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Sexta-feira, 19/12/2014 às 10:45 por Rodrigo Capelo
Penalty reprova leilão do São Paulo entre Under Armour e Puma e ameaça processo
Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo, exibe uniforme da Penalty para Rogério Ceni
Em agosto fechado com a Puma, em dezembro fechado com a Under Armour, o São Paulo comprou uma briga com a Penalty, com quem tem contrato vigente até dezembro de 2015 e até agora nenhum acordo para rescisão amigável antes disso, que deve acabar na Justiça. Ao blog, um executivo da fabricante de materiais esportivos disse que a empresa “irá tomar ações jurídicas cabíveis” caso o clube concretize o plano de trocá-la por uma concorrente antes do término do contrato.
- Não dá mais para conversar com o São Paulo amigavelmente, diretamente. Agora vai ser de jurídico para jurídico, porque não existe mais o mínimo respeito – afirma este executivo.
Notícias de que o São Paulo substituirá a Penalty causam dois estragos na fornecedora: um em imagem, outro em vendas. Em primeiro lugar, a marca da fabricante é arranhada toda vez que uma concorrente aparece para tomar seu lugar. Em segundo, as vendas de materiais esportivos despencaram, pois torcedores aguardam a chegada da fornecedora seguinte para comprar a camisa mais recente possível. Hoje as vendas estão entre 15% e 20% da média mensal que a empresa tinha – se hipoteticamente o time comercializava 100 mil camisas tricolores por mês, hoje consegue apenas de 15 mil a 20 mil.
O São Paulo já dá como certa a troca pela Under Armour em maio do ano que vem, no início do Campeonato Brasileiro, mas ainda não avisou a Penalty sobre como irá romper o contrato válido até dezembro de 2015. Amigavelmente não haverá acordo, porque não interessa à empresa desistir da multa rescisória. Já a multa – com valor “significativo”, segundo este executivo da Penalty – pode ser paga pela nova fornecedora ou arcada pelo próprio clube, mas ambas opções são improváveis. O terceiro caminho seria a rescisão unilateral do contrato por parte do São Paulo, mas a Penalty crê estar resguardada.
Só há, no contrato, duas maneiras de o clube rasgá-lo por conta própria. Um deles é alegar que houve deficiência no abastecimento de materiais esportivos, mas a Penalty, com fábrica e distribuição próprias, já entregou até uniformes que serão usados pela equipe no Campeonato Paulista de 2015. Não há muito o que reclamar. Outro é alegar que houve atrasos nos pagamentos. Neste caso, ex-dirigentes são-paulinos, da gestão de Juvenal Juvêncio, chegaram a acusar a marca de atrasar várias parcelas em 2013, mas o executivo da marca ouvido pelo blog afirma que não há brecha, pois não houve atrasos.
A Penalty precisa pagar ao São Paulo um valor mínimo referente a royalties. Mesmo que o clube não venda uma peça sequer nas lojas, esta cifra precisa ser repassada ao cofre são-paulino. Este pagamento, diz o profissional, não atrasou. Depois, caso a venda de uniformes supere expectativas, há um percentual sobre a receita que a fornecedora precisa repassar ao time. Este valor excedente pode ser acumulado ao longo do ano e pago de uma vez, até o dia 31 de dezembro, se a empresa preferir. Antigos membros do departamento de marketing do clube não levaram em conta este detalhe do contrato e vazaram à imprensa que havia atrasos, além de ameaçar a Penalty de rescisão unilateral. A empresa pagou tudo no último dia do ano, conforme previsto em contrato, e não deu razão para que fosse afastada em 2014.
Oficialmente, nada será dito nem pelo São Paulo, nem pela Penalty. O motivo são as várias cláusulas de confidencialidade que possuem multas de até R$ 30 milhões. Por isso, toda vez que foram procurados pelo blog, Carlos Miguel Aidar, presidente do clube, Julio Casares, vice-presidente de marketing, e Ruy Barbosa, diretor de marketing, entre outros diretores e gerentes, disseram que não comentariam nada relacionado à troca de fornecedora: para não dar arma a uma possível oponente nos tribunais.
O leilão de Aidar
Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo, ele próprio responsável por negociar a troca da fornecedora de materiais esportivos para 2015, conseguiu antipatia não só da Penalty como de executivos de alto escalão das duas outras fabricantes que demonstraram interesse no clube, Puma e Under Armour.
O primeiro desgaste veio com a Under Armour. Aidar começou a negociar com a filial brasileira da empresa americana no primeiro trimestre, logo depois do anúncio de sua chegada oficial ao Brasil. O cartola pedia, a cada rodada de reuniões, luvas e patrocínio mais altos. As conversas duraram meses, até que, em agosto, a Under Armour brasileira topou as condições impostas e fez uma proposta oficial que expirava ao fim daquele mês. O São Paulo, com uma concorrência em andamento, mais interessado em fechar com a Puma naquela ocasião, não respondeu. Naquele momento, conforme reportou o blog, executivos da marca no Brasil, incomodados com a postura do São Paulo, depois de a proposta expirar sem nenhuma resposta, encerraram negociações e tiraram o time de campo.
Depois, Aidar atravessou a filial brasileira da Under Armour e passou a negociar diretamente com executivos da matriz, em Baltimore, nos Estados Unidos. A estratégia funcionou. A empresa voltou ao jogo e acertou um acordo de cinco anos no qual pagará R$ 15 milhões anuais, acima dos R$ 13 milhões que a Penalty paga, em dinheiro, ao São Paulo. Os executivos brasileiros, daqui, não participaram da negociação, mas tiveram de viajar aos EUA na primeira quinzena deste mês de dezembro e foram envolvidos no assunto depois que Aidar e os executivos da matriz se entenderam.
Foi aí que a Puma se descontentou. A empresa havia vencido a concorrência feita pelo São Paulo em agosto e assinado uma espécie de pré-contrato – Aidar o chama de “carta de intenções” – que lhe asseguraria o fornecimento de materiais esportivos do São Paulo assim que o contrato com a Penalty, antecipadamente ou não, terminasse. Como teve retorno positivo da Under Armour em Baltimore, o cartola ignorou este acordo tratado com Fábio Espejo, presidente da Puma no Brasil, e prosseguiu com o leilão. O executivo se irritou, e a marca alemã divulgou o acordo apalavrado em agosto.
Aidar tentou, com a Puma, repetir a estratégia que lhe rendeu o contrato com a Under Armour. O presidente do São Paulo também atravessou a filial brasileira da marca alemã e procurou executivos estrangeiros. Foram contatados por ele Carlos Laje, diretor da Puma para América Latina que despacha de Santiago, no Chile, e Jochen Zeitz, alemão que foi presidente e CEO da Puma por 18 anos e que hoje é membro do conselho da Kering. Este grupo é dono da Puma e de várias outras marcas de moda e vestuário. Não funcionou. Ambos encaminharam o dirigente são-paulino para Espejo. A manobra frustrada foi relatada ao blog por fonte ligada à Puma e confirmada pelo executivo da Penalty.
O leilão feito por Aidar pode lhe presentear um contrato de materiais esportivos da Under Armour com reajuste em relação ao que paga a Penalty, cerca de R$ 2 milhões anuais acima, o mais lucrativo que o clube já teve, mas também pode colocar o São Paulo na Justiça contra duas empresas diferentes – perante a Penalty, prejudicada pela boataria sobre sua saída, e diante da Puma, com quem assinou pré-contrato (ou carta de intenções, como queira chamar o presidente são-paulino) não respeitado. Fato é que a imagem do cartola – e da gestão dele – já está arranhada em todas as três empresas.
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