Guerra política no São Paulo divide clube e gera insegurança no Conselho
Guerra política no São Paulo divide clube e gera insegurança no Conselho
Troca de acusações entre Aidar e Juvenal, contrato com namorada do presidente e cobrança da Puma deixam diretores e conselheiros assustados. Mas o futebol vai bem
20/12/2014 09h20 - Atualizado em 20/12/2014 09h20
Por Alexandre Lozetti
São Paulo
Espanto, insegurança, “pé atrás”. São expressões citadas por conselheiros e diretores do São Paulo para descrever o ambiente político após a reunião da última segunda-feira, na qual veio à tona o contrato com a empresa de Cinira Maturana, namorada do presidente Carlos Miguel Aidar, e que desencadeou nova série de acusações entre ele e o antecessor, Juvenal Juvêncio.
Indagado por opositores, Aidar admitiu contrato que dá à Cinira 20% de comissão sobre qualquer negócio que ela leve ao São Paulo. Na mesma reunião, Juvenal discursou em tom enfático. Proibiu o atual presidente de falar seu nome e jogou em sua cara o apoio na eleição.
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Juvenal apoiou Aidar na eleição de abril, mas ambos tornaram-se inimigos políticos (Foto: Alex Falcão / Ag. Estado)
Ambos os protagonistas da guerra política têm dito que possuem apoio maciço. Aidar gaba-se de ter acabado com a oposição. Afirma que ela se resume a Juvenal e três aliados: Roberto Natel, ex-vice-presidente, José Francisco Manssur, assessor especial do antigo presidente, e Rui Stefanelli, sobrinho de Juvenal e diretor adjunto de planejamento de sua gestão.
- Cabem no banco da frente de uma Kombi - disse Aidar.
Por outro lado, Juvenal Juvêncio conta com o prestígio acumulado no Conselho em seus oito anos à frente do clube. Acredita que sua influência sobre os cartolas são-paulinos vai colocar o rival na berlinda, e já anunciou que não dará sossego ao sucessor.
Porém, nenhum deles está coberto de razão. A avaliação de pessoas que vivem o dia-a-dia do clube é de que cada um, Aidar e Juvenal, têm alguns poucos aliados leais, enquanto a imensa maioria permanece à espreita, apenas observando a briga e tentando avaliar quem está com a razão.
Pegou mal no Conselho o contrato do São Paulo com a TML, empresa de consultoria pertencente à Cinira Maturana. Alegam que se houvesse mesmo transparência, uma das bandeiras de Carlos Miguel Aidar, o compromisso teria sido anunciado no órgão tão logo foi assinado, ou seja, em maio. A maioria não gostou de ficar sabendo do documento por meio da reclamação dos aliados de Juvenal. O fato foi reprovado pelo presidente do Conselho, Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, membro atuante do clube desde que era presidido por Juvenal.
Também incomoda o tom das críticas à gestão anterior. Aidar bate com força no que chama de “esquema” criado nas categorias de base e na situação financeira do clube. Chegou a dizer que os balanços anteriores eram maquiados.
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Aidar concede entrevista em meio a Ruy Barbosa e Júlio Casares, do marketing (Foto: Marcelo Prado)
Como muitos diretores e quase todos os conselheiros conviveram próximos a Juvenal durante muitos anos, acusam o golpe. Dizem que o ex-presidente, até pela doença que teve recentemente (um câncer de próstata atualmente controlado), não poderia receber tantos ataques.
Sobre a situação financeira, embora reconheçam em Aidar o mérito de procurar equilibrar receitas e despesas, diretores e conselheiros denunciam um “exagero” do atual mandatário. Eles dizem que os balanços anteriores, que apontavam superávit, estavam corretos, e que a dívida bancária pode perfeitamente caminhar paralelamente a isso. Uma coisa não anula a outra.
Outro ponto considerado favorável a Carlos Miguel Aidar é a reestruturação na gestão. Eleito em abril, o presidente quer uma administração mais moderna, menos centralizadora e viciada, com mais profissionais atuando em cada uma das áreas. Os diretores reconhecem. Tanto que atenderam à convocação de Aidar e estiveram presentes na entrevista coletiva concedida por ele na última quarta-feira, em que ele voltou a atacar Juvenal e defendeu a relação profissional com a namorada.
Hoje, a oposição do São Paulo cabe no banco da frente de uma kombi
Carlos Miguel Aidar
Na ocasião, Aidar afirmou que esperaria Cinira voltar de viagem, algo que só acontecerá no início de janeiro, para discutir com ela a rescisão do contrato. A maioria dos conselheiros gostaria que isso fosse feito imediatamente.
Para encerrar a semana conturbada no Morumbi, a Puma, empresa alemã de fornecimento de material esportivo, revelou um acordo assinado no dia 28 de agosto para substituir a Penalty ao término do contrato com o São Paulo. A diretoria negou. Disse que tratava-se apenas de uma carta de intenção com um prazo para se transformar num contrato formal, o qual não foi cumprido.
Há, no Morumbi, a versão de que Aidar desistiu do negócio porque a Puma se negou a pagar a comissão de 20% à Cinira. A empresa, que citou a namorada do presidente em nota oficial como pessoa designada por ele para coordenar a transição com a atual fornecedora, se recusou a comentar o assunto.
FUTEBOL SE SALVA
Em meio ao tiroteio, sobram elogios a Ataíde Gil Guerreiro, vice-presidente de futebol, e ao desempenho do time desde que Carlos Miguel Aidar venceu a eleição. O dirigente é visto por todos os lados como pessoa ideal para impedir que a guerra política respingue na equipe, no CT da Barra Funda.
Famoso por seu pavio curto, Ataíde se recusa a tocar no assunto. De bom relacionamento tanto com Juvenal como com Aidar, diz que só se manifesta nas reuniões do Conselho. Contratações certeiras como as de Alan Kardec, Kaká e Michel Bastos, sem falar nos três reforços já garantidos para 2015 – Bruno, Carlinhos e Thiago Mendes –, também são exaltadas.
Ataíde não trabalha sozinho. Na busca por novos jogadores, destaca-se o trabalho do gerente executivo Gustavo Vieira de Oliveira. Diretores e conselheiros aprovam e também elogiam o vice-presidente por dar tranquilidade a ele, ou seja, contornar seu relacionamento com Muricy Ramalho e, principalmente, deixá-lo fora da briga entre Aidar e Juvenal.
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