Fato é que, se a passagem de Osorio serviu para uma coisa, foi para mostrar que é possível superar limitações numéricas e de montagem de elenco com uma mistura simples de poder de observação das características das peças e ousadia para explorar todas as possibilidades que se tem. Com ele no comando, lembremos, o aposentado Breno foi volante, o anônimo Lyanco lateral-direito, o bichado Carlinhos ponta, o cerebral Ganso falso nove e o por vezes indolente Michel Bastos meio-campista interno. Muitos destes atletas ocupavam antes o status de elementos decorativos do plantel são-paulino, até que ganharam chance e se provaram extremamente úteis. O treinador explicava: "A ideia de rodício é um princípio de vida, não de jogo: todo ser humano é importante". Por trás dessa valorização de cada indivíduo, havia, obviamente, outro fator: a estafante rotina de jogos do quase criminoso calendário brasileiro e o desafio de manter o time jogando sempre com altíssima intensidade física.

Uma temporada e meia e 6 treinadores depois, o goleiro e capitão daquela equipe de 2015 ocupa hoje o posto de Osorio, com quem disputou apenas 18 partidas. O curto período não impediu que Rogério Ceni se tornasse fã declarado de seu ex-comandante, chegando a dizer na época que, "para os padrões sul-americanos, ele é algo equivalente a um Guardiola ou Mourinho". Ao iniciar seu trabalho, Ceni deu fortes indícios num intervalo de apenas 4 dias de que o "rodício" não ficou no passado, ao contrário do que pregavam seus antecessores Doriva e Edgardo Bauza, adeptos de times titulares fixos e da repetição. A equipe que entrou em campo para encarar o Moto Club nesta quinta-feira em São Luís (MA) contou com nada menos que 6 alterações no time titular, com as entradas de Denis, Junior Tavares, João Schmidt, Cícero, Neílton e Gilberto no onze inicial.
Mais que isso, houve uma variação tática: o time se organizou não no habitual 4-3-3, optando desta vez por um 4-1-2-1-2, com o meio-campo em losango e Cueva fazendo o papel de enganche. Buffarini, lateral-esquerdo contra o Audax, ocupou a direita ontem. Rodrigo Caio, volante no domingo, ontem retornou à zaga. A atuação econômica do São Paulo foi pouco empolgante, muito graças à burocracia no meio-campo, ainda lento e incapaz de triangular com rapidez para clarear espaços e comandar a partida. Sem maiores desgastes, o Tricolor fez 1x0 logo no primeiro lance do cotejo, com Gilberto aproveitando bom passe do menino Junior Tavares, e está classificado para enfrentar o PSTC pela próxima fase da Copa do Brasil. O novo técnico Ceni vai tateando seu plantel e, aos poucos, demonstrando algumas marcas de autoria, como algumas jogadas insinuantes de bola parada vistas ontem.
Muita sede ao Pratto?
Se é verdade que há rivais que foram com muita sede ao Pottker na busca por um camisa 9, no Morumbi parece que a história terá final diferente. Por um vultoso investimento de quase R$ 22 milhões (e mais R$ 400 mil mensais em salários + luvas), o Tricolor está prestes a fechar a compra de 50% dos direitos de um sonhado reforço: Lucas Pratto, centroavante titular da Seleção Argentina de Patón Bauza, mas reserva de Fred no Atlético-MG. Seus 41 gols e 14 assistências em 104 jogos com a camisa atleticana apenas evidenciam o óbvio para quem assiste o jogador: Pratto não é um matador clássico, mas um jogador de gols em momentos agudos e, sobretudo, de incansável participação sem bola.
Nunca me esqueço da primeira vez que vi o novo contratado são paulino atuar. Foi em algum jogo pela primeira fase da Libertadores de 2011. Sua equipe, a Universidad Catolica (CHI), penava para superar o Velez Sarsfield (ARG) fora de casa e eu, cheio de preconceito, me deparei com um centroavante aparentemente deveras gordo e corcunda usando a camisa 2 (!) que deu uma furada monumental na bola. Via o jogo com meu pai na TV e fiz alguma piada sobre o quão grosso era o atacante. Menos de 1 minuto depois, Pratto gira o corpo e faz um gol de craque, absolutamente incompatível com aquele porte físico desengonçado, calando minha boca. A Catolica, que também tinha Marcelo Cañete como destaque (que logo em seguida seria comprado pelo São Paulo) não apenas venceu em Liniers como terminou em primeiro do grupo.

Nas oitavas-de-final, Pratto voltou a brilhar e marcou dois gols no Olímpico, quando os Cruzados (treinados por Jose Antonio Pizzi, que levaria a Seleção Chilena à conquista da segunda Copa América em 2016) eliminaram o Grêmio de Renato Gaúcho. O atacante argentino terminou a Libertadores 2011 em alta, como vice-artilheiro com 6 gols e logo retornou ao futebol de seu país muito mais valorizado do que saíra. Desde então, rodou por Genoa (ITA), Velez Sarsfield (ARG) e Atlético-MG, onde foi ídolo. Contra o São Paulo, em duelo pela 18a rodada do último Brasileirão, marcou um golaço e deixou mudas as gélidas arquibancadas do Morumbi.
Uma semana após vendermos David Neres e em meio às fortes especulações de que Lyanco também deixará o clube, o Tricolor despeja um montante considerável em um jogador prestes a completar 29 anos. Isso significa que Pratto não terá o privilégio de ser uma aposta e chega com o peso monumental de ser uma certeza e uma referência para a equipe. Faminto por jogar, de forma a carimbar seu passaporte para a Copa do Mundo de 2018, a pergunta inevitável é: Pratto lidará bem com o eventual rodício de Rogério Ceni?