Salve, amigos tricolores,
Em poucos dias, temos muito a analisar, desde o chocho empate em 0x0 com o Defensa y Justicia até a projeção para o duelo de amanhã contra o Linense - dessa vez jogando em casa. Vamos juntos, em 10 tópicos? Simbora:
1) Os otimistas dirão que...
Com 12 desfalques, o São Paulo arrancou um empate numa sempre hostil cancha argentina e chegou à terceira partida consecutiva sem sofrer gols, um dado que deve ser registrado tendo em vista que este é notadamente o calcanhar de Aquiles da equipe em 2017. Além disso, houve duas chances claras de vencer, ambas pelos pés de Wellington Nem na primeira etapa. Apesar da atuação opaca, Denis foi pouco exigido e o sistema de 3 zagueiros passou bem longe de comprometer. Aliás, Rodrigo Caio e Lucão foram os melhores da equipe.
2) Os críticos dirão que...
O futebol foi insuficiente. O argumento do gramado seco não pode justificar os absurdos 45 lançamentos errados (somados a 13 certos), que, se postos em conjunto com os 223 passes trocados (somados a 48 errados - número baixo de passes certos para um time acostumado a ultrapassar os 300 por jogo) e ainda os 42% de posse de bola, revelam em estatísticas frias o que o torcedor sentiu assistindo à partida: não havia saída de bola nem meio-campistas se aproximando para triangular e a alternativa que nos restou foram os chutões.
Thiago Mendes, especificamente, pareceu fazer enorme falta, por ser o homem que costuma aparecer para acompanhar de perto todas as jogadas e conduzir a bola - algo que Jucilei (que até fez bom jogo) e João Schmidt não conseguiram fazer no momento ofensivo jamais nessa partida. Desta forma, o time fugiu - ou foi obrigado a fugir? - de sua característica, mesmo diante de um rival de nível bastante inferior. É preciso pesar diversos fatores ao criticar a equipe: uma formação nova, jogadores desentrosados, mais de uma dezena de desfalques, o que levou a algumas improvisações, e um jogo fora de casa certamente não tornaram a tarefa mais fácil. Ainda assim, esperava-se mais pelo material humano que o São Paulo levou a campo.
3) Lembrando o Profe - parte 1
Em dado momento da primeira etapa, talvez inspirado por seu mentor Juan Carlos Osorio, Rogerio entregou um bilhete para o capitão Lucas Pratto. Não era um post-it, mas uma gigantesca folha A4 com garranchos que indicavam a mudança tática que ele desejava: sair do 3-5-2 para o 4-1-2-1-2, avançando o posicionamento de Rodrigo Caio e mantendo Wellington Nem centralizado na armação, como enganche na ponta ofensiva do losango que formou no meio-campo.
No segundo tempo, nova alteração: com a entrada do meia Shaylon em lugar de Breno, Nem virou ponta-direita e Rodrigo Caio retornou à linha de zaga, num 4-2-3-1 até então inédito na temporada. Ainda houve tempo para uma nova mudança tática, quando o sumido Chávez saiu para dar lugar a Junior Tavares e o time voltou ao 3-5-2. Na última linha, Buffarini era o zagueiro pela esquerda quando cometeu nova falta infantil e foi merecidamente expulso. Sobrou para o menino Shaylon ser sacrificado após 32 minutos em campo.
Dos bilhetes, ficou apenas uma conclusão: Rogerio tem uma letra feia demais.
4) Lembrando o Profe - parte 2
Osorio jamais teve medo de utilizar a base e Ceni segue pelo mesmo caminho. É fundamental ressaltar esta característica em treinadores que são exceções num clube que tanto investe na formação, mas tanto peca na transição e afirmação de seus jovens talentos de Cotia no time de cima. Como notou o sempre astuto historiador do clube, Michael Serra, contra o Defensa y Justicia foram aproveitados ao todo 8 pratas da casa (algo que não ocorria desde 2011, nos tempos de Casemiro, Lucas e do próprio Rodrigo Caio) e o time teve média de idade de apenas 25,11 anos.
5) Buffarini: estamos sendo justos com ele?
Cerca de 5 anos atrás, uma famosa revista semanal lançou uma lendária capa homônima ao título deste item, em defesa de um célebre prefeito que, não por falta de motivos, atravessava um momento de extrema impopularidade na metrópole que governava. O questionamento contido imediatamente virou um meme: "estamos sendo justos com ele?" passou a ser utilizado mesmo nos mais absurdos e óbvios contextos.
Adaptando à realidade são-paulina, é bem verdade que a passagem de Buffarini pelo Tricolor vai deixando bastante a desejar até aqui e a torcida tem todos os motivos para se mostrar reticente com ele. E não me refiro apenas ao aspecto ofensivo, em que é nítido que o esforçado lateral ainda encontra dificuldades em fundamentos como o drible, o passe, o domínio e o cruzamento. Esperava-se, contudo, que o experiente ídolo do San Lorenzo agregasse suas qualidades defensivas a um time que encontra instabilidade no setor há anos, mas as falhas também nesse quesito vêm sendo recorrentes e nítidas.
Como já registrei aqui, não creio que o problema defensivo do São Paulo 2017 resida nas individualidades A ou B nem tampouco cobro a cabeça de ninguém embalada num jornal a prêmio para a torcida. Contudo, é honesto que se teça críticas construtivas quando há alguma peça atuando seguidamente em nível muito inferior às demais. Neste ano, o camisa 18 Tricolor coleciona cartões amarelos, frequentemente joga deitado, distribuindo carrinhos fora do tempo da bola e toma dribles desconcertantes - dizem que ainda está procurando Vitor Bueno em algum lugar da Vila Belmiro...
E aí me questiono: Buffa fez algumas partidas bem decentes no fim de 2016 e foi um dos melhores do time na Florida Cup, o que mostra que tem sim lugar no plantel. Está visivelmente longe de ser um primor técnico, o que deveria afastar logo de cara a hipótese de ser improvisado na lateral-esquerda, já que não apresenta o mínimo cacoete para ir ao fundo do campo nem mesmo cruzar da intermediária. Tendo os canhotos de ofício Reinaldo e Matheus Reis a seu dispor em dezembro, ao planejar o elenco Ceni decidiu emprestá-los e contar somente com o garoto Junior Tavares (uma grata surpresa que até então era uma incógnita que sequer havia estreado profissionalmente) e o atabalhoado Buffarini no setor. Foi uma escolha dele, que se provou errada, tanto que Edimar teve de ser contratado às pressas semana passada para tapar o buraco.
No duelo com o Defensa y Justicia, até pela inesperada lesão de Edimar, Buffarini atuou o tempo todo fora de sua posição, novamente. Com 5 minutos, deu um carrinho voador e tomou um amarelo, o que não vem sendo raridade. Sabia-se ali, então: jogaríamos por 85 minutos com um atleta improvisado e pendurado, uma bomba-relógio, a menos que o treinador interviesse. E em meio a todas as muitas mudanças táticas de Ceni ao longo do confronto, nenhuma considerou sacar o exposto Buffarini ou, vá lá, passá-lo para sua posição de ofício, até que aos 30 minutos, ele viu o cartão vermelho. O técnico faz belo trabalho, mas é justo que se diga: Buffarini na esquerda, tanto na temporada quanto na segunda etapa inteira da última partida, foi uma opção de Ceni.
6) A hinchada do Defensa y Justicia curte Ana Carolina
Como bem observaram os amigos vlogueiro Luiz Hygino e blogueiro Fernando Figueiredo Mello durante a peleja de quarta-feira, os hinchas do Defe, como é carinhosamente chamado o nosso último adversário, entoavam a plenos pulmões uma versão do hit "Quem de Nós Dois", eternizado na voz de Ana Carolina, regravado em pagode pelo formidável Bokaloka e originalmente cantado pelo italiano Gianluca Grignoni, como "La Mia Storia Tra le Dita", que também ganhou sua versão em espanhol chamada "Mi História Entre Tus Dedos". A quem quiser conferir, só clicar aqui. É pouca zuera?
7) Os legados de Edgardo: Rogeymar se vai
Edgardo Bauza abandonou o barco tricolor no meio de 2016 para assumir a seleção argentina na mesma semana em que recebeu dois reforços que tanto pediu ao presidente Leco: Chávez e Buffarini. Em seu semestre no Morumbi, Patón se notabilizou entre outras coisas por relegar o ponta Rogério, que vinha de um grande segundo semestre de 2015 (que lhe rendeu o ótimo apelido de Rogeymar), a um papel meramente decorativo no elenco enquanto concedia infindáveis chances a Centurión, que atravessava fase tenebrosa. Uma escolha que a torcida custou muito, mas muito mesmo, a entender, e que certamente causou prejuízos técnicos à equipe.
Além da insatisfação profissional mais do que justificável, Rogério teve alguns problemas pessoais que o levaram a pedir para que a diretoria aceitasse a proposta do Sport por seu futebol. Na Ilha do Retiro, seguiu jogando em ótimo nível e agora acaba de ser contratado pelo irrisório valor fixado no empréstimo: R$ 3,5 milhões. Atualmente, o São Paulo lida com a escassez de boas opções para aquela posição e tem de se contentar com a amarga sensação de ter aberto mão de um jogador extremamente útil por um preço que claramente não reflete seu valor.
Alguns meses depois da saída repentina, os quatro grandes legados de Bauza no Tricolor ficam claros: El Comandante Chávez, Buffarini, a saída de Rogério e os tijolos a mais que ele mandou colocar na churrasqueira do CT da Barra Funda. Pelo menos a parrilla deve ser boa.
8) Linense: aplicar rodício
Amanhã diante do Linense, desta vez jogando oficialmente em casa, Rogério Ceni terá um problema que não parece dos mais intimidadores a resolver: poupar alguns atletas ou usar força máxima e matar logo a chance de uma surpresa no Morumbi? Na balança, entram dois fatores bastante óbvios: os 2x0 conseguidos no jogo de ida e a fundamental partida contra o Cruzeiro na quinta-feira, pela Copa do Brasil.
Minado por lesões nas últimas semanas, o plantel tem alguns jogadores como Junior Tavares, Luiz Araújo e Thiago Mendes que vêm de longa sequência de jogos e certamente são vistos pela comissão técnica como os mais vulneráveis a novas contusões. Não à toa, o trio foi poupado contra o Defensa y Justicia (apenas o primeiro entrou faltando 20 minutos para o fim). Num mata-mata, convém não dar sopa para o azar, mas o São Paulo tem peças para rodar o time sem que o nível caia tanto a ponto de perder para o Linense. Me parece uma boa oportunidade para nomes como Lucão, Wesley, Thomaz e Shaylon jogarem.
9) Por que estamos vaiando Wellington Nem mesmo?
Wellington Nem é inegavelmente um atleta talentoso. Atrevido, ágil, muito habilidoso e inteligente para criar espaços onde aparentemente não há. Na opinião do blogueiro, foi a grande revelação do Brasileirão de 2011, quando atuou pelo Figueirense (que tinha Bruno, Maicon, Edson Silva e Roger Carvalho), e o melhor jogador da edição seguinte, em que se sagrou campeão pelo Fluminense que, como sempre, era treinado por Abel Braga - e também tinha Bruno na lateral-direita.
De lá pra cá, sua carreira seguiu uma trajetória tortuosa: transferiu-se para o frio de Donetsk por R$ 25 milhões, assinou um grande contrato e, quando se esperava um boom como Alex Teixeira, Marlos, Jadson, Taison, Willian e Douglas Costa tiveram, o ex-atacante do Fluminense estagnou. Segundo levantamento do jornalista Pedro Venâncio, fez apenas 13 partidas como titular entre 2013 e 2016, todas por competições ucranianas. Sem dúvidas, um número irrisório que serviu como âncora para a evolução natural do jogador.
Algumas lesões e uma imensa dificuldade de adaptação à vida no Leste Europeu o levaram a ser relegado ao status de reserva de luxo pelo ex-treinador romeno Mircea Lucescu, que deixou o Shakhtar ano passado. Assim, em 3 anos de clube, a cria de Xerém somou apenas 51 jogos, 9 gols e 5 assistências. Números, como sempre, não dizem tudo, mas dão indícios de que algo andava muito errado com a carreira de um dos talentos mais promissores dos últimos anos no Brasil.
No São Paulo, aos 25 anos, o ponta chegou na expectativa de reviver seus bons momentos e finalmente decolar ao nível que todos projetavam em 2012. Na Florida Cup, deu um belo cartão de visitas com duas boas atuações frente a River Plate e Corinthians. Na estreia do Paulista, frente ao Audax, lesionou o adutor da coxa logo no início e passou um mês fora. Justamente fevereiro, em que o Tricolor deu asas à imaginação de seu torcedor praticando um futebol ofensivo, goleador e rico em imaginação. Para suprir sua ausência, Cueva foi adiantado e viveu grande fase - antes de também se machucar.
Ao retornar do DM, Nem vem encontrando dificuldades. Sua volta coincidiu com o período de queda da intensidade da equipe, que emendou uma surpreendente sequência de jogos fracos contra Palmeiras, ABC, Ituano e Botafogo, que deixou as arquibancadas do Morumbi ressabiadas. Frente ao Corinthians, Rogerio Ceni apostou em Wellington Nem para exercer o papel de ligação do ausente Cueva e obteve um desempenho no mínimo decente do jogador que, num raro contra-ataque ante uma equipe ultra-defensiva, deixou Luiz Araújo cara a cara com o goleiro. Ao final, uma polêmica expulsão - merecida pela covarde tesoura que havia dado anteriormente - pouco contou na avaliação de sua atuação.
E nos jogos seguintes, este vem sendo Nem: um brigador, que tenta, tenta e mais erra do que acerta, como aliás é de costume para sua posição. Individualmente, a fase realmente não é boa, com um jejum de gols que já beira o aniversário de um ano, mas o time vem se reestabilizando após um período de turbulência e se há algo de que o camisa 21 não pode ser acusado é de se omitir. Ao contrário, é quem mais dá as caras, chama o jogo, se movimenta e... erra.
Que Nem tem deficiências na finalização, todos sabemos e seu modesto recorde de 26 gols em 133 jogos na carreira comprova. Mas o talento existe, a dedicação também. Vê-lo ser vaiado no primeiro jogo contra o Linense foi duro. Incompreensível, até, dado o contexto e o momento. Os apupos são um direito inalienável nosso, como torcedores, mas sinceramente soam desproporcionais e, se é que terão algum efeito, provavelmente será negativo. Que o gol saia logo e, com ele, o peso que atravanca as costas do jogador que ainda terá muita utilidade nesta temporada.
10) Araruna, mais um para a lista de renovados
Nos últimos dois anos, acompanhei com muita satisfação o time sub-20 dirigido por André Jardine. De lá, vi nomes como David Neres e Lucas Fernandes subirem badaladíssimos, Luiz Araújo chegar como uma aposta menos talentosa, Lucas Perri ser apontado por muitos como um goleiro de potencial, alguns outros como Banguelê, Artur e Foguete terem breve passagem pelo profissional e as ascensões meteóricas de Júnior Tavares e Shaylon. Durante todo esse tempo, e mesmo antes, havia um discreto nome presente na equipe titular dos nossos juniores, seja na lateral-direita, na volância ou na meia: Felipe Araruna.
Multicampeão na base, mas nunca apontado como uma estrela em potencial, o garoto foi pinçado por Rogerio Ceni e Michael Beale para o time profissional. Ganhou chances na pré-temporada e foi cavando espaço no Paulista. Contra o Santos, na Vila, com um belíssimo passe na jogada do terceiro gol, chamou atenção de todos pela primeira vez. Frente ao Corinthians, foi escalado na lateral-direita e não apenas não comprometeu como foi seguramente um dos melhores em campo, dando inclusive o cruzamento para o gol. Dono de bom preparo físico, inteligência para ocupar os espaços certos e um passe limpo, o camisa 28 vem em franco crescimento.
Hoje, a diretoria tricolor deu uma ótima notícia a todos: Araruna é mais um para a lista dos que tiveram seus contratos com o clube renovados em um curto espaço de tempo. Assim, ele junta-se a Cueva, Rodrigo Caio, Luiz Araújo, Bruno, Thiago Mendes e Lucas Fernandes, que já haviam assinado novos acordos com o São Paulo recentemente. É preciso que se diga: bola dentríssimo do clube, pavimentando seu futuro. Bom saber que, ao que tudo indica, a base do time que estamos construindo não será jogada fora.
Fontes: Footstats e Transfermarkt
Nos garranchos de Rogério, pouco houve para ler
Fonte Blog do Torcedor
8 de Abril de 2017
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