Nasce um movimento de contestação à gestão de Juvenal Juvêncio

Nasce um movimento de contestação à gestão de Juvenal Juvêncio

silvio.sidney

Não deixa de ser curioso que um movimento de contestação surja no São Paulo justamente nesse momento em que Juvenal Juvêncio parece ter aberto a porta do cofre, depois de contratar Renê Simões e Ney Franco e agora ter fechado a contratação de Ganso. Na verdade, o movimento que está nascendo é oposição, mas não da forma como os torcedores entendem ser oposição, geralmente caracterizada como um grupo que quer disputar o poder em um clube. A intenção dos fundadores do Contragolpe Tricolor, nome desse movimento e cujo site pode ser acessado aqui) é outra, bem diferente, a ponto do estatuto do movimento proibir a participação de qualquer um de seus membros na vida política do clube presente ou futura.

Ao invés de escrever a respeito do Contragolpe Tricolor, preferi ouvir dois de seus fundadores e idealizadores, o Gustavo Fernandes e o Luiz Antonio da Cunha – que, por sinal, é comentarista assíduo nesse OCE, passando para todos que aqui comparecem um pouco de sua visão e longa vivência no futebol.

OCE – Gustavo e Luiz Antonio, por favor, falem sobre o objetivo do Contragolpe Tricolor.

Gustavo Fernandes: O objetivo do Contragolpe Tricolor é esclarecer a torcida que, por desinteresse ou desinformação, não está a par da ilegalidade do terceiro mandato, bem como do quanto este golpe, além de ofensa à lei e aos estatutos, é um caminho que só leva o clube para baixo, como aconteceu com todos os clubes que confiaram seu destino a pessoas tidas como intocáveis e infalíveis. Esperamos que, uma vez a par do que acontece, as pessoas repassem as informações a outras, até transformar a apatia da torcida em indignação pública. Não é crível que tudo isto esteja ocorrendo sob as barbas da torcida e que, ainda assim, esta siga achando que legalidade é preciosismo e voltar a vencer é questão de um ou outro acerto. Queremos fazer nossa parte, de forma pacífica e autônoma, para mudar este cenário.

Luiz Antonio: Indignei-me quando o terceiro mandato passou a ser comentado nos corredores do Morumbi. Tentei pela via diplomática demover as intenções do que vejo como uma grave ofensa ao SPFC, pela via da desobediência a norma pétrea de há muito estabelecida, que permite apenas dois mandatos consecutivos ao presidente. Não obtendo sucesso, engajei-me ao movimento “Nem a Pau, Juvenal”.

O que pessoalmente eu pretendia de fato, e deixei claro ao artífice jurídico do golpe, Carlos Miguel Aidar, em troca de correspondências veiculadas ao público no “Blog do Birner”, era agir judicialmente para defender o Estatuto Social e assim, a honra institucional do SPFC. Ocorreu que outras pessoas mais importantes, fizeram-no antes. Fiquei então à espera da decisão da justiça que veio por meio de sentença do Dr. Carlos Alberto de Campos Mendes Pereira da 3a. Vara Cível, que impôs ao SPFC ”Não fazer a reforma do estatuto… para impedir a reeleição do Presidente além do segundo mandato… e ainda para declarar a nulidade da deliberação ocorrida em 25.2.2011 admitindo tais atos sob pena diária de R$ 5.000,00 por dia de descumprimento na forma do artigo 461, parágrafos 4o. e 5o. do Código de Processo Civil. Torno definitiva a medida liminar concedida por este juizo (que impedia a reunião do CD para modificar o estatuto às vésperas do final do segundo mandato) e condeno o réu (o SPFC de JJ) ao pagamento de custas e de honorários advocatícios…”

Mas, permitindo subterfúgios protelatórios, a justiça tem permitido que o terceiro mandato permaneça até hoje, e sabe-se até quando. Então, aquelas pessoas afins e que tiveram suas expectativas de melhorias e modernização na gestão do SPFC, na sucessão de JJ, frustradas, uniram-se aos que se sentiram ofendidos, golpeados pelo terceiro mandato. O Objetivo é o de elucidar através do site a verdade e mostrar as nossas razões e sentimentos, cada qual expondo sua indignação, com total liberdade de expressão.

OCE – Gustavo, como sei que essa é sua área (Gustavo Fernandes é juiz de direito), explique da forma mais simples possível a questão jurídica sobre a atual gestão de Juvenal Juvêncio.

GF: Como informo no site, o golpe consistiu em tentar repetir a cena final de Superman I, aquele dos anos 70. Sem fundamentos para reinterpretar a reforma do estatuto de 2007 a seu favor, já que a ata da eleição de 2008 fez constar o nome de Juvenal como “reeleito”, Juvenal e Aidar simplesmente criaram uma nova reforma mudando o texto que haviam feito cinco anos atrás. Em suma: um texto no presente para recontar o passado. Além disso, a mudança feriu as atuais exigências do Código Civil ao não ser submetida a todos os sócios, como veio a ser reconhecido em sentença. A apelação não teve efeito suspensivo, mas a tentativa de executar a sentença esbarrou uma decisão de difícil entendimento, que prefiro não comentar por respeito à colega que decidiu. De todo modo, como disse, o site explica a irregularidade de forma objetiva, porém detalhada.

OCE – Falando sobre o estatuto do movimento, não é um pouco radical vetar a participação do sócio na vida política do clube?

GF: Absolutamente. Vai ao encontro do nosso objetivo de desvincular o movimento de qualquer caráter oposicionista interno. O Contragolpe Tricolor é oposição, mas estritamente ao golpe, em favor da legalidade. Ter um associado envolvido na política interna geraria tentativas de distorcer nossas finalidades. Daí um certo purismo, que não deve ser confundido com radicalismo.

LA: Penso que não. Vejo isto como uma forma de dizer “não quero nada para mim, minha luta é pela grandeza institucional do SPFC”.

OCE – Outro ponto do estatuto que me chamou a atenção foi o veto a qualquer vinculação ao clube, capaz de gerar benefícios ou favores. Qual a razão dessa medida?

GF: Estamos convencidos que, para ganhar todo aquele apoio (maior que aquele no tempo em que sua gestão era reca de acertos), Juvenal e seus aliados ofereceram cargos e favores a conselheiros e pessoas ligadas a estes. Por uma questão de coerência, não podemos aceitar que integrantes do nosso movimento gozem de benesses semelhantes.

LA: Normalmente, movimentos de oposição têm como objetivo o poder. E sabemos que com o poder, vêm suas benesses, exposição midiática, etc, coisas que massageiam o ego. Obedecendo ao estatuto do nosso movimento, os membros estão dando clara demonstração de que só querem que os candidatos a dirigentes do clube honrem nossa história e que jamais se autoproclamem maiores do que os pares e tampouco e muito menos, do que o próprio SPFC.

OCE – Pelo que entendi, então, o Contragolpe Tricolor não irá apoiar nenhum candidato em eleições futuras no clube?

GF: Isso simplesmente não faz parte dos nossos objetivos. Não somos um grupo político. A maioria dos nossos membros sequer é sócia do clube.

LA: Bem, como sócio votarei. E escolherei candidatos dentre pessoas que não deram aval ao golpe do terceiro mandato, estejam eles na situação ou na oposição. O que eu gostaria mesmo, é que houvesse um movimento político interno, formado por pessoas indignadas com o golpe, mesmo que tenham dado seu apoio inocente, deixando-se levar à época, pelo rolo compressor que assolou aqueles que queriam manter-se ao lado da obediência ao Estatuto Social. Nunca é tarde para se arrepender. Só não veria com bons olhos os fisiológicos, aqueles (principalmente opositores) que venderam suas convicções morais por favores, benesses ou carteirinhas, apenas para não pagar ingressos, para viajar de graça ou estacionar os próprios autos dentro das dependências do SPFC.

OCE – Lendo os artigos postados no site do CGT, pude ver que a crítica à gestão de Juvenal Juvêncio vai muito além de seus aspectos operacionais. Quais os pontos que “pegam”, como diz a rapaziada?

GF: O ponto principal é simples: todos os clubes em que dirigentes se tornam caudilhos acabam entrando em queda irreversível, ao menos até o momento em que tais caudilhos deixam o poder. Nossos rivais não nos deixam mentir, assim como o Vasco da Gama e outros clubes que, num dado momento de suas Histórias, acreditaram na infalibilidade de dirigentes a ponto de eternizá-los. Além de ilegal, o caudilhismo traz aborrecimentos que superam, de goleada, as alegrias.

LA: Eu fiz parte ativa da diretoria de futebol até mais ou menos, a metade de segundo mandato. Como amigo do presidente JJ, passei a me afastar só para não ser critico e voz dissonante, contumaz, diária, àquilo que me parecia errado, pois o presidente demonstrava convicções fortes e antagônicas às minhas que o tempo mostrou serem mais acertadas, haja vistas aos péssimos resultados que obtivemos em áreas como: a disputa por sediarmos a abertura da Copa do Mundo de 2014 ou, à gestão do nosso time de futebol profissional.

OCE – Gustavo, um dos pontos em que eu acredito e pelo qual se bate esse OCE é a democratização de nossos clubes e o direito de votar e ser votado pelos torcedores, naturalmente inscritos nos programas de Sócio-Torcedor. Como vocês do CGT encaram esse ponto, essa filosofia?

GF: Como registrei numa das colunas, um dos fatores que propiciaram o golpe foi a estrutura política chamada de “cardealismo”. Sou a favor da mudança deste sistema e do incentivo para que torcedores possam participar, votando, da vida política do clube. Aliás, como colunista do Fórum O Mais Querido, dei a ideia de dar voto ao sócio torcedor ainda em 2005.

LA: Com total simpatia e aceitação. Não fosse o formato feudal com que é tido e tratado o SPFC, pela atual direção, já deveríamos ter nos modernizado e nos tornado transparentes. Esta uma das razões pela qual defendo a profissionalização total da direção do futebol. Vou mais além: a meu ver deveríamos ter duas vice-presidências eleitas diretamente. Uma, a do setor social, cujo gestor deve ser escolhido pelos sócios. O contato direto com os frequentadores daria ao gestor a sensibilidade dos desejos e anseios dos sócios. Eles poderiam discutir diretamente sobre a conveniência e a relação entre custos, benefícios e forma de arrecadar o necessário para manutenção e novos investimentos. Outra, a do carro-chefe, razão da fundação e existência do SPFC, o futebol profissional (e sua base de formação dos futuros profissionais). Quem sustenta o deveras custoso futebol, altamente profissionalizado dentro do campo e super amadoristicamente dirigido fora dele? Pois bem, a única resposta possível é: Sua Majestade o Torcedor, o fã do desporto e do time. Ele, de inúmeras formas, preenche os cofres do clube com recursos para bancar os gastos. Sabendo-se disto, formulo outra pergunta: É justo que o torcedor, mantenedor direta e indiretamente, não tenha o direito de influir nas decisões, de nomear do gestor setorial? Na minha opinião o vice presidente de futebol deveria ser eleito diretamente por um colégio eleitoral composto pelos sócios pagantes para ter este direito.

OCE – Luiz, eu sei que você tem uma trajetória muito bonita junto à garotada da base Tricolor. Como você vê a situação hoje, com Renê Simões e a estrutura de Cotia?

LA: Difícil falar sobre esta paixão, sem me alongar. O CFA de Cotia é um antigo sonho, tornado em belíssima realidade. Pouco tempo depois de ter sido convidado pelo Sr. Julio Martins Moraes para colaborar na diretoria dele, a do futebol de base, ainda na gestão MPG (Marcelo Portugal Gouvêa), detectei uma anomalia: os técnicos de cada categoria eram soberbos, não respondiam, tecnicamente, para ninguém. Questionados por diretores ou funcionários, saíam da sala perguntando: “Em que time ele jogou?” – como se apenas ex-jogadores fossem conhecedores da coisa. Tampouco havia uma doutrina técnico/tática do trabalho a ser feito. O distanciamento da base formadora para a profissional, do CT, era enorme, semelhante a uma vala onde perdemos muitos jogadores que poderiam ter um grande futuro. Alguns tiveram, mas longe do Morumbi. Perdemos por falta de continuidade, de coerência, de entrosamento. Tínhamos, e ainda temos, gente perene e com poder de veto à promoção de alguns jogadores a seu próprio critério, que prefere indicar jogadores de fora. E, convenhamos que o histórico recente de contratações em nada enaltece o trabalho do indicador.

No que tange a contratações, não se tira qualidade de quantidade. Até porque esta prática é contraproducente e por demais onerosa. Para solucionar isto, pedi e sugeri, a vinda de um manager. A meu ver, esta pessoa, de currículo impecável tanto em competência como em ilibada vida pregressa, viria para doutrinar todos os trabalhos. Ele seria o responsável por contratar ou manter, os técnicos. Aos seus comandados, daria um rumo e objetivos a serem alcançados. Esta pessoa não se conformaria em ter seu trabalho ameaçado por protegidos ou alcaguetes da alta direção do clube, pendurados em cargos difíceis de serem explicados, justificados.

O modelo era este mesmo que me parece estar sendo encaminhado para Renê Simões. Se derem a ele a liberdade de escolher com quem deseja trabalhar, poderemos vir a ser muito felizes. Um profissional jamais cometerá injustiças como a que fizeram com Zé Sérgio, que foi alçado abruptamente a treinador do time que disputou a última Copinha SP de Juniores e pagou o pato pela breve desclassificação da equipe na primeira fase, conta, aliás, que não lhe cabia. O presidente, cobrado, encontrou um judas para malhar. Claro que resultados devem ser cobrados, mas jamais em forma de conquistas na base, cuja obrigação é formar. E isto lá fazem muito bem, obrigado. Porque não houve conduta semelhante em outras ocasiões? Coerência não é característica forte nos senhores feudais.

OCE – Gustavo, para fee não meramente literária, ficcional, mero exercício intelectual) da democracia nos clubes de futebol?

GF: Penso que o modelo mais positivo de participação de sócios no destino do clube é o do Barcelona, em que até um novo estádio precisará da aprovação dos milhares de associados em todo o mundo. No Brasil, não dá para falar em algo parecido, a despeito das primeiras inclusões de sócios torcedores votando. No São Paulo nem se fala. Não dá para falar em profissionalismo e gerir o clube por meio de conclaves.



A conversa com o Gustavo e com o Luiz Antonio deu-se por e-mails e telefonemas, e suas respostas, exceção feita a pequenas correções, são transcrições de suas mensagens via e-mail. Aproveito para deixar claro que da mesma forma que esse OCE ouviu o Contragolpe Tricolor, está aberto para ouvir o presidente Juvenal Juvêncio.

http://globoesporte.globo.com/platb/olharcronicoesportivo/2012/10/08/nasce-um-movimento-de-contestacao-a-gestao-de-juvenal-juvencio/

http://contragolpetricolor.com/

Avalie esta notícia: 1 5
VEJA TAMBÉM
- Lucro absurdo: São Paulo alcança superávit financeiro multimilionário em 2025
- Craque é oferecido ao São Paulo mas diretoria recusa contratação! Confira
- EXCLUSIVO: Expulsões, demissões e guerra! São Paulo vive nova crise política
- Craque no Tricolor? São Paulo monitora a contratação de atacante ex-Barcelona
- Vai sair? Entenda a situação de Lucas Moura no São Paulo




Nenhum comentario!
Enviar comentário
Para enviar comentários, você precisa estar cadastrado, clique Aqui. Para fazer login, clique Aqui.

Notícias

Próximo jogo - Brasileiro

Dom - 16:00 - MorumBIS -
São Paulo
São Paulo
Bahia
Bahia
FórumEntrar

+Comentadas Fórum

Entrar

+Lidas Notícias

LogoSPFC.net
©Copyright 2007 - 2026 | SPFC.net