Homenagem - Telê Santana (grande)

Homenagem - Telê Santana (grande)

falecomleandro

O futebol é repleto de personagens. Vilões e heróis. Em 21 de abril de 2006 o mundo sentiu o pesar de perder um herói que não dava valor superestimado à vitória, pelo contrário, estimava o esporte em si, o bem jogado, em detrimento dos resultados.

Telê Santana da Silva faleceu aos 74 de idade em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Peço licença póstuma a Getúlio Vargas, e parafraseio-lhe para dizer que Telê Santana saiu da vida para entrar na história; e entrou na história são-paulina como mestre. Mestre Telê.

O mineiro de Itabirito comandou o São Paulo de outubro de 1990 à janeiro de 1996, estabelecendo o período que por tão vitorioso ficaria conhecido como “A Era Telê”; à frente da seleção brasileira em duas Copas do Mundo – 1982 e 1986 – com uma das melhores (senão a melhor) equipe de todos os tempos, fracassou na busca pelo troféu e viu-se atrelado ao apelido de pé-frio, azarado. Telê preferia confiar no trabalho, e assim seguiu. Trabalhando.

O homem Telê Santana, o esposo, o pai, o cidadão, pouco ou nada se deixava transparecer e filmar. Dedicava-se ao trabalho, mas não pense que priorizou a profissão: “Eu sou uma pessoa muito alegre. Diante das câmeras eu fico um pouco sisudo porque tenho que estar sempre atento às perguntas que vão me fazer (…) Com a família eu sou um dos mais alegres. Com os irmãos, com os sobrinhos, com os netos…” - disse Telê em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1992.

Quem conviveu com o comandante mais vitorioso da história são-paulina não discorda: “Deixou um modelo diferente para os técnicos do Brasil. Com muita ética, seriedade e determinação. É o caminho que decidi seguir, aprendi com ele a cumprir a palavra. Ele era assim, um homem na melhor acepção.” - palavras de Muricy Ramalho, discípulo de Telê.

O Mestre, porém, nem sempre foi Mestre. Outrora foi o “Fio de Esperança”, ídolo da torcida do Fluminense, ponta de lança de habilidade, e só não chegou a ser um dos selecionados canarinhos porque teve concorrência desleal de Garrincha, o monstro das pernas tortas. No Fluminense Telê desenvolveu amor pelo clube, era acima de tudo um apaixonado torcedor do clube das Laranjeiras. No final de sua carreira como jogador, defendendo o Madureira, anotou o único gol de sua equipe numa derrota para o Fluminense por sonoros 5 x 1; chorou pelo tento no time do coração. Era autêntico o tal Telê.

O jogador dedicado ganhou o apelido por fazer alusão à raça e à não desistência em jogada alguma. Tal alcunha lhe foi dada pelos próprios torcedores do Fluminense por meio de um concurso veiculado pelo editor do extinto Jornal dos Sports, o jornalista Mário Filho. A campanha intitulada “Dê um slogan para Telê Santana e ganhe 5 mil cruzeiros” foi um sucesso, e entre “El Todas”, “Big Ben” e “Fio de Esperança”, adotou-se a última.

Como não poderia deixar de ser, as características intrínsecas do homem refletiram categoricamente no comportamento do profissional. A carreira de jogador foi vitoriosa, conquistou cinco títulos pelo Fluminense; entre eles dois campeonatos carioca, importante torneio à época. Mas foi como treinador que Telê alcançou o ápice de sua arte. Ainda no Fluminense, em 1967, com os garotos das categorias de base, assumiria o comando técnico de um time de futebol pela primeira vez. Embora os registros não nos permitam precisão, a promoção aos profissionais dois anos mais tarde nos deixam supor que o trabalho foi bem realizado. A estreia dirigindo o time principal foi promissora diga-se de passagem: campeão carioca.

Essa equipe de 1969, campeã carioca pelo Fluminense sob a batuta de Telê, foi a base do título do torneio Roberto Gomes Pedrosa do ano seguinte (reconhecido ano passado como campeonato brasileiro), quando Telê já era treinador de outro grande clube do Brasil, o Atlético Mineiro.

No Galo Telê marcou época. Atente, amigo torcedor, ao fato de Telê se tornar ídolo por onde passa. Foram 434 jogos regendo o alvinegro de Belo Horizonte – recorde do clube, 235 vitórias, 3 títulos, e quis o destino que o mais importante deles, o campeonato brasileiro de 1971, fosse justamente derrotando o tricolor carioca, time que o projetou ao futebol. Telê, como já foi dito nesse texto, apesar da carreira vitoriosa, não pregava o futebol de resultados, mas sim a arte do futebol disciplinado.

Três passagens pelo Galo Mineiro, uma pelo Grêmio, Imortal do Sul, uma outra pelo Palmeiras e o desafio de comandar os melhores do Brasil. Quem como eu não era vivente, apenas imagina o que foi a seleção de 1982.

Quem participou da campanha diz coisas mais ou menos assim sobre o homem que ficava a beira do campo: “O Telê dava prioridade aos fundamentos. Era como escovar os dentes. Todo dia tinha que treinar cabeçada, toque de bola, chute. Ele dava muito coletivo e era criticado por isso, mas era no coletivo que a coisa acontecia e tínhamos que respeitar. E depois de algum tempo, todos o respeitavam.” - disse o ex-lateral Júnior à ESPN Brasil. Ele completa o raciocínio: “Aprendi a admirá-lo por todos os ensinamentos que me deu nos treinamentos. Seus dotes, suas virtudes, era um grande homem. Como educador que era, foi excelente. Foi uma das pessoas que mais lutou pela essência do futebol brasileiro.”

O favoritismo e o futebol magnífico de homens como Sócrates, Zico, Falcão e Toninho Cerezo caíram diante de uma modesta seleção italiana e um inspirado Paolo Rossi. Tristeza. Assim como em 1986. Ah, como foi triste aquele 1986…

Foi em um 21 de junho, no estádio Jalisco, em Guadalajara, que Telê conheceu sua segunda eliminação seguida em Copas do Mundo. Justo ele, que prezava pelo melhor do futebol, foi castigado pelo melhor que este esporte tem a oferecer: o imponderável.

Muller tinha a bola em seus domínios quando o relógio marcava os 16’ do 1º tempo, o atacante rolou de lado para Júnior - aquele que disse que os méritos de Telê passavam pelos fundamentos -, que deu passe primoroso para Careca, o matador. Pé direito na bola, sem dominá-la, assim mesmo, ao primeiro toque. Contrapé de Bats. Brasil 1 x 0. Outro que responde pelo placar é Platini, que completando cruzamento de Amoros, cutucou ao gol vazio o empate francês.

Foi nesse jogo que aconteceu algo que nem Mestre Telê pôde prever. Zico acabara de entrar no lugar de Muller, deu passe primoroso a Branco, que dominou invadindo a área e foi derrubado por Bats. Pênalti. Festa brasileira, era Zico na bola. Osmar Santos festejou assim: “Pênalti em Branco! Pênalti! Uma bola boa, que bola boa, que bola boa do Zico!”

Nem a bola esperava que o Galinho fosse parar nas mãos de Bats.

Sócrates também esbarrou em Bats na disputa por pênaltis que viria a seguir. O bom goleiro francês ainda viu o astro Platini ser irreconhecível, isolar e chutar pra fora. Mas Júlio César também errou o tiro. Mais uma vez tristeza, mais uma vez não deu pra Telê. “Tenho que manter a calma. Não posso ficar triste ou feliz como os torcedores, dirigentes ou até jogadores (…) Naquele momento não dependia mais de mim, tudo que podia fazer já tinha feito”.

Chega de tristezas. Importante mesmo é que em 1990 Telê Santana assumiu o comando técnico do São Paulo Futebol Clube para ficar 3 meses somente. Mas uma era de alegrias nos aguardavam.

Aquele apelido de azarado não teria vez no tricolor do Morumbi. O treinador que assumiu um time sem autoestima, com seu craque no banco de reservas (Raí), e em posição mediana na tabela do campeonato brasileiro daquele ano, fez o que costumava fazer: arte. E pautado nessa arte o elenco são-paulino foi vice campeão brasileiro. Presságio do que estava por vir quando o Tempo, senhor de todas as coisas, desse o ar do entrosamento aos meninos Antônio Carlos, Cafu, Leonardo… Eles aspiraram sucesso, e logo no ano seguinte.

Em 1991 Telê começou a época áurea da história são-paulina. Comandou esquadrão que seria campeão brasileiro, e serviria de parâmetro para as conquistas seguintes: a América e o Mundo.

“Todo técnico leva alguma coisa do que foi, e a minha vida dentro do futebol sempre foi muito preocupada com a técnica. Fui um jogador que disputei sempre as jogadas com dureza, mas sem ser desleal, sem ser violento. E a técnica um pouco (...) Apurada. Os passes certos, os chutes certos, e a gente leva pra dentro de campo, pra ensinar aqueles que a gente dirige, dentro daquilo que a gente foi dentro de campo.” - Telê Santana, técnico do São Paulo, ao Esporte Espetacular da tevê globo.

A América se rendeu em 1992, naquele Morumbi tomado por 105.185 testemunhas de um time que jogava pelo futebol arte, pela torcida, por eles mesmos, e pelo Mestre Telê. Um time formado por Zetti, Cafu, Antônio Carlos, Ronaldão e Ivan; Adílson, Pintado, Raí e Palhinha; Muller e Elivelton. Um time campeão da América com classe, mas não sem luta.

Aos 19’ do 2º tempo, o São Paulo que precisava vencer o jogo, armou jogada pela direita do ataque. De Adilson para Cafu, de Cafu para Adilson que levanta na área, Palhinha domina no peito, amortece a bola com carinho, Macedo que substituiu Muller, domina, finta o primeiro zagueiro, e sofre pênalti; Terror do Morumbi na bola, camisa dez para Raí bater já com trilha sonoro do som estrondoso que vinha das arquibancadas. Com a costumeira técnica, deixando o goleiro cair para o lado direito, o maestro põe a bola no canto esquerdo. Festa tricolor no Morumbi, e Telê Santana ainda sério na beira do campo; é seu papel.

As decisões nas penalidades nos reservavam outro gol de Raí, um de Ivan, Ronaldão desperdiçar, Cafu, caprichoso, no canto do goleiro fazer mais um, e Zetti, brilhante, gigante, fantástico, defender a primeira dele, no terceiro erro do Newell’s Old Boys da Argentina. Título do São Paulo. Telê era Mestre. Mestre Telê. O Mestre que ergue os braços, comemora discreto enquanto o Morumbi explode em euforia; a história estava sendo escrita ali.

Títulos sobre Milan, Universidad Católica do Chile, Barcelona…O mundo finalmente se curvava ao talento do mineiro de fala quieta e olhar concentrado.

Como esquecer do título ante ao Barcelona? Quando Raí, de novo ele, fez a bola deitar no gol de Zubizarreta. Sim, deitar. Como se as redes fossem um colchão. Calma e elegante ela deitou e selou a vitória. Foram muitas as histórias do Mestre Telê. Cinco anos vitoriosos à frente do São Paulo Futebol Clube. Onze títulos conquistados, até hoje a melhor era que qualquer clube brasileiro jamais alcançou. Telê deixou um legado de educação ao tricolor, deixou o sentimento de dever cumprido, e depois nos deixou.

Mestre Telê Santana é lembrado em todos os jogos do São Paulo desde então, seja em dia de final, seja em jogo de estreia, seja com um time vencedor, ou com outro nem tanto… Em todos os jogos do São Paulo Futebol Clube que você tiver o privilégio de assistir no Cícero Pompeu de Toledo, verá e ouvirá uma nação entoar “Olê, olê, olê, olê, Telê, Telê! Olê, olê, olê, olê, Telê, Telê!”

Telê Santana, Fio de esperança, Pé frio, Mestre Telê. Sempre será o maior técnico que tivemos à nossa disposição, e um sem número de palavras jamais serão capazes de fazer entender o tamanho da importância do homem que literalmente fez do São Paulo dos grandes, o Primeiro.

Obrigado, Mestre. Para sempre vivente no São Paulo. Para sempre em nossos corações.

“O dia em que quisermos entrar em campo pra dar pontapé, jogar com violência, nós vamos perder tudo porque o futebol brasileiro é outra origem. Nós sabemos jogar e muito bem. Nós temos habilidade e técnica” - Telê Santana.

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