Negro no Brasil pode jogar futebol. Mas não pode mandar. Não há um presidente de clube negro. E
por: cosme rimoli
Dia 20 de novembro.
Mais um feriado no Brasil.
Dia da Consciência Negra.
O enredo no esporte mais importante do País tem dois lados.
Um é bonito, empolgante.
O negro se impôs no futebol brasileiro.
Depois do absurdo de ter de jogar coberto de pó de arroz no começo do século passado.
O preconceito acabou depois de muita briga, resistência.
O Vasco da Gama possuía o time mais forte do Campeonato Carioca de 1923.
Tinha muitos negros jogando no time principal.
Vários bem pobres e analfabetos.
Bisnetos ou netos de escravos.
O Fluminense, Flamengo e Botafogo exigiram o afastamento dos negros do Vasco.
Alegavam que não poderiam disputar jogos contra analfabetos.
Os dirigentes vascaínos contrataram professores e os ensinaram pelo menos a assinar seu nomes nas súmulas.
Ganhando a maioria de suas partidas, o clube foi campeão.
Revoltados por ter de dividir o gramado com negros, Flamengo, Botafogo e Fluminense fundaram uma liga paralela.
Só para não enfrentar os 'camisas pretas' como era chamados os vascaínos pela elite preconceituosa.
Os grandes cariocas convidaram o Vasco para jogar desde que 'se livrasse' dos negros.
Proposta recusada.
Em 1924 houve duas ligas.
A da elite era a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos.
A dos 'negros', a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres.
Houve dois campeões cariocas naquele ano.
O Fluminense pela AMEA.
E o Vasco pela LMDT.
A população estava revoltada com tanta bagunça.
Mas a imprensa e os cariocas em sua maioria passaram a apoiar os negros do Vasco.
A pressão foi enorme até que, em 1925, os clubes cederam à pressão popular.
E disputaram uma liga só, com o Vaco.
Aos poucos, as equipes foram colocando negros nos seus times.
Sem a presença do negro, o Brasil não teria sido pentacampeão do mundo.
Pelé é o maior atleta do século.
E o melhor jogador de todos os tempos.
Negro, sem nenhum preconceito.
A parte bonita, empolgante acaba aqui.
A outra metade, que merece reflexão começa agora.
"O futebol brasileiro é completamente preconceituoso.
Não dentro do campo.
Fora.
Não há espaço para treinadores ou presidentes de clubes negros.
Pode analisar a elite do nosso futebol.
No nosso país que afirma ser não ser preconceituoso, os brancos comandam o futebol.
E as pessoas não enxergam.
A minha carreira foi muito prejudicada no Brasil por eu ser negro."
Essas declarações me foram feitas por Valmir Louruz.
Falei com ele logo após a conquista da Copa do Brasil com o Juventude.
Foi contratado pelo Internacional logo em seguida.
Acabou dispensado depois de seis meses.
Nunca mais voltaria a treinar uma equipe grande brasileira.
"As pessoas do futebol não confiam em negros no comando."
"Ainda levarão décadas para que tudo se modifique.
A elite evita o negro como técnico e presidente."
Esta foi sua sombria previsão.
Vale a pena conferir.
Campeonato Brasileiro, série A.
Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos, Ponte Preta e Portuguesa.
Treinadores brancos.
Presidentes brancos.
Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco.
Presidentes brancos.
Três técnicos brancos e só o vascaíno, Gaúcho, mulato.
Atlético Mineiro.
Técnico e presidente brancos.
Cruzeiro.
Técnico mulato, Celso Roth. Presidente branco.
Internacional.
Técnico e presidente branco.
Grêmio.
Técnico mulato e presidente branco.
Sport e Náutico.
Técnicos brancos.
Presidentes brancos.
Bahia.
Presidente e técnico brancos.
Figueirense.
Técnico e presidente brancos.
Atlético Goianiense.
Técnico e presidente brancos.
Coritiba.
Técnico e presidente brancos.
Ou seja: em uma posição de comando, três mulatos.
Celso Roth, Gaúcho e Vanderlei Luxemburgo.
Três treinadores.
Os 17 restantes, brancos.
Nenhum presidente dos 20 clubes da elite.
Nunca houve um presidente da CBF negro.
Treinador negro na Seleção Brasileira só houve um.
Gentil Cardoso em 1959.
Falta de oportunidade, coincidência, preconceito?
Neste dia de consciência negra, vale a reflexão.
No Brasil, negro pode jogar.
Mas não pode mandar.
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