O tom irônico foi resposta à pergunta que a reportagem fizera ao cartola minutos antes: por que existia uma rixa ente a administração e as comissões técnicas dos dois centros de treinamento do São Paulo – o dos profissionais, o CCT da Barra Funda, e o dos garotos em Cotia? O assunto, que era tratado como lenda pelos dirigentes até meados de 2010, se escancarou após evento realizado na manhã desta terça-feira, 19 de outubro, em Cotia. O presidente Juvenal Juvêncio foi duro ao afirmar que “o pessoal da Barra Funda vai ter que entender que Cotia está integrada”.
Marcel Rizzo

Garotos que estão fazendo teste no CT acompanham treino do profissional atrás do gol defendido por Ceni
19/10 - 18:04
Rixa entre departamentos faz Juvenal exigir integração entre base e profissional no São Paulo
Escancara crise entre integrantes do CCT da Barra Funda e do CT de Cotia e a partir de agora time principal treinará mais no interior para que jovens possam ser aproveitados
Marcel Rizzo, iG São Paulo
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Carlos Augusto de Barros e Silva abre os braços e mostra o espaço no qual será instalado o Reffis 2 (Reabilitação Esportiva, Fisioterápica e Fisiológica) no Centro de Treinamento Laudo Natel, na cidade de Cotia, Grande São Paulo. A sala retangular ainda está vazia, esperando os equipamentos, mas o vice-presidente de futebol são-paulino se empolga com a estrutura do CT da categoria de base e solta uma frase que meses atrás seria censurada: “Até a Barra Funda vai ficar com inveja desse novo Reffis”.
O tom irônico foi resposta à pergunta que a reportagem fizera ao cartola minutos antes: por que existia uma rixa ente a administração e as comissões técnicas dos dois centros de treinamento do São Paulo – o dos profissionais, o CCT da Barra Funda, e o dos garotos em Cotia? O assunto, que era tratado como lenda pelos dirigentes até meados de 2010, se escancarou após evento realizado na manhã desta terça-feira, 19 de outubro, em Cotia. O presidente Juvenal Juvêncio foi duro ao afirmar que “o pessoal da Barra Funda vai ter que entender que Cotia está integrada”.
Marcel Rizzo
Garotos que estão fazendo teste no CT acompanham treino do profissional atrás do gol defendido por Ceni
“Minha intenção é que em 2011 metade do time seja formado por jogadores criados em Cotia”, exagerou Juvenal. É improvável que em poucos meses surjam cinco ou seis garotos na base que possam cair direito no time titular de Paulo César Carpegiani. Mas o recado está dado: a partir de agora, os profissionais dos dois CTs trabalharão em conjunto.
Guerra de egos
Comprado em 2005, o terreno em Cotia de 220 mil m², que um dia foi um haras, é a “menina dos olhos” de Juvenal Juvêncio. O problema é que a beleza (dois lagos, um rio e muito verde) e a infraestrutura (sete campos, alojamento para 100 garotos e projeto de um hotel com 258 leitos) não foram suficientes para revelar talentos que dessem retorno financeiro. O zagueiro Breno, vendido ao Bayern de Munique pelo equivalente a R$ 30 milhões, em dezembro de 2007, foi a exceção.
Esse fracasso irrita Juvêncio. Segundo dirigente próximo ao presidente, ele alega que os treinadores não davam chance aos garotos, mas também admite ter culpa, já que por muito tempo procurou repatriar atletas de fora do Brasil pagando salários altíssimos.
“Por isso que o planejamento do São Paulo agora mudou. Não podemos mais ficar trazendo jogadores de fora desembolsando uma fortuna. Temos que formar aqui em Cotia”, disse Juvenal.
A cota de jogadores experientes fazia com que não houvesse espaço para os garotos. E isso irritava os profissionais de Cotia, que não viam seu trabalho ser valorizado. O ápice foi quando Muricy Ramalho, técnico tricampeão brasileiro entre 2007 e 2009, disse que não usava atletas da base porque não havia ninguém preparado.
“Não sei bem se era uma rixa, mas por questões de personalidade e modo como os comandantes de cada lado trabalhavam não havia uma integração suficiente”, admitiu ao iG Carlos Augusto de Barros e Silva.
A declaração de Muricy Ramalho fez surgir o boato de que, um dia, ele tentou entrar no CT de Cotia para ver alguns meninos, mas foi barrado porque não havia marcado horário. “Se isso aconteceu, ele tentou entrar disfarçado”, brincou Marcos Tadeu Novais dos Santos, diretor da base e administrador do CT Laudo Natel. O iG apurou que na verdade o boato era uma piada interna entre os pró-Cotia para mostrar como a relação entre os dois departamentos estava desgastada.
Juvenal Juvêncio agüentou o quanto pôde, mas ao não renovar com Ricardo Gomes, logo depois da eliminação na Libertadores, quis mostrar que os departamentos profissional e da base precisavam de integração. Por isso colocou Sérgio Baresi, técnico dos juniores e número 1 da comissão em Cotia, como interino da equipe principal.
“Trouxemos o rapaz da base (Sérgio Baresi) interinamente. A imprensa não gostou, o torcedor também não gostou, os resultados também não foram auspiciosos. Mas valeu, porque trouxe um oxigênio novo e deu um recado à Barra Funda: 'ó, a base está chegando, até com técnico'. É preciso prestar atenção, acho que foi um recado bom”, disse Juvenal.
Marcel Rizzo

Rogério Ceni é cercado por garotos da base depois do almoço. Integração será maior para revelar mais talentos, diz Juvenal Juvêncio
Baresi não apareceu para ver o treino dos profissionais. E nem os garotos da base foram liberados de seus afazeres para acompanhar o trabalho. Apenas alguns meninos que estão em Cotia fazendo testes, mas ainda não foram contratados, ficaram atrás de um dos gols admirando. Após o almoço, servido no refeitório, os meninos da base puderam tirar fotos com os ídolos, principalmente com Rogério Ceni.
Carlos Augusto de Barros e Silva sempre foi a favor de uma maior integração com Cotia. O evento realizado nesta terça mais pareceu uma reinauguração do que um simples treinamento dos profissionais, como anunciado inicialmente.
Treinos em Cotia
A ideia de Juvenal Juvêncio é que os jogadores comandados por Paulo César Carpegiani treinem mais vezes no CT da base do que normalmente fazia. O trabalho realizado esta semana foi o segundo no ano – o primeiro foi em janeiro, com Ricardo Gomes. O CCT da Barra Funda continuará sendo a casa dos profissionais, que inclusive continuarão concentrando antes das partidas por ali. Mas haverá um rodízio, com o que Carpegiani concorda.
“Não, não vai representar uma aproximação (entre Barra Funda e Cotia). E sim uma obrigação. O São Paulo é um todo. Eu quero fazer esse intercâmbio, treinar com as categorias de base,. Acho que a gente tem que estreitar esse relacionamento porque os jogadores nascem aqui”, disse Carpegiani.
O treinamento da terça serviu para os jogadores conhecerem a estrutura e, principalmente, o caminho para chegar a Cotia. A distância entre o CCT da Barra Funda, próximo de onde a maioria dos atletas mora na capital, e o CT Laudo Natel é de aproximadamente 30 km.
“O CT aqui é o que tem de mais moderno e pode fazer inveja a qualquer clube do mundo”, disse Rogério Ceni, escalado por Juvêncio para ciceronear o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que conheceu o espaço e recebeu o pedido do clube para que uma praça e um estacionamento sejam feitos na frente do estádio do Morumbi.
Para conhecer detalhes do CT, os jogadores se transformaram “alunos”. Em um auditório assistiram a um vídeo institucional, de sete minutos. A apresentação, também feita a jornalistas, mostrava imagens das obras e o que os garotos que moram ali faziam, desde consultas odontológicas até eventos culturais.
Marcel Rizzo

Jogadores do profissional se reúnem em auditório para acompanharem vídeo institucional sobre o CT de Cotia
No futuro, quando o hotel estiver pronto, a diretoria do São Paulo sonha em ganhar dinheiro suficiente para que possa manter o CT somente recebendo equipes de fora do Brasil em intercâmbio ou pré-temporadas. Por enquanto, o dinheiro da manutenção sai de cotas de patrocínio. O banco Bradesco, por exemplo, tem anúncios em quase todos os campos.
“Esse centro de treinamento é um lugar absolutamente ímpar. Há pouco tempo, poucos meses, nós tínhamos queixumes aqui e acolá sobre a formação de atletas. E os atletas para a Barra Funda começaram a aparecer. Porque essa coisa não é mecânica, não é cibernética, eu não faço jogador no computador. Esses talentos vão surgindo”, disse Juvêncio. Parece que quem for contra Cotia pode “dançar” no departamento profissional.
*colaborou Levi Guimarães