A semana nos colocou diversos assuntos interessantes a comentar. Vamos lá, em 5 tópicos:
1) Ponte Preta 1x0 São Paulo: o jogo dos déjà vus
Será que já vimos esse filme antes? Vamos lembrar do passo a passo: primeiro tempo ligeiramente superior ao adversário dono da casa; gol sofrido logo após o intervalo; time desmorona depois disso; esquema muda de 3-4-2-1 para o 4-4-2 em linha com dois centroavantes; o efeito da mudança é praticamente nulo, pois não há aproximação entre os setores e a troca de passes é burocrática e jamais rompe linhas; no apito final, temos 60% da posse de bola, 25 cruzamentos, apenas 3 finalizações ao gol e - o mais importante - perdemos por 1x0.
Pois é, amigos. O parágrafo acima (inclusive as estatísticas) poderia perfeitamente se referir à estreia contra o Cruzeiro no Mineirão, mas tal qual num Groundhog Day incrivelmente o roteiro se repetiu - e dessa vez, numa performance piorada. Com isso, o Tricolor completou a quarta visita consecutiva ao Moisés Lucarelli que culmina com o mesmo placar de derrota pelo saldo mínimo.
2) Sobre Maicosuel, um comentário sóbrio e uma lembrança emocionante
Nada me faria mais feliz do que ter minha língua devidamente queimada, cauterizada e carbonizada por belas atuações do novo camisa 7 tricolor, mas o blog é feito justamente para darmos nossas opiniões e, francamente, não gostei da contratação de Maicosuel. Num momento em que o São Paulo sinaliza com uma política de austeridade financeira para justificar o desprezo por um dos maiores ídolos de sua história, não há muitos argumentos racionais que expliquem desembolsar tais valores - que não são nem um pouco baixos - para fechar um longo contrato de 3 temporadas com um meia de 31 anos que frequentou bem mais o banco de reservas (vide passagens por Cruzeiro, Palmeiras, Hoffenheim, Udinese e Atlético) do que o time titular, e raras vezes lembrou o ótimo jogador que parecia que seria quando despontou para o cenário nacional levando o Paraná Clube a uma histórica classificação para a Libertadores, em 2006. Pessoalmente, eu preferia que o Tricolor tivesse apostado noutras opções mais jovens, baratas e promissoras. O mercado sul-americano é farto delas, basta sabermos olhar.

Contudo, há um momento em especial da carreira de Maicosuel que me traz belas recordações. Após ser repatriado a peso de ouro pelo Botafogo, em 2010, o Mago - como era chamado pelos alvinegros - sofreu grave lesão nos ligamentos cruzados do joelho. À época, circulou até um preocupante comentário sobre a possibilidade de, aos 24 anos, o meia ser obrigado a encerrar precocemente a carreira. Após quase 8 meses de tratamento intenso, em maio de 2011, o finado treinador Caio Junior escalou o reabilitado atleta para jogar a meia hora final de um amistoso de inter-temporada contra o Friburguense. O jogo morno se encaminhava para um 0x0 modorrento até que, num lance genial a la Dennis Bergkamp, Maicosuel - que havia entrado há exatos 55 segundos - recebeu cruzamento de Alex e girou dentro da área para cima do zagueiro Evair, deixou o goleiro Marcos no chão e fez um gol de placa com apenas três toques na bola. Em seguida, muito emocionado, desabou no gramado em lágrimas, sendo abraçado por todos os companheiros e até mesmo por Caio Junior, ciente de todo o drama que o camisa 7 que já havia sido seu jogador nos tempos de Paraná vivera para chegar até ali. Um lindo momento, sem dúvidas, que você pode acompanhar aqui. Quem sabe ele não tenha guardado mais alguns desses truques para sua passagem pelo Morumbi.
3) Sem Luiz Araújo, vamos de Denílson
Ao subir, o mirrado Luiz Araújo era bem menos badalado que Lucas Fernandes, David Neres e outros nomes da fornada anterior de Cotia, como Ewandro e Boschilia. Menos de um ano e meio após sua promoção aos profissionais, o ponta deixa o clube por pouco mais de R$ 30 milhões, com gols importantes contra os 3 rivais do estado no currículo e a impressão de uma ascensão interrompida de maneira precoce, justo no momento em que voltava a se firmar com status de titular. No Lille, Araújo jogará sob as instruções de ninguém menos que Marcelo Bielsa, um dos maiores lapidadores de talentos de que se tem notícia, e caso aproveite a experiência, tem tudo para ter belo futuro no futebol.

Se por um lado vai-se uma peça importantíssima do plantel, na contramão chega uma nova aposta: Denílson, ponta-esquerda destro de 21 anos formado em Xerém, na célebre base do Fluminense, com passagens pelo Granada (Espanha) e, mais recentemente, pelo Avaí. Preciso ser sincero: assisti apenas duas partidas do novo reforço tricolor, que não chegou a despertar minha atenção enquanto atuou numa equipe extremamente defensiva como a dos avaianos. Daquele time, gostei do que vi do lateral-esquerdo Capa, apenas.
Pelo que pude observar de algumas características de Denílson, entretanto, me permito dar um pitaco: a dupla Ceni/Beale pode considerar aproveitá-lo como ala no 3-4-2-1, a exemplo do que já vem fazendo (com êxito) com Marcinho. A partir disso, espero que tenhamos muitas DENILSON DANCE.
4) São Paulo 2x0 Vitória: resultado justo, mas segundo tempo muito ruim
Frente ao Vitória, o São Paulo fez um bom primeiro tempo, especialmente quando contou com as infiltrações de Cícero para atacar com um homem a mais no terço ofensivo do campo. Apesar de ser lento, o camisa 8 tem qualidades para oferecer essa arma à equipe. Quando não o faz e guarda posição 100% do tempo, Cícero deixa o time ofensivamente muito previsível e estático. Jucilei, o maior ponto de referência defensivo do meio-campo, também sabe ser um elemento surpresa, mas acaba tolhido pelo esquema e pela ausência de mais um meio-campista marcador, o que lhe obriga a adotar um posicionamento mais conservador. De todo modo, os baianos devem ter se dado por satisfeitos por conseguirem levar um 0x0 para o intervalo contra um São Paulo que apresentou um repertório mais rico do que nas últimas jornadas: construiu pelas alas, foi ao fundo em vez de despejar chuveirinhos inócuos da intermediária, arriscou chutes de longe e até bons lançamentos.
Na segunda etapa, Rogerio mexeu na equipe: Thomaz entrou no lugar do discreto estreante Maicosuel e o Tricolor saiu do 3-4-2-1 para passar ao 4-2-3-1, com o versátil garoto Militão avançado para a linha de meio-campo e Cícero sendo adiantado como meia ofensivo central. E foi assim que a aposta do treinador, Thomaz, abriu o placar aos 18 minutos, muito graças à pressão de Marcinho (mais uma boa partida) para retomar a bola no campo ofensivo e a Pratto, que generosamente lhe serviu. Com a vantagem no marcador, a equipe são paulina retornou ao 3-4-2-1, mas sem nem metade da solidez defensiva do primeiro tempo. João Schmidt e Wellington Nem entraram completamente fora de sintonia e o Vitória acordou, ganhou terreno e passou a pressionar, dessa vez tendo a posse de bola a seu dispor. Não fosse uma sequência de dois milagres de Renan Ribeiro finalizada por uma esplendorosa bola tirada sobre a linha do gol por Eder Militão, os visitantes, que ainda tiveram um gol anulado depois, teriam empatado. Em meio ao pânico pela péssima segunda etapa, Lucas Pratto demonstrou mais uma vez porque é o dono do time e, com um golaço, selou a vitória nos acréscimos: 2x0, e o sinal de alerta ligado para a oscilação.
Analisar o jogo de quinta-feira é um importante desafio à lógica resultadista que, de maneira empobrecedora, condiciona o desempenho de um time somente ao placar final: na primeira etapa, uma atuação segura, agressiva e correta do Tricolor terminou sem gols; na segunda, uma performance repleta de falhas defensivas claríssimas e que, na frente, se resumiu basicamente aos esforços individuais do trio Marcinho, Thomaz e Pratto resultou em dois gols e os 3 pontos. Há muito o que aperfeiçoar, a começar por encontrarmos regularidade dentro das próprias partidas. Se quer brigar seriamente por algo neste Brasileiro, o São Paulo não pode mais se dar ao luxo de ter péssimos segundos tempos, como contra o Cruzeiro, a Ponte e o Vitória.
5) Itaquerão, aí vamos nós
Campeão paulista, líder do Brasileiro, invicto há 18 jogos e igualmente imbatível em todos os 6 clássicos jogados em 2017: é tão doloroso quanto necessário para nós, são paulinos, admitirmos que o Corinthians é, junto do Grêmio, a sensação da temporada brasileira até aqui. E mais: o tão criticado jogo reativo de Fabio Carille vem dando lugar a uma equipe cada vez mais preocupada em construir com a bola, superando os desfalques e limitações técnicas claras do elenco. Por essas e outras, o irritantemente organizado time de Jô e cia. consta em todas as casas de apostas como o franco favorito para o Majestoso deste domingo.
Por outro lado, o franco atirador São Paulo busca finalmente pontuar fora de seus domínios e, mais do que isso, vencer em Itaquera, quebrando um já incômodo tabu de 3 anos. Para tanto, todos sabemos que será necessária uma apresentação impecável, dessas que catapultam uma equipe a outro patamar de confiança para o que der e vier na sequência do campeonato. No provável 3-4-2-1 de Ceni, é certo que haverá uma atenção especial a Guilherme Arana, a principal arma ofensiva corintiana que pode ser coibida pelos esforços conjuntos da dupla Bruno e Marcinho.
Quem se lembra daquele time do início do ano que propunha o jogo, marcava por pressão no ataque e trabalhava em ritmo alto? Sim, aquele mesmo que fazia 3 ou 4 gols por partida, mas era duramente criticado porque sofria sempre dois. Bem, após uma série de custosos infortúnios, aquela equipe está guardada numa gaveta até segunda ordem. Com a linha de três na zaga, o São Paulo de Rogerio se transformou numa esquadra pragmática e, por vezes, adepta daquilo que o próprio rival de domingo fazia de melhor: dar a bola ao adversário e forçá-lo ao erro. Sem ela, o foco passou a ser a recomposição defensiva veloz em seu campo, e não mais a pressão na intermediária rival. Assim, vencemos o riquíssimo Palmeiras com autoridade. Assim, esperamos algo além do bom e velho discurso do azarão contra o favoritíssimo Corinthians. Tabus existem para cair. In Pratto we trust.
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