Aos torcedores modinhas, reflitam com esta cronica, nao sei se chegaram a ver ele.
Não é mérito meu, nasci sãopaulino por sorte… Não me dê os parabéns, nasci sãopaulino por sorte… O destino me presenteou com o privilégio de poder vestir uma camisa bela e
ímpar, cujo escudo se impõe frontalmente entre duas listras gloriosas e não
sem motivos. Um símbolo que já nasceu vitorioso por se destacar no peito sustentado
transversal e unicamente… por suas cores. Representação incontestável de
sua Dignidade nata. Eis um emblema, na acepção do termo… Um claro sinal a quem quiser ostentá-lo de que o preço da conquista limpa é
o ônus da independência, pois isso está gravado em sua história desde o
nascimento e para sempre. E que naturalmente provoca incômodo nos fracos, nos maliciosos e nos
oportunistas, por lembrá-los eternamente do que desejariam sufocar: Que conquistas de fato – aquelas obtidas sem ajuda indevida – podem ser
muito mais árduas, mas têm um sabor inigualável, pois que sem mácula. E só assim podem ser chamadas verdadeiramente de Vitórias. Assim, incomparável, é o orgulho e o sentimento de poder carregar um
símbolo que reluz e vibra no lugar justo: no centro do peito. Pois é ali que bate o coração de verdade. E não de lado… Não me dê os parabéns, nasci sãopaulino por muita sorte… Generoso, o destino colocou em meu destino uma tradição famíliar com
amor às coisas certas e às conquistas com mérito. Nasci no seio de uma família que, no passado, abraçou na primeira hora a
causa de erguer uma agremiação à altura da grandeza do nome de sua
cidade. E principalmente de seu lema: “Non ducor. Duco“. Não sou conduzido.
Conduzo. Por isso, não me dê os parabéns, os méritos não são meus: nasci sãopaulino
por sorte. Apenas segui o amor incondicional despertado nos anos 30 em meu avô,
abraçado por meu pai, levado adiante por meus irmãos mais velhos. Não pense que foi fácil, no início, para aquele garoto do Jardim Paulistano,
anos 60, sustentar essa paixão como aquelas listras sustentam um escudo
que, hoje, é reconhecido internacionalmente. Aquele menino amargou por mais de uma década interminável a tristeza de
ver sua equipe fragilizada diante de poderosos adversários, que cantavam
vitórias – e por goleadas. Pois o clube-caçula trabalhava abnegada e silenciosamente para construir um
Patrimônio. E assim como na fábula da Cigarra e da Formiga, decidira o São Paulo Futebol
Clube abrir mão da festa e da cantoria dos títulos, para construir, unicamente com seu esforço, a tão sonhada Casa Própria: o Estádio Cícero Pompeu de
Toledo. E o preço era alto: ficar sem recursos, por quase duas décadas, para montar
também times à altura de seus mais tradicionais adversários. Eu vi isso. Presenciei e sofri com isso, nas gozações de colegas de escola. Foram anos minguados em títulos e conquistas, que testemunhei. Embates injustos, que pareciam ainda mais deprimentes naquele cenário
confuso aos olhos de um menino: em arquibancadas em obras num Morumbi
construído lentamente por décadas, ver seu time apanhar seguidamente, com
jogadores inexpressivos. Mas, engraçado… Mesmo que os jogos aos domingos fossem de trágicos
presságios, eu, de calças curtas, jogando bola na rua, ainda assim ostentava
orgulhosamente a Camisa 7 do humilde ponta Faustino – pois, pequenino,
queria ser como ele. Comprada a duríssimas penas por papai, ela era o meu manto sagrado: com a
camisa branca com as listras vermelha e preta no peito eu, o baixinho, me
sentia um gigante. Era o escudo no peito… Mesmo que, na pureza de meus nove anos, ao comprar pães no final da tarde
de domingo na Padaria Europa, ouvisse repetidamente a brincadeira do Sr.
Manoel atrás do balcão: - “Ó baixinho, Faustino… De novo teu time tomou uma sapecada! É todo
domingo… Não ganha um titulozinho que seja. .. Não queres mudar pra
Lusinha?!” Meu pai ria da história e vaticinava: “Tudo na vida tem um preço. Hoje você
sofre, mas um dia o teu orgulho de ser sãopaulino ainda vai ser do tamanho
do Morumbi”. Eu eu vi, um dia, enfim, o meu time terminar de construir o Morumbi. E nele
ser campeão. E ser campeão, campeão e campeão… Ano após ano, campeão de tudo. Nacional. Da Libertadores. Do Mundial… Mas, não me dê os parabéns. Nasci sãopaulino por sorte. Muita sorte.
Marcio M. Castanho
www.redatorbipolar.com.br
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