Bauza: Nem gênio, nem burro...

Por Renato Rodrigues, do DataESPN

Fonte ESPN
FOTO: FERNANDO DANTAS/GAZETA PRESS
La Paz, 21 de abril de 2016, 20h30. Sai a escalação do São Paulo para a partida decisiva contra o The Strongest. A ideia dos três volantes se confirma. Mas o que mais surpreende é a ausência de Ganso. Um alvoroço foi feito. Como assim tirar um dos melhores jogadores do time? Logo numa decisão? Bauza colocou sua cabeça à prêmio. Se expôs de uma forma rara para os padrões brasileiros.
Classificou. Gênio? Não. E se a vaga tivesse ficado na altitude? Burro? É o que muitos pensam, mesmo com a classificação. Mas também não. O treinador argentino, conhecedor de como é atuar a 3.660 metros acima do mar (morou em Quito por 7 anos), criou uma estratégia fixa em sua cabeça: não era hora de jogar. Para ele ficou claro que sua equipe não iria e não queria propor o jogo. Estruturou um 4-1-4-1, defendendo atrás da linha da bola, com Kelvin e Michel Bastos pelos lados, Wesley e Thiago Mendes na mesma linha e Hudson à frente da zaga, flutuando com a bola para coberturas e preenchendo espaços defensivos. Treinou assim nas vésperas do duelo.
E o São Paulo fez uma partida inteligente. Não correu errado, como diz a gíria varzeana. Marcou por zona, com bloco médio/baixo. Controlou o jogo sem a bola. Sim, muitas equipes vitoriosas conseguem ocupar bem os espaços e ter o controle dando a bola para o adversário. A ordem de cima era clara, nada de dar sprints longos. Ia faltar ar. Calleri, sempre intenso e agressivo sem a bola, sentiu. Tentou fechar um passe aqui, outro ali. Mas longe de suas características. Kelvin correu o jogo inteiro. Não sentiu nada. Cada um tem suas individualidades, físicas, técnicas, psicológicas...
Ao tirar Ganso, Bauza queria um time mais reativo quando recuperasse a bola e mais intenso sem ela. Tudo bem que Wesley e Michel Bastos, os que ficaram entre os 11, não vinham sendo exemplos de agressividade sem a posse. E mais, usou o camisa 10 na hora certa. Sabia que iria precisar de sua qualidade técnica para reter a bola e esfriar o jogo em um momento que a equipe da casa aumentaria o volume ofensivo. Wesley, por sua vez, teve um bom desempenho. Ligado, fez bons movimentos e agrediu a bola no momento certo. Ainda gerou boas situações ofensivas à equipe.
O primeiro tempo foi sem sustos. A falha de Denis no gol do The Strongest deixou a equipe pressionada. Em uma falha na falta lateral, o goleiro quase colocou todo plano por água baixo (mais tarde, no fim do jogo, seria expulso de maneira infantil). Calleri, no escanteio, manteve o Tricolor no jogo e na Libertadores. Este, também expulso após confusão no final, fará falta na próxima fase.
Na segunda etapa, quem dava indícios de que sentiria a altitude, abriu o bico. Bruno saiu direto para o balão de oxigênio. Calleri também foi substituído. E não é que Ganso entrou? Foi a campo para fazer o que se esperava dele. Segurou a bola na frente e ganhou minutos importantes diminuindo o ritmo da partida. Com a entrada de Alan Kardec, virou o centroavante e a equipe chegou a variar para o 4-2-3-1 para se defender. Alguns contra-ataques quase deixaram a situação mais tranquila, mas o sofrimento foi até o final.
Os minutos finais deixaram claro quanto é difícil jogar na altitude. Eu mesmo não tenho a mínima ideia de qual é a sensação. Mas a pressão final dos donos da casa foi mais no "vamo-vamo" do que propriamente com organização. E a missão foi cumprida.
Situações assim mostram como nós temos a cultura do 8 ou 80. Edgardo Bauza não virou gênio por conta da classificação. Também não seria o vilão caso ela não viesse. No fim das contas, ele traçou uma estratégia, treinou pensando nela e a executou. Sua equipe segue mostrando alguns problemas em seu modelo de jogo. Mas ele viu neste momento a necessidade de buscar algo diferente. Afinal, a situação era atípica. Deu certo e isso não quer dizer que o São Paulo ganhará a Libertadores. Nem que vai passar vergonha na próxima fase. Não é céu ou inferno, certo ou errado... O que existem são escolhas. Como quase tudo no futebol.
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