O maior título do São Paulo
A receita do Tricolor se misturou à alma das torcidas e pasteurizou o modo de amar um time
É difícil dizer quando começou. Talvez naquela noite de outubro de 2007, quando o São Paulo conquistou o Brasileiro mais de um mês antes de o torneio acabar e pôde assistir à lenta agonia e ao rebaixamento trágico do Corinthians. Talvez tenha começado em novembro de 2008, quando o São Paulo foi hexacampeão brasileiro assumindo a liderança do torneio poucas rodadas antes do fim. Seria possível fazer uma lista interminável de jogos em que o São Paulo convenceu o Brasil de que os três Ds – defesa, diretoria e distinção – formam o único tripé possível para alcançar títulos. O clube convenceu o país de que uma defesa muito forte, uma diretoria que poderia estar num banco de investimentos e um discurso de distinção – de torcida “diferenciada”, elitista, disposta a pagar qualquer preço para ver o time jogar – são os únicos caminhos para acumular taças.
O que veio depois foi apenas uma releitura do caminho tricolor. O Corinthians, campeão de tudo, tem no bando de loucos apenas um novo nome para a torcida “diferenciada” (e disposta a pagar preços abusivos). A diretoria corporativa está nas novas administrações de Flamengo e Palmeiras, com seus CEOs e gerentes. A defesa a qualquer custo afetou até mesmo o Santos, de Neymar, e o Fluminense, de Fred. Cada um destes elementos, claro, não é exclusivo do São Paulo nem foi criação original de Juvenal Juvêncio. Mas só o São Paulo reuniu esses três elementos e deu a eles a unidade de uma receita que vem dando certo – apesar de problemas.
O principal deles é que o são-paulinismo deixou de ser uma técnica para vencer campeonatos e se misturou na alma dos clubes brasileiros. As torcidas estão pasteurizadas, sem identidade. É muito comum ouvir corintianos menosprezando o Paulista e exaltando a Libertadores, como jamais fariam poucos anos atrás. Aliás, a torcida na final da Libertadores estava longe de ser “pobre, maloqueira e sofredora”. Mesmo a loucura, a impulsão corintiana, cedeu à calma e ao linguajar rocambolesco de Tite, que poderia ser um dos advogados que estão à frente do São Paulo. Mas o Corinthians é apenas o caso mais evidente. Há o palmeirense são-paulino, que só acredita em times com zagueiros altos e volantes marcadores. Há o flamenguista são-paulino, que poderia gritar o nome da atual diretoria na arquibancada. O vascaíno são-paulino, ansioso por um choque de gestão nas finanças caóticas do clube. O adjetivo são-paulino deixou de ser uma definição de quem torce para o São Paulo. Agora, é um adjetivo para o tipo de torcedor que está interessado em rankings de faturamento de marketing, número de lojas próprias e assinantes de pay-per-view.
O São Paulo está em fase complicada, é verdade. Troca de técnicos em ritmo flamenguista. Suas disputas internas e trapalhadas dos dirigentes estão mais semelhantes às palmeirenses e vascaínas. Até agora, não dá sinais de que vá vencer algo em 2013. Mas pode manter a pose: em cada time retrancado, em cada torcedor que paga R$ 500 para ver uma partida, em cada “meu departamento de licenciamento é melhor que o seu”, há um pouco do São Paulo. Não importa quem irá levar o Brasileirão: um pedaço da sua alma veio do Morumbi.
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