Nos tempos em que Kaká começava a despontar como grande astro da base do São Paulo, ele chegou a ser ofuscado por um outro meia. E mesmo que você seja torcedor tricolor fanático, dificilmente se lembrará deste atleta, vendido ainda adolescente para a Europa.
Trata-se do meia Marquinho Alves, hoje com 35 anos, ainda em ação pelo Boavista-RJ. Mineiro de Machado, ele começou a carreira no interior de Minas Gerais e se destacou em um amistoso contra o São Paulo, sendo levado para o clube paulistano na sequência.
"Joguei uns quatro anos na base, ao lado de Kaká, Júlio Baptista, Jean, Gabriel, Júlio Santos, Renatinho, Oliveira, Harisson... Fiquei de 1996 a 2000 no São Paulo, lembra Alves, ao ESPN.com.br.
"Nossa geração era fora de série, com muitos moleques talentosos. Fui treinado por várias feras também, como Guto Ferreira, Pita e Heriberto Cunha", recorda.
Antes de Kaká, porém, Marquinho foi apotando como grande destaque da base são-paulina, principalmente depois de arrebentar times estrangeiros em um torneio de juniores na Europa.
O São Paulo, porém, não chegou nem a lhe aproveitar no time adulto, já que, depois dessa excursão, ele foi vendido para o PSV Eindhoven, da Holanda, e nem retornou ao Brasil.

Marquinho (dir) comemora título na base do São Paulo
"Eu era o destaque e titular em todas as categorias que joguei. Em 2000, fomos para a Holanda jogar um torneio no centenário do Ajax. Joguei demais, só não fiz chover (risos)", brinca Marquinho.
"Jogamos contra o Arsenal-ING e eu arrebentei. Depois, fomos campeões com dois gols meus em cima do Ajax, 2 a 0 para nós. Jogamos na Amsterdam Arena, era coisa de cinema. Eu nunca tinha visto um estádio como aquele", rememora, saudoso.
"Depois disso, chegou proposta de tudo quanto é lado: Barcelona, Arsenal, Ajax... Mas quem chegou com dinheiro e contrato pronto foi o PSV, e fui vendido com 17 anos", conta.
Marquinho Alves chegou a Eindhoven ainda na temporada 2000/01, e logo de cara já foi campeão holandês, o que se repetiria em 2002/03, deixando o Ajax novamente para trás.
Em quatro anos de PSV, teve a oportunidade de jogar com diversos craques da equipe alvirrubra, mas também viveu experiências desagradáveis, principalmente com lesões.
Lesões e o joelho 'salvo' por Romário
Em um time que tem grande histórico de trabalho com jovens jogadores, assim como o rival Ajax, a joia revelada pelo São Paulo tinha tudo para brilhar. No entanto, uma grave lesão no joelho impediu que sua passagem pelo PSV fosse melhor sucedida.
"Infelizmente, quase não joguei no PSV, porque tive uma lesão muito séra quando rompi o ligamento cruzado do joelho. Eu havia chegado com 17 anos e fiquei seis meses sendo preparado no time B, porque a cultura de futebol deles era totalmente diferente. Você precisa ser taticamente perfeito, e eu ainda não tinha essas coisas", relata Alves.

Marquinho Alves em ação pelo PSV
"Eu tinha o dom de pegar a bola e driblar todo mundo nos tempos de São Paulo, mas lá não é assim. Eu fazia as minhas jogadas, mas a porrada comia solta. É muita correria e os árbitros não estão nem aí", reclama.
"Quando eles viram que eu estava pronto para encarar a equipe principal, me subiram para a categoria de cima, mas em seguida eu sofri a lesão. Foi terrível. Foram dois anos para me recuperar, sem entrar em campo", lamenta Marquinho.
A recuperação, aliás, só foi completada depois que ele ganhou a ajuda de um dos maiores ídolos da história brasileiros do PSV: o ex-atacante Romário.
Durante uma visita do "Baixinho" ao clube holandês para receber uma homenagem, o "rei da grande área" ficou sensibilizado com a situação do garoto brasileiro que não jogava porque o joelho não deixava, e resolveu tomar providências urgentes.
"O que o Romário me ajudou não dá nem pra falar. É meu ídolo. Eu não conseguia recuperar o joelho de jeito nenhum, aí conversei e expliquei minha situação", lembra.
"Aí ele me apresentou o fisioterapeuta pessoal dele no Brasil, que chamava Marcelo. Eu tratei com ele e finalmente consegui me recuperar e voltar a jogar. Sou muito grato por tudo o que ele fez para me ajudar", exalta Marquinho.
Quando se recuperou da complicada intervenção no joelho, o meio-campista voltou ao Brasil para jogar pelo Fluminense, clube que deu início à sua andança pelo país, sem nunca conseguir se firmar em um time.
Hoje, pensando nessa decisão, ele diz que se arrepende muito de ter deixado a Europa.
"Imagine só a minha situação: eu tinha ido com 17 anos para lá e na época não tinha nada do que tem hoje em termos de comunicação, essas facilidades. Eu sofria demais, porque ficava sozinho no quarto do hotel, com o joelho operado, sem saber falar inglês nem nada. Batia uma tristeza muito grande, principalmente pela solidão", rememora o meia.
"Mas se eu tivesse a cabeça que tenho hoje, não teria saído nunca de lá. Te falo com toda a sinceridade: eu me arrependo amargamente de ter saído do PSV", salienta Marquinho.
Amizades com craques holandeses

Marquinho no time de 2002/03 do PSV, ao lado de nomes como Van Bommer, Robben e Huntelaar
Nos anos em que atuou pelo PSV, Marquinho Alves ganhou dois Campeonatos Holandeses e também viveu momentos de alegria, apesar da tristeza das lesões.
No time de Eindhoven, ele dividiu o gramado com uma ótima geração europeia.
"Joguei com vários craques e caras muito bons. Só para citar alguns: Van Bommel, Robben, Van Nistelrooy, Ooijer, Huntelaar, Affelay, Kezman, Romedahl, só feras! E também tive a oportunidade de ser treinado pelo Guus Hiddink, que é muito bom", elogia.
Um dos atletas de quem o brasileiro mais ficou próximo nesses tempos foi de Van Nistelrooy, centroavante que fez 75 gols em 91 jogos pelo PSV, e depois jogaria com muito sucesso por Manchester United, Real Madrid e seleção holandesa.
"Esse cara era um fenômeno dentro da área, coisa que nunca vi igual. Quando a gente se conheceu, ele já tinha sido vendido para o Manchester, mas vinha de uma cirurgia no joelho e deram um tempo para ele se recuperar no PSV. Então, a gente passou uns quatro meses juntos fazendo tratamento no departamento médico", recorda.
"Ele era um cara espetacular, simples de tudo, apesar de ser na época já um dos astros da Holanda. Acredita que ele até arranhava umas palavras em português? Era muito gente boa e fazia de tudo para deixar os brasileiros e os outros gringos à vontade", elogia.
Outro jogador com quem Marquinho fez boa amizade foi o lateral direito Andre Ooijer, também da seleção holandesa e um dos grandes ídolos da torcida. Ele atuou mais de 10 anos pelo PSV em duas passagens, sendo constantemente um dos capitães do time.
"Eu era muito bem tratado por todos os jogadores do PSV, mas o Ooijer era especial. Ele sempre nos convidava para jantar na casa dele. Era um parceirão! Não à toa, era muito querido por todos no clube e tinha um respeito muito grande", ressalta Marquinho.
Além de Marquinho, havia outros dois brasileiros no clube holandês nessa época: o meia Leandro Bonfim e o atacante Edno, ambos com passagens por grandes times do país.
Recomeço no Carioca, aos 35 anos
Quando deixou o PSV e acertou com o Fluminense, Alves iniciou uma vida de "cigano".
Nos anos seguintes, passou por Paysandu, Atlético-MG e Guarani antes de ser levado pelo amigo Romário, que já havia lhe dado uma mão na Holanda, para o Vasco, e 2008.
Era uma boa oportunidade de explodir no futebol brasileiro, mas...
"O Romário era técnico e jogador do Vasco na época. Eu tinha tudo pra ir bem, mas, infelizmente, me machuquei de novo nessa época. As lesões me atrapalharam demais na minha carreira. Era para eu estar em outro nível como jogador", lamenta.
Depois disso, seriam muitas camisas vestidos e poucos momentos do brilho mostrado na base do São Paulo, quando chegou a ofuscar o astro Kaká, que é um ano mais novo.
Ao todo, rodou por Tombense-MG, Botafogo, Figueirense, Anapolina-GO, Fortaleza, Brasiliense e Crac-GO, além de ter passado por duas equipes dos Emirados Árabes.

Marquinho Alves está no Boavista
"Passei por vários times e também fiquei vários momentos desempregado, porque não pegava qualquer coisa. Só que chega uma hora que você precisa jogador, ainda mais como está o marcado hoje em dia... Jogador com mais de 30 anos no Brasil é velho. É muita covardia e preconceito!", desabafa o meio-campista.
"Futebol brasileiro hoje é só mercado. Só querem colocar moleque pra jogar e poder vender pra qualquer canto", detona.
Hoje, ele tenta recomeçar e reencontrar seu futebol em outros tempos no Boavista, da 1ª divisão carioca, equipe na qual é comandado pelo folclórico Joel Santana.
"Joguei duas temporadas nos Emirados e ano passado joguei o Carioca pelo Boavista. Gostei muito, pois é um clube bem organizado. Fiquei parado no segundo semestre de 2016 só treinando e voltei 'amarradão' para o Boavista esse ano", brinca.
"É um clube diferente, muito organizado e bom de jogar. É só você ver os nomes que contratou para este Estadual, como Fellype Gabriel, Leandrão... Estou pronto para dar meu melhor e tenho uma expectativa muito boa para esse Carioca", finaliza.