no mercado privado. Segundo os advogados, o dirigente passou a utilizar recursos próprios em espécie após assumir a presidência do São Paulo, quando teve redução significativa de renda.
Os representantes sustentam que a investigação não atribui crime específico a Casares e que a origem, o lastro e a finalidade dos valores serão comprovados no decorrer do processo. O inquérito segue em andamento, com análise detalhada das movimentações e dos vínculos financeiros apontados no relatório.