Lá pelo início da década de 90 do século passado, havia uma frase que era repetida feito mantra por quem vivia o futebol paulista: “O São Paulo é um clube diferente”. Não havia exagero na afirmação.
O São Paulo Futebol Clube era, de fato, um clube diferenciado em relação aos rivais. Tinha um centro de treinamento que era sonho para os adversários, blindava seu futebol profissional da política de clube e colecionava conquistas com base numa administração moderna para os padrões da época.
Fui repórter setorista no São Paulo por vários anos naquele período. Era fácil comprovar a tese proposta por aquela frase. Tudo no Tricolor funcionava feito relógio. O CT era um brinco, os dirigentes jamais deixavam repórteres sem resposta (ainda que fosse vaga e dissimulada), raramente alguém plantava uma notícia que colocasse em risco a paz no time. Havia um acordo tácito na política, que preservava o futebol e era respeitado. A oposição existia, atuava fortemente e era respeitada pela situação.
Para evitar que notícias vazassem, muitas vezes havia reuniões extraoficiais do Conselho Deliberativo ou dos chamados cardeais, as principais forças políticas do clube, longe do Morumbi. O futebol tinha um comando claro, exercido por um grupo de dois, três diretores, com amplo debate interno de ideias.
Esse mundo então exemplar para os bagunçados clubes de futebol paulistas e brasileiros desapareceu do Morumbi. Ainda que tenha vencido, com ampla justiça, três títulos nacionais consecutivos e uma Libertadores neste século, o São Paulo regrediu politicamente, o que teve reflexos evidentes na gestão de seu vitorioso futebol.
Basicamente, o que houve foi uma priorização da vida política do clube sobre as diretrizes do futebol. O poder passou a ser mais importante do que os títulos da equipe e a gestão profissional. Aquele acordo político que previa alternância de poder e valorização das ideias oposicionistas acabou jogado no lixo. A oposição, por sinal, foi dizimada e houve uma centralização de poder por parte do presidente Juvenal Juvêncio.
Talvez inflamado pelo sucesso do tricampeonato nacional, Juvêncio tomou as rédeas do clube e do futebol e deixou de lado o que havia de melhor: o amplo espectro de ideias e de bons nomes que pensavam o futebol. Perdeu-se o diferencial. A política são-paulina de hoje remete aos piores momentos dos arquirrivais Corinthians e Palmeiras em períodos recentes, que culminaram em rebaixamentos de ambos.
Outrora citado como ilha de tranquilidade, o Tricolor hoje oferece um emprego de alto risco ao mercado: o de técnico do seu time de futebol. Desde 2009, já passaram seis profissionais pelo cargo - e o presidente é o mesmo. O mandatário intervém diretamente no time de futebol, afasta jogadores, determina períodos de concentração e desautoriza publicamente diretores e treinadores. Contrata com a arrogância de quem acha que sempre acerta, acredita possuir tesouros nas categorias de base e o resultado quase nunca aparece.
O São Paulo atual não é um time ruim, mas também está longe de figurar entre os principais elencos do país. Tem deficiências gritantes em setores fundamentais. Para não sofrer o que seus coirmãos sofreram ou sofrem, o clube precisa de uma dose extra de desprendimento e pensamento coletivo. Dá tempo de corrigir a rota e evitar o desastre. Mas é preciso humildade e desapego.
Tricolor perdeu o diferencial
Fonte Blog do Mauricio Norie
9 de Julho de 2013
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