ENTREVISTA: Volpi fala com exclusividade sobre 'Dinizismo', idolatria no São Paulo e pôquer com o ex-colega Ronaldinho

Fonte ESPN
Tiago Volpi durante partida do São Paulo na temporada Ale Cabral/Getty Images
Quando chegou ao São Paulo, em 2019, Tiago Volpi era o quinto goleiro diferente a encarar o fardo de atuar na posição em que o incontestável Rogério Ceni fora soberano por mais de uma década. E, finalmente, o torcedor são-paulino respirou aliviado.
Com estilo seguro, liderança e poucas falhas, Volpi, enfim, diminuiu a intensidade da sombra que sempre rondou a meta do time.

Emprestado pelo Querétaro do México em 2019, Volpi se firmou e fez com que o São Paulo, que não nada em dinheiro, investisse US$ 5 milhões - cerca de R$ 25 milhões na cotação de hoje - para ter o atleta em definitivo.
Poucos tricolores contestam o investimento. Com Volpi, o gol tricolor voltou a ter um dono depois de muito tempo.

LEIA TAMBÉM: Lucas Moura afirma que ainda quer jogar no SPFC: 'Daqui 1, 3 ou 5 anos'

Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, enquanto cumpre período de isolamento devido à pandemia de COVID-19 e recupera-se de uma fratura na mão direita, o goleiro de 29 anos falou um pouco do significado do São Paulo para ele, de seu período como colega de Ronaldinho no México, do "Dinizismo", de como manter a forma no confinamento e sobre um dia se tornar um ídolo do clube.
E, por fim, ainda revelou ter feito um trabalho com um nutrólogo particular que diminuiu pela metade seu índice de gordura corporal, algo cujo resultado ele vê claramente refletido em campo - e os torcedores também.
Veja abaixo os principais trechos dessa entrevista:
ESPN - Todo goleiro no São Paulo tem a sombra do Rogério Ceni. Até sua chegada, ninguém se firmou e convenceu. Você interrompeu esse ciclo. Quando você sentiu que tinha conseguido?
Volpi -
Eu pensava diferente, quando aceitei vir para cá. Eu sempre tive as melhores expectativas. Lógico que eu sabia dessa sombra, mas eu sempre tentei encarar com orgulho e naturalidade o fato de o maior ídolo do meu clube ser um cara da minha posição, isso é raro. Acho que o fim de 2019 foi muito importante. Começamos o trabalho cheios de incertezas e um primeiro semestre que poderia ter sido melhor.
Mas acho que nos pênaltis contra o Palmeiras (Campeonato Paulista 2019), a maré começou a virar, com as duas cobranças defendidas. Veio ali uma sobrevida, um voto de confiança que ia se renovando e crescendo a cada jogo, à medida que o desempenho ia crescendo. No fim do ano, com a contratação em definitivo, que não foi uma negociação simples, foi que a ficha realmente caiu. Senti que a responsabilidade enorme ficava ainda maior. O que era desconfiança e incerteza passou a se tornar realidade e constância.
ESPN - Foram quatro temporadas no México, de onde você saiu como ídolo. Esse é um status que você acredita que pode atingir no São Paulo?
Volpi -
Essa idolatria no México veio, como você disse, com quatro anos, um tempo bem significativo no futebol de hoje, não é fácil atingir isso. Lá, houve os títulos que influenciaram muito (Copa do México de 2016 e Supercopa do México, em 2017). Não se pode querer aceleler as as coisas, não pode forçar, vem com naturalidade e acompanhado de conquistas. Ídolo é uma palavra muito forte e pesada, e leva tempo e conquistas para que isso possa vir a acontecer
ESPN - No México, você jogou com o Ronaldinho, e ele agora passa por esse momento complicado. Como foi seu relacionamento com ele e como você vê essa questão da prisão?
Volpi -
Não apenas jogar, mas conhecer o Ronaldinho foi uma experiência única. Ele como ser humano, como pessoa, é ainda mil vezes melhor do que como jogador. Até porque a gente não entende bem o real motivo de toda essa questão, a gente vê uma série de acontecimentos confusos, eu torço, por tudo que ele representa, que seja possível uma solução rápida com ele conseguindo provar sua inocência.
O Ronaldinho era um cara muito querido e a gente tem um gosto em comum, que é o Pôquer. Então, a gente jogava na concentração, com outros jogadores.
ESPN - Deu para tirar um dinheiro do Ronaldinho?
Volpi -
Na verdade, era bem mais fácil ele tirar o meu dinheiro (risos)
ESPN - Acho que não tem uma competição com mais cara de São Paulo que a Copa Libertadores. Como você vê o clube nesta edição, mais como favorito ou azarão?
Volpi -
O São Paulo na Libertadores é sempre uma equipe muito respeitada, não tem como não ser, sendo tricampeão. Vimos isso recentemente, no jogo contra a LDU, que os time vêm aqui e nos respeitam. Temos um trabalho bom e diferente com o Diniz desde o ano passado. A gente não pode trabalhar prometendo conquistar títulos, mas não existe essa de azarão. Seria até falta de respeito com a instituição pensar assim. Essa camisa pesa muito.
ESPN - Tem se falado muito em um estilo de jogo do Fernando Diniz, o "Dinizismo". O que é o Dinizismo para você?
Volpi -
A base do trabalho do Fernando Diniz é muito simples.
Você tem um estilo de jogo, como posse de bola e tomada das ações de jogo, e uma metodologia. O que ele faz é trabalhar esse estilo e esse método todo dia, e a cada dia a gente entende um pouco mais e executa com mais perfeição. Eu respeito todos os meus treinadores e não estou falando isso porque ele é o meu técnico, mas sem dúvida o Diniz é o melhor treinador com quem trabalhei, tanto no nível tático, técnico e pessoal, em saber lidar e tratar o jogador.
Só tenho coisas boas a dizer sobre ele. Foi um acerto muito grande do clube em mantê-lo. Sabíamos quão importante seria ter uma pré-temporada completa com ele. É claro que o resultado influencia, mas vale muito mais o que estamos fazendo em termos de qualidade do trabaho e do desempenho do nosso futebol.
ESPN - O São Paulo vinha numa crescente antes da parada devido ao coronavírus. Você teme que a paralisação possa vir a prejudicar o time no retorno?
Volpi -
Nós do grupo é que temos que cuidar disso, de não podermos deixar que a parada influencie negativamente. Se tivemos um bom desempenho na primeira parte do ano, não podemos pensar que não podemos também ter na segunda. Tem que fluir naturalmente, temos que trabalhar muito. Não acho que, com esse grupo, iremos cair na armadilha de voltar e achar que vai estar tudo bem só porque estava tudo bem antes. Acredito que vamos trabalhar da mesma maneira. E como o futebol não vai voltar assim, imediatamente, haverá um tempo de preparação antes, que pode até nos favorecer.
ESPN - Acabou vindo a calhar, para você, essa pausa, por causa da fratura da sua mão, né?
Volpi -
É, ninguém queria esse momento. Mas, sendo egoista e olhando meu lado, acabou ajudando. Estou tendo tempo para trabalhar com mais calma. Quando eu saí decampo contra a LDU, a gente até achou que que poderia ser algo um pouco mais grave, mas não uma fratura. O nosso prazo era de seis semanas, e eu me machuquei no dia 11, devo estar bem lá para o fim de abril. Hoje, completam-se duas semanas. São mais duas semanas aí de mão imobilizada para, na sétima semana, estar de volta ao trabalho no campo. Vai dar tempo de voltar quando tudo for retomado.
ESPN - E como você está fazendo o trabalho de fisioterapia? Em casa, mesmo?
Volpi -
Eu estava indo ao Reffis até a semana passada. Mas, nesta semana com o aumento do risco da pandemia, nos aconselharam a ficar em casa, então, me enviaram alguns aparelhos aqui para fazer trabalho de fisioterapia e os profissionais do clube vão fazendo o acompanhamento pelo telefone, chamada de vídeo.
ESPN - Você já mencionou ter perdido peso com um trabalho específico para diminuir índice de gordura. Como foi isso, qual foi a maior dificuldade?
Volpi -
Neste ano, eu conheci um nutrólogo, Eduardo Rauen, que me propôs uma alteração total de hábitos alimentares. Tenho encarado da melhor maneira possível, são hábitos novos que a gente cria. O Eduardo é um grande profissional, desde o começo do ano é muito notório que, física e tecnicamente, os resultados são muito bons.
ESPN - E por que você decidiu encarar essa transformação?
Volpi -
Decidi porque você sempre tem que querer melhorar. Se o profissional achar que já está bom, ele não evolui. Em 2019, tive um ano bom no São Paulo. Mas pensei que poderia ter um ano ainda mehor em 2020. E, nesse processo, tenho conseguido bastante resultado.
ESPN - O que mudou na sua alimentação?
Volpi -
Praticamente 100%. Deixei de ingerir alimentos, digamos,"maléficos", além de abandonar hábitos como comer sem uma informação do que era realmente necessário e em qual quantidade. Ou ingerir alimentos que não precisava e que traziam dano.
ESPN - Comer, para muita gente, é um momento muito bom do dia. Você deixou de lado muita coisa de que gostava?
Volpi -
É, comer é um dos prazeres da vida. Deixei algumas coisas que gosto de lado, mas não vai ser para a a vida toda. Só que na vida há prioridades e momentos. Há coisas que podem esperar um pouquinho, vai ter o momento certo. Chocolate, bolo, carne em quantidade grande, como num churrasco, álcool em certo ponto, um vinho, uma cerveja num fim de semana pós-jogo. Com esse trabalho, adquiri a consciência de que esses pequenos hábitos podem complicar a recuperação.
ESPN - Como o médico te convenceu a parar de comer esses alimentos?
Volpi -
Ele vai te convencendo com resultado. O primeiro mês foi duro. Quando você vai buscar a prescrição, sempre vai na esperança de que ele vai liberar uma ou duas vezes na semana. Mas em especial no mês 1, uma derrapada coloca uma semana de trabalho e esforço por água abaixo. Então, o médico te mostra, com o tempo, que compensa. Nos primeiros 15 dias na rotina, você já coomeça a notar as mudanças. Aí, quando chega o dia 16, você nao quer perder aquilo. Você se lembra do que já fez e desiste de comer errado. Com um mês de trabalho, ele liberou o que chamamos de "Dia do Lixo". Mas eu preferi segurar até o segundo mês, porque fiquei muito feliz com os resultados.
ESPN - Você perdeu muita roupa com essa mudança?
Volpi -
Eu pasei a usar cinto, para firmar a calça jeans no lugar (risos). Nunca gostei disso, mas agora precisa.
ESPN - Como era no México, sua alimentação?
Volpi -
No México, eu me alimentava até bem. Porque você treina pela manhã e tem um jogo por semana só, a rotina é mais tranquila. Mas aqui, a gente viaja muito, treina às vezes à tarde, às vezes de manhã, fiquei um pouco perdido. Mas quando comecei o tratamento, ele detalhou tudo e foi mais fácil.
ESPN - Você perdeu muito percentual de gordura, em termos numéricos? O que você sentiu que mudou no seu jogo?
Volpi -
Eu acabei batendo um recorde com o Eduardo, segundo ele, reduzindo meu índice de 12% para 6%. Senti que aumentou muito a velocidade e facilidade para fazer as coisas. Coisa que eu conseguia fazer com muito esforço, parece que faço e ainda fica "sobrando". Uma coisa que comentei com ele é que eu tinha muita fadiga pós-treino. Com a alimentação, depois de 15 dias, já notei que ganhei disposição, que não pesava tanto a rotina
ESPN - E nessa paralisação da quarentena, sem treinar com a mesma carga?
Volpi -
Aí você muda um pouco a dieta, acaba se alimentando um pouco menos e tem que ser mais persistente, para não deixar tentação tomar conta. Um chocolate, vinho, lanche, agora, em que a gente está fazendo menos atividade, faz o prejuízo ser maior. É pior que férias, porque férias tem data para acabar, você sabe quanto tempo vai ficar parado. Mas, agora, na incerteza, é pior, você tem que ir controlando, a ansiedade toma um pouco de conta. Você está vendo um filme ali com a sua esposa, dá aquela vontade de comer um chocolate (risos). O bom é que o Eduardo é um cara presente, não é aquele profissional que passa a dieta e te vê daqui um mes. Ele liga, manda mensagem, vai te motivando.
ESPN - Como está sendo encarar essa rotina de confinamento? Imagino que ainda mais para jogadores de futebol, que ficam pouco em casa, esteja complicado.
Volpi -
Claro que não é por uma boa razão. Mas está sendo algo novo na vida e acaba sendo um momento legal. Além do tempo que ganhei para recuperação da minha mão, estou vendo coisas que não consigo ver no dia-a- dia. O treinamento se adpata. A gente treina em casa, minha esposa e eu, e nossa filha de três anos vem brincar de treinar na sala com a gente (risos). Se você souber aproveitar, pode ser diferente também pelo lado bom. O clube nos passou uma programação e alguns atletas, como eu tenho meu nutrólogo, têm os profissionais para auxiliar. Todo mundo tem ali o seu cronogama, ninguém cria o treinamento da propria cabeça.
São Paulo, Entrevista, Volpi, Exclusividade, Idolatria, Ex-colega, Ronaldinho, SPFC
Avalie esta notícia: 11 0
VEJA TAMBÉM
- São Paulo enfrenta o Millonarios na Sul-Americana; Saiba onde assistir e as prováveis escalações!
- POSSÍVEL REFORÇO: Atacante brasileiro deve ficar livre no mercado e dar preferência ao São Paulo
- EXCLUSIVO: Como Roger Machado conseguiu convencer a todos para ficar no São Paulo
- Millonarios e São Paulo se enfrentam em duelo decisivo pela Copa Sul-Americana: Saiba onde assistir!
- Olho nele: Joia do São Paulo é monitorada pelo Barcelona e outros gigantes europeus



Comentários

gatobranco
0 0
28/03/2020 07:53:34

excelente profissional e caráter....graças a ele tomamos menos gols...

robertredford
bronze
3 0
27/03/2020 16:50:37

Nossa eu sou muito desinformado mesmo, pois eu achava ilusóriamente que dentro do clube já havia essa disciplina alimentar que o Volpi tem que fazer com um Nutrólogo, o cara tem que contratar um nutrólogo a parte... inacreditável.

Enviar comentário
Para enviar comentários, você precisa estar cadastrado, clique Aqui. Para fazer login, clique Aqui.

Próximo jogo - Sudamericana

Ter - 21:30 - -
Millonarios
Millonarios
São Paulo
São Paulo
FórumEntrar

+Comentadas Fórum

Entrar

+Lidas Notícias

LogoSPFC.net
©Copyright 2007 - 2026 | SPFC.net