Exímio administrador de suas finanças pessoais, Emerson Leão ganhou a vida com futebol, negócios imobiliários e criações na fazenda – sonho de infância – que adquiriu. Controlado, mas não pão duro, como ele mesmo diz, construiu uma vida bem-sucedida. Isso depois de, já goleiro titular do Palmeiras, pegar dois ônibus para treinar. Entre outras coisas, tem uma bela casa, comprou um barco, gosta de praia, faz viagens internacionais e tem como grande hobby a compra de quadros. Todos segurados.
Apesar das realizações e de se intitular homem cheio de riquezas pessoais, e não materiais, tem algo que incomoda o treinador. Desde que chegou ao São Paulo, apesar de entender que conseguiu melhorias, não obteve vitória – duas derrotas e um empate. Ele sabe que precisa impor no Sampa uma gestão como a da sua vida.
Leão chega todos os dias ao CT às 7h. Pela fase ruim do São Paulo, o tempo que o trabalho consome e a falta de sol, estender sua toalha para se bronzear, como em 2004 e 2005, está difícil antes dos treinos. Na última sexta, depois da atividade, atendeu à reportagem do LANCENET!. Brincou que daria só dois minutos de entrevista, mas o papo durou quase 40. Falou, entre outros assuntos, sobre a postura dos jogadores de futebol, Rogério Ceni, seus costumes, manias, objetivos e que tem chegado cansado em casa. Com vínculo até o fim deste ano, não gosta de falar sobre 2012, mas se vê lá:
– Ano que vem, não só eu, mas todos que trabalham no São Paulo, querem melhoria. E ela passa por jogadores específicos, em posições específicas, que ainda não definimos. Mas já começaram os oferecimentos. O plano era definir 2011, o segundo vamos falar depois. Precisamos de algumas luzes em 2011.
LANCENET!: Pensava que um dia voltaria a dirigir o São Paulo?
EMERSON LEÃO: Não planejei uma volta, até porque não estava em São Paulo. Faz pouco tempo que estou, mas em relacionamento e treinamento, estou satisfeito. Não pelos resultados, mas sinto que eles estão próximos. A melhoria passa por jogadores específicos, em posições específicas, que ainda não definimos. Mas já começaram alguns oferecimentos.
LANCENET!: Assustou-se com o convite?
EMERSON LEÃO: Não tem susto, pelo contrário. Eu falei: “Até que enfim”. Deixei a porta aberta, com bom relacionamento, trabalho e resultado. Era questão de tempo, não de oferecimento.
LANCENET!: Já projeta 2012?
EMERSON LEÃO: Não estou olhando o ano que vem, mas as necessidades deste ano. O próximo depende muito deste. Não em relação mim, mas pelo clube. As pretensões sempre foram gigantes. Títulos, Libertadores... O amanhã depende muito do hoje.
LANCENET!: Por que tudo isso vale a pena?
EMERSON LEÃO: Chego em casa feliz, porque estou cansado. Quem está cansado é porque trabalhou, e com objetivos definidos. Cada melhoria que tem no dia, um detalhe, já me deixa satisfeito. Temos que diminuir os erros e aumentar os acertos. Até na derrota tivemos evolução. Quem faz três gols e pode fazer seis, é evolução. Mas tomar quatro é o negativo.
LANCENET!: Quando era jogador, também chegava cedo aos treinos?
EMERSON LEÃO: Chegava por necessidade. Tinha que molhar o chão, que era duro, não este tapete de agora. Sempre dormi cedo, porque dependo do reflexo. Passavam que tinha que ter precisão, porque atrás tinha a rede.
LANCENET!: O que acha de jogador que vai para balada constantemente?
EMERSON LEÃO: Atleta é uma coisa, jogador de bola é outra. O profissional sabe dos limites e tem que ter respeito por quem o paga. Quem quer viver na noite, muda de profissão. É gozado hoje, mas nós, mais velhos, temos que entender. Foi dormir cedo hoje? Daí o cara fala que foi 1h e acha que é cedo. Para mim, está quase na hora de acordar. Para tirar o conflito de geração, precisa ver a profissão.
LANCENET!: Mulher é problema?
EMERSON LEÃO: Depende da mulher. Como o homem pode ser problema. Alguns têm bom olho e resolvem na primeira. Gostei e com ela vou. Gostou também? Deu certo. Mas tem cara que troca cinco, seis vezes. Não troquei. Precisa mostrar identidade diferente como pai, filho, homem.
LANCENET!: Como você é com sua esposa?
EMERSON LEÃO: Normal. Se estou trabalhando, estou trabalhando. Se estou no lazer, estou no lazer. Procuro ser o mais simples possível na resposta, depois tem bate-papo, em que tenho liberdade. Ali dentro estou trabalhando, não pense que meu diretor não está olhando. Tenho minha obrigação e não posso deixar espaço para ninguém. Depois o jogador fala que não fez isso porque ninguém mandou. Então, mando e peço dentro do campo. Meu sistema é dentro do campo. Senão, quem trabalha fora não tem função. Tudo relacionado ao futebol entro no meio.
LANCENET!: Desde que chegou ao clube, qual foi sua maior decisão?
EMERSON LEÃO: Ser verdadeiro com os jogadores. Estar próximo e de frente com eles, além de apoiá-los. O homem atleta de futebol sabe quem o dirige.
LANCENET!: Se considera vaidoso?
EMERSON LEÃO: Todo homem tem que ser vaidoso, mas não exagerado. Isso faz parte da satisfação do ego. A mulher também tem que ser. Mas tenho conceitos de vaidade e cada um tem o seu. Dentro da minha eu cultivo. Eu me apresento bem, tenho brilho nas decisões, frequento lugares que me dá prazer e demonstro isso dia a dia. Tenho que saber o que é permitido naquele lugar. Se vou visitá-lo, não vou de chinelo de dedo.
LANCENET!: Gasta muito pela vaidade?
EMERSON LEÃO: Primeiro que não tenho muito para gastar. Depende da vaidade. O que é vaidade para mim, pode não ser para você. Minha vaidade pode ser barata. Tem coisas que eu gosto, que gostaria de ter, mas não tenho. Isso porque não tenho dinheiro.
LANCENET!: Dizem que em 2004 e 2005 você tomava sol no CT. Ainda toma?
EMERSON LEÃO: É verdade (risos). Não está com tempo para isso, o sol não está saindo. Tomar sol não mata. Tomo das 7h às 9h, 8h às 10h, quando tenho tempo. Aqui, quando estava tudo em ordem, deitava naquele cantinho (aponta para o local), estendia uma toalha e depois dava treino.
LANCENET!: Não teme ser fotografado?
EMERSON LEÃO: Não, isso é entidade particular. Passa na sua casa, na minha. Tomo sol na minha casa. Qual problema? Combina com cabelo branco.
LANCENET!: Com que trajes toma sol?
Como? Você quer pelado? Tomo de sunga de praia. Às vezes vou para o litoral, gosto de passear de barco (comprou um) com minha família, paro em uma ilhazinha. Tem coisa melhor do que isso?

LANCENET!:Seu apreço por arte se resume à pintura?
EMERSON LEÃO: Não, pode ter uma boa escultura, tem uns caras feras, pô. Mas não me compare na arte, porque meus companheiros vão começar a rir de mim. Porque sou o franguinho da turma, o caçula, minha lagoa tem de ser rasa, senão morro afogado.
LANCENET!: O que falta para o São Paulo?
Quero o mais rápido possível armar um time para ser vencedor. A filosofia é essa, o resto vem acompanhado. Se você tem um time com perfil de vencedor, você será vencedor. Se não tem, não será. E às vezes tem alguns que preciso acordá-los.
LANCENET!: Você perdeu o Rogério em dois jogos. Qual tamanho da perda?
EMERSON LEÃO: Estou procurando reanimá-lo cada vez mais, motivá-lo cada vez mais. Um homem que gosta de recordes, então temos de animá-lo e cobrar do último recorde. E sinto o Rogério preocupado com o momento do clube e com o particular dele com as contusões. Porque vem de uma cirurgia (em 2009), e já não é mais uma criança. Parei mais ou menos na idade dele (39 anos). Falei para ele que poderia até fazer mais uma Copa, mas precisava de condições físicas para isso. O Rogério fica ali dentro (aponta o Reffis) o tempo todo. Às vezes, vai embora, sai um pouquinho, depois você volta.
LANCENET!: Quem pegou mais: você ou ele?
EMERSON LEÃO: Não fui goleiro (risos). Acho que cada um dentro da sua época. Está certo que joguei mais em termo de Seleção, quatro Copas, mas isso é uma questão secundária. Às vezes é o momento. Entra no lugar que tem um cara que não lhe dá chance e é merecedor tanto quanto você. Hoje só incentivo os goleiros, a não ser nas brincadeiras do dia a dia.
LANCENET!: Como vê a Copa de 2014?
EMERSON LEÃO: Estou com alta preocupação com relação à Copa do Mundo, pela demonstração de organização. Porque, se você abre os jornais, é greve, corrupção, é isso e aquilo. Nem começou e está nos dando trabalho.
LANCENET!: Você é um cara rico?
EMERSON LEÃO: Rico? Fazia tempo que não ouvia essa palavra. Eu sou. Tenho uma baita de uma família. E meu conceito de riqueza é isso. Poder olhar qualquer um de frente, que é uma riqueza que ninguém paga. Deixar saudade e não rastro, isso é uma riqueza. Agora, do lado financeiro, após 47 anos de profissão, com carteira assinada, acho que consegui de acordo com aquilo que doei.
LANCENET!: Se considera pão duro?
EMERSON LEÃO: Sou controlado. Na minha época, muitos jogadores ganhavam mais do que eu. Mas gastei pouco e não fiz besteira. Fiz certos investimentos, que me dão a condição de hoje.