Para voltar a sonhar, Tricolor

Fonte Blog do Torcedor
Certas coisas não se explica. Por que o céu é azul? Alguns poderiam pacientemente dizer que a colisão dos raios solares com a poeira, com a água e com as moléculas de ar gera uma dispersão da luz que forma o comprimento na cor azul (zzzzz)... Outros, como eu, diriam: porque sim, apenas aceite e aprecie, meu amigo. Afinal de contas, por que o Ara Ketu é bom demais, alguém saberia me dizer? Porque é, bicho, definitivamente porque é. Por que ver vídeos de filhotes de cachorro amolece até mesmo o coração do mais brutal bastião da Santa Inquisição? Porque si, pendejo. Não tente explicar, apenas se enterneça junto. E por que ganhar do Corinthians é tão bom, mas tão bom a ponto de maquiar momentos de instabilidade no campeonato ou até mesmo na vida? Porque sim. É porque é.
Está na nossa natureza por vezes deixar de lado a racionalidade e abrir espaço para um sentimento que urra por dentro de nós. Quem vive, ama, respira e ingere o futebol sabe perfeitamente o que representa um clássico. Rigorosos estudos comprovam que após uma vitória num Majestoso, 56% dos divórcios são cancelados, 81% dos taxistas estressados dão passagem a pedestres indefesos na Faria Lima, 95% dos padeiros fatiam o presunto mais fininho, 34% dos agiotas cobram menos ágio (mentira), 55% dos passarinhos gorjeiam mais melodias e até a crise ético-moral-econômico-social e política que assola o país se torna mais suportável. Ganhar deles faz a leveza do ser ser até que sustentável.

Todos sabem que o São Paulo da dupla Rogério Ceni e Michael Beale começou o ano encantando. Chuva de gols, milhares de oportunidades criadas, posse de bola, um estilo veloz, físico e até meio irresponsável: nós éramos os paquitões da mídia em fevereiro. Os moleques da base voando, o ídolo peruano em formação, a chegada do centroavante da Argentina, do ex-volante da Seleção que estava na China, as ideias modernas de futebol, a elegância do figurino de Ceni, os públicos gigantes do Morumbi... não tinha pra ninguém. A pulga atrás da orelha veio por conta do altíssimo número de tentos sofridos de todas as maneiras imagináveis, inclusive as mais tolas, e dos resultados apertados (às vezes até negativos) contra times tecnicamente sofríveis. O vacilômetro apitou, a produção do ataque cessou e a culpa espirrou pra tudo que era lado: Sidão, Denis, Buffarini, Douglas, Breno, Neílton, Temer, o Mercúrio retrógrado...
Como resultado, o São Paulo resta ainda por se classificar, com duas rodadas faltando para o fim da primeira fase do Paulista. O time que atuava a 120 km/h contra todo mundo vem de quatro jogos irreconhecíveis, sendo três empates e uma derrota - nenhum deles injusto. Mais ou menos como o Corinthians, nosso adversário de amanhã, que ostenta o mesmo retrospecto recente ruim, porém sem tanta oscilação. O time de Fabio Carille passa ao mundo uma impressão de estabilidade e de render perto do que pode oferecer: um sistema defensivo sólido como uma rocha, de dar inveja a qualquer um no Morumbi, contrabalanceado por um ataque econômico, pragmático e um tanto escasso de repertório. Noutras palavras, o time do 1x0. Mas o São Paulo não. Somos reféns do belo futebol que demonstramos em fevereiro, com brilho, alternativas, vibração, cores. Um futebol, pode-se dizer, irracional, indomável e lotado de sentimento, bem diferente da água parada que foram os últimos Paulistões.
O time soube fazer seu torcedor sonhar ao enxergar naquele esboço de pré-temporada um atrevimento que há tempos não se via por estes lados. Mais que uma Florida Cup (conquistada sobre o próprio Corinthians), duas gordas e importantes vendas de meninos que totalizavam, somados, apenas 33 jogos pelo clube, a quebra do longo tabu na Vila Belmiro ou qualquer outra coisa, o grande feito deste São Paulo de Rogério Ceni é ter conseguido tirar o são-paulino do estado letárgico a que já havia se acostumado nessa época do ano. Hoje, somos interessados e curiosos por ver o que essa equipe pode nos dar. Em 2017, não vemos as partidas do Tricolor puramente pelos 3 pontos, mas para nos identificarmos com algo (que ainda buscamos descobrir exatamente o que é).
Os surpreendentemente fracos duelos contra Palmeiras, ABC, Ituano e Botafogo serviram para minar parte desse entusiasmo ao expor que havia um desajuste na equipe. A ofensividade cobra seu preço e, a essa altura, o time parece preocupantemente hesitante, em busca de arrumar a cozinha antes de voltar à carga total no ataque. Os pesados desfalques de Cueva, Pratto, Bruno e, em menor escala, Sidão e Buffarini, representam mais um freio nessa onda de otimismo que contagiou a torcida. Mas neste domingo, embalados por 50 mil vozes no Morumbi, os onze homens que vestirão vermelho, branco e preto precisam redescobrir o segredo do bom futebol.
Uma vitória não terá apenas importância para efeito de classificação. Isso é o de menos e, olhando friamente, o Paulista não tem esse valor todo. Estamos falando de um Majestoso, um jogo com luz própria, que é ao mesmo tempo meio e fim - e para o qual nunca se deve olhar friamente. O time precisa provar para si mesmo que é capaz de enfrentar os grandes jogos e as maiores adversidades sem renunciar ao DNA agressivo, pulsante e corajoso que pareceu ter no início do ano. É uma oportunidade e tanto para jogadores como Renan Ribeiro, Araruna, João Schmidt e Junior Tavares saírem das fraldas e conhecerem um novo status em suas carreiras. Para Wellington Nem finalmente estrear pelo Tricolor como o protagonista brilhante que outrora foi. Para Gilberto confirmar a fase iluminada e artilheira. Para Luiz Araújo retomar a grande forma e incendiar o jogo. Enfim, é a grande chance para Rogério reatar a lua-de-mel com um torcedor que, há uns bons outonos, se habituou a dormir desconfiado e com a auto-estima surrada. Vençamos para voltarmos a sonhar, pois isso também é preciso, tricolores.
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