Em setembro de 1970, o Tricolor de Toninho Guerreiro, Pablo Forlán e Gerson encerrou o maior jejum da história do clube, 13 anos, período em que construía o seu estádio.
A festa daquele título paulista aconteceu no jogo da entrega das faixas, vitória por 1 a 0 contra o Corinthians, com gol do ex-ponta-esquerda Ademir de Barros, o Paraná. Hoje morando em Sorocaba, Paraná disse que até hoje não viu o golaço marcado naquele jogo. Ou melhor, não havia visto.
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A reportagem do Esporte Espetacular foi buscar o vídeo no Acervo da TV Cultura, mostrou o golaço do camisa 11, passando entre dois corintianos, tabelando com Terto e acertando um chutaço de fora da área, no ângulo do goleiro Ado.
– Nunca fui de ver jogo depois, e antigamente só passava um videoteipe, né? Sei que teve um rapaz de Sorocaba que me falou que o gol passou na televisão recentemente, mas não vi – contou Paraná, hoje com 78 anos.
O ex-ponta não via videoteipes de gols seus, não participava de festas de título e diz que, no futebol, só se emocionava mesmo com o Morumbi lotado. Para quem havia jogado apenas no São Bento de Sorocaba, chegar no São Paulo com 23 anos, em 1965, para jogar naquele que seria o maior estádio particular do mundo era algo de outro mundo.
Paraná, que tem o apelido por ter nascido em Cambará, interior paranaense, talvez não tenha dimensão da importância que ele e aquele time de 1970 têm na história do São Paulo. A equipe conquistaria o bi paulista no ano seguinte. E até 2012 – quando ganhou a Copa Sul-Americana, o título mais recente – o Tricolor paulista não passaria mais de três anos sem ser campeão.
Pela seleção brasileira, Paraná disputou a Copa de 1966, na Inglaterra. Em 1970, não foi convocado. E o título mais importante da vida dele foi o Paulista daquele ano, o primeiro do São Paulo na Era Morumbi e que encerrou a fila de 13 anos.
Leia a entrevista:
Havia muita pressão sobre aquele time do São Paulo por causa dos quase 13 anos sem título?
– Não, não tinha muita pressão porque o São Paulo estava construindo o estádio (na maior parte do período do jejum de título). E melhorou bem pra nós porque vieram o Gerson e o Toninho Guerreiro (ambos em 1969), veio o Forlán (em 1970) também lá do Uruguai, então já melhorou. E depois em 71 veio o Pedro Rocha. Mas só a vinda de Gerson e Toninho já ajudou bastante.
O São Paulo bateu na trave em anos anteriores, não?
– É, em 1967, nós perdemos o campeonato (Paulista) praticamente no último minuto de jogo (contra o Corinthians, pelo segundo turno, por pontos corridos). Estávamos ganhando de 1 a 0, fizemos uma falta e eu falei para o Walter jogar a bola fora. E o Armando Marques, o árbitro, falou: "Seu Ademir, como joga a bola fora?" (risos). Aí o Clovis bateu a falta, o Tales subiu atrás do Nenê e meteu a bola para o meio. O (ex-centroavante corintiano) Benê veio, errou o chute, mas fez o gol. Empatamos o jogo... Aí tivemos de disputar o jogo desempate contra o Santos, mas o Santos tinha um time melhor do que o nosso, mais inteiro. Aí perdemos o campeonato para o Santos.
(Nota: o Santos ganhou oito dos dez Paulistas disputados nos anos 1960).
E o vestiário depois?
– Chegamos lá no vestiário, os caras chorando, e eu falei para o Walter: "Por que não jogou a bola fora?". E ele: "Se eu jogo a bola fora, o Armando Marques me expulsa". Falei: "Walter, se você joga a bola fora e ele te expulsa, a gente acaba o jogo, faltava um minuto". Acho que fui um dos únicos que não chorou por causa disso.
A grande mudança vem em 1970...
– Aí vem o campeonato de 70, com o Gerson e o Toninho... Toninho foi o artilheiro do campeonato (com 13 gols). E praticamente ganhamos o título no jogo contra a Ponte Preta (vitória por 2 a 0, no Morumbi), que era um time que estava perto de nós também. Foi um jogo que o Gerson torceu o tornozelo, depois entrou o Nenê, e o time continuou no mesmo ritmo. Estava todo mundo acostumado porque jogávamos todos juntos.
(Toninho Guerreiro é o único jogador a conquistar o Paulistão cinco vezes seguidas, de 1967 a 1971, três pelo Santos e duas pelo São Paulo. Ele morreu em 26 de janeiro de 1990, com 47 anos).
E o título só foi confirmado mesmo com a vitória sobre o Guarani, na penúltima rodada...
– Sim, depois fomos para Campinas jogar contra o Guarani. Já no primeiro tempo fizemos 1 a 0, fui no fundo e toquei para trás, e o Toninho fez o gol. Depois fizemos o segundo gol com um lançamento do Jurandir para o Paulo Nani e ele fez o segundo gol. No fim, com as luzes apagando já, o Sergio (goleiro) tomou um frango... Nós quase batemos no Sergio (dá risadas)... Mas aí ganhamos e já fomos campeões. E depois teve o jogo final, contra o Corinthians. O Corinthians dizia que ia carimbar nossa faixa, mas nós que carimbamos o Corinthians, ganhamos de 1 a 0 e eu fiz o único gol do campeonato. Até hoje, faz 50 anos, e eu não vi o meu gol até hoje. E eu ganhei todos os prêmios do jogo porque fui o melhor jogador em campo. E foi o primeiro gol que fiz no campeonato.
Você não gostava de ver gols e melhores momentos dos jogos em que você atuava?
– Nunca fui de ver jogo depois, e antigamente só passava um videoteipe, né? Sei que teve um rapaz de Sorocaba que me falou que o gol passou na televisão recentemente, mas não vi.
E como foi a festa pelo fim do título?
– A festa mesmo eles fizeram em Campinas. Mas eu não fui porque tinha nascido a minha primeira filha, a Cínthia, e ela estava com minha esposa lá em São Roque, na casa do padrinho dela. Eu saí de Campinas e fui direto para São Roque com o pessoal de lá que tinha ido ver o jogo.
E quanto reencontrou o time?
– Só fui ver a turma nossa no treino lá no Morumbi, no sábado. Eu sou daqueles que nunca participavam das festas (risos). Fui campeão com o São Bento em 1962, o campeonato de acesso. Teve carreata, desfile em caminhão de corpo de bombeiro, mas quando o ônibus chegou em Sorocaba, parou em frente à vilinha que eu morava. Em vez de ir para a festa com o pessoal, fui embora pra casa. Lá no São Paulo também. Quando foi campeão em 70, o pessoal foi todo para a casa do Manoel Raimundo, que financiava o São Paulo, e eu não fui. Em 71, foi a mesma coisa e eu também não fui, eu não era desses. Então, tem duas coisas: eu não festejo e não assisto aos jogos (gargalhadas).
E aquele jogo das faixas contra o Corinthians foi especial, né?
– Para mim foi porque eu fiz o único gol no campeonato, depois de 18 jogos. Queria achar o gol pra mostrar para o meu neto. Tenho um neto de 14 anos que joga futebol de salão lá no Magnus, só não sei se vai para o campo... Ele é o único canhoto da família, mas ele não gosta muito de campo porque ele é da geração do celular e do videogame. Está difícil fazer ele jogar no campo.
Você havia jogado só no São Bento. Qual era a sensação de jogar em um estádio do tamanho do Morumbi?
– Era gostoso a gente jogar com o estádio cheio. E o pior que eu jogava e não ouvia a torcida. Eu entrava no campo e desligava, só via o jogo. Brigava ali, brigava aqui, só depois que terminava o jogo é que voltava ao normal (risos). O que eu lembro também é que a gente treinava físico lá, subia correndo as escadas da arquibancada. Mas era gostoso mesmo ir no jogo porque a gente via o estádio cheio. Logo quando eu fui para o São Paulo, em 65, o primeiro treino já foi no Morumbi. Em Sorocaba era tudo apertadinho, bem diferente.
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Tempos bons que está difícil para que voltem. Naquela época tínhamos administração!
Ótimo ponta esquerda esse Paraná