Orgulho de ser Tricolor (desabafo)

aligheri

Não podemos cair no clima criado pela imprensa, em geral sucursal da Itaquera, de que “tabu” disso, “não sei quantos jogos” aquilo. A verdade é que ontem perdemos apenas uma semi-final do campeonato menos importante que disputamos.
Após a ressaca de ontem, hoje acordei pensando o que é ser a terceira geração de uma família de São-Paulinos. Meu velho certa vez me contou que, no final da década de 1960, meu avô perguntou: “você quer mesmo ser são-paulino? Pois vai ter que ser forte, porque nesse país, a imprensa e a arbitragem, tudo é contra a gente”.
A experiência do meu velho foi dupla. Fora dos campos, sempre foi bastante difícil: na época as torcidas se misturavam, e diversas vezes sofreu agressão nos estádios. Nas ruas, era difícil utilizar, naquela época, camisa do São Paulo, sem receber ofensas. Porém, dentro dos gramados era tudo diferente: meu velho vivenciou a “revolução” Tricolor dos anos 70 e 80. Os primeiros grandes títulos e jogadores extraordinários: Pitta, Careca, Dario Pereira, Oscar, Ricardo Rocha.
Eu comecei a acompanhar nos anos 90. Nessa década, ficou famoso o bordão do Milton Neves: “torcer para o São Paulo é uma grande moleza”. Pra mim nunca teve “tabu” contra ninguém. Uma das grandes memórias, que nunca ninguém apagará da História, foi o Rai metendo 3 a 0 nos nossos rivais. Começava então o time do Telê Santana. Muller, Cafu, Palhinha... Os grandes times da Europa tremiam diante da gente. Foi o melhor futebol que assisti na vida.
Depois vieram tempos difíceis. A zaga com “Bordon e Edmilson” era pavorosa (Edmilson depois virou um grande jogador). Anos ruins, até surgir Denilson e França no ataque. Era um ataque espetacular. Lembro que foi uma enorme tristeza receber a notícia de que o São Paulo havia vendido o Denilson. Na época, foi a maior transação da História. Anos depois, apareceu como uma decisão precipitada. O dinheiro foi torrado pelos diretores (talvez tenha começado aí a negligência na administração) e não reverteu em nada para o clube. Nunca mais iria surgir outro time dos “menudos”. Os craques da base passariam a ser vendidos às pressas. O único que importava era “fazer caixa”.
Porém, na década de 2000 a 2010, iria surgir um dos maiores atletas da História desse país: Rogério Ceni. O primeiro a chegar nos treinamentos, o último a sair. Fanático pelo clube, por ganhar títulos, se especializou em cobrar faltas, para segurar lá atrás e ajudar lá na frente. Não tolerava perder, e gritava o tempo todo com os zagueiros, “arrumando” a casa. Com ele, veio o Muricy como treinador. Foi uma década gloriosa. Nos destacamos sobretudo pela parte defensiva: Lugano, Fabão, Josué e Mineiro formavam um muro intransponível. Sabiam roubar a bola e entregar rápido para o contra-ataque.
A década seguinte, de 2010 para frente, foi desastrosa. Entramos na pior crise do clube. A administração se tornou sinônimo de incompetência, despreparo e corrupção. Fico com pena das gerações recentes, que ficaram apenas com o gosto amargo da derrota, como de ontem. Vendo de forma fria, nosso time atual é apenas mediano. Marcos Guilherme é um ponteiro super esforçado, mas não sabe cruzar, não acerta um drible, toma decisões erradas a todo instante. Militão é um defensor brilhante, mas estão queimando o rapaz com essa insistência de improvisação como lateral. Petros, esforçado e raçudo, erra passes de 4 metros, não tem finalização, não tem velocidade de contra-ataque, nada. Desde que Rogério saiu, não tem 1 goleiro que sabe organizar a zagueirada, que mantém a defesa atenta o tempo todo.
Por isso, também, me aborrece uma mania das gerações recentes: falar mal dos nossos grandes atletas. Rogério foi bem como técnico? Não. Raí errou ao contratar Diego Sousa Zé-Mortão? Sim. Mas quem acompanha a História do clube nunca esquecerá o que foi o Rai ou o Rogério para o São Paulo. São gigantes que merecem respeito sempre. Só de ouvir o nome desses dois atletas, a travecada tremia nas bases. De 1990 a 2010, durante 20 anos, nós dominamos todo o futebol brasileiro. Até o famoso Palmeiras-Parmalat tomou sapecada do nosso Tricolor.
Perdemos ontem, mas a História continua e o mundo dá voltas. A cada dia que passa, todo mundo está vendo que os rivais estão um pouco pior, a era Tite está cada dia mais longe. Agora, nós também estamos, a cada dia, deixando um pouco mais pra longe o fundo do poço. O clube, nesse ano de 2018, está reformulando essa prática nefasta de vender correndo jogadores da base, após perdemos David Neres, que é muito superior ao Marcos Guilherme. Com Rai, Lugano e Rocha, ficamos mais profissionais (erros, é claro, acontecem: o próprio Tite, maior técnico do Brasil atual, contratou diversos jogadores péssimos pros rivais, como aquele Giovanio Augusto e outros). Sinceramente, não creio que iremos ganhar nada esse ano. Nem que o Aguirre irá ir muito longe. Mas não iremos cair, isso está certo. Somos agora um time mediano. Pra 2019-20, as expectativas são melhores: vamos começar a amadurecer o pessoal da base. Neles está nossa esperança. E dois técnicos são-paulinos, a cada dia, começam a ganhar mais e mais experiência: o eterno Mito, campanha espetacular no Fortaleza, e o Jardine (esse vai ser o cara, no futuro próximo). Agora é respirar fundo, aguentar essa semana difícil, levantar a cabeça, e vermos até onde dá pra ir na Copa do Brasil.

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