Sobre rodízios e pratos (ou rodícios e Prattos)

Fonte Blog do Torcedor
Quando, lá pelos idos de 2015, arranhando um esforçado português, Juan Carlos Osorio repetia seu conhecido mantra de "aplicar rodício", havia jornalistas nas coletivas da Barra Funda que iam à loucura. Na costumeira falta de assunto das mesas redondas vespertinas da TV, não raro a pauta era algo na linha de: "O jogador brasileiro está preparado para ter um treinador que aplique rodízio no elenco?", e as dissertações logo ganhavam viés negativo, motivadas também por dois dedinhos de xenofobia e conservadorismo. A resposta aos críticos talvez tenha vindo com o futebol vívido e quase beatnik (ainda que com erros) que o São Paulo do Profe conseguiu jogar em sua curta e marcante passagem, mesmo com o elenco despedaçado e em meio a uma crise política que dichavou o clube. Quiçá, a prova definitiva de que estávamos diante de algo positivo tenha vindo mesmo com as incomuns demonstrações públicas de carinho e gratidão dadas por praticamente todos os atletas quando o treinador colombiano decidiu dar adeus aos hotline blings persecutórios via Whatsapp do ex-presidente Aidar e zarpou rumo ao México.
Fato é que, se a passagem de Osorio serviu para uma coisa, foi para mostrar que é possível superar limitações numéricas e de montagem de elenco com uma mistura simples de poder de observação das características das peças e ousadia para explorar todas as possibilidades que se tem. Com ele no comando, lembremos, o aposentado Breno foi volante, o anônimo Lyanco lateral-direito, o bichado Carlinhos ponta, o cerebral Ganso falso nove e o por vezes indolente Michel Bastos meio-campista interno. Muitos destes atletas ocupavam antes o status de elementos decorativos do plantel são-paulino, até que ganharam chance e se provaram extremamente úteis. O treinador explicava: "A ideia de rodício é um princípio de vida, não de jogo: todo ser humano é importante". Por trás dessa valorização de cada indivíduo, havia, obviamente, outro fator: a estafante rotina de jogos do quase criminoso calendário brasileiro e o desafio de manter o time jogando sempre com altíssima intensidade física.

Uma temporada e meia e 6 treinadores depois, o goleiro e capitão daquela equipe de 2015 ocupa hoje o posto de Osorio, com quem disputou apenas 18 partidas. O curto período não impediu que Rogério Ceni se tornasse fã declarado de seu ex-comandante, chegando a dizer na época que, "para os padrões sul-americanos, ele é algo equivalente a um Guardiola ou Mourinho". Ao iniciar seu trabalho, Ceni deu fortes indícios num intervalo de apenas 4 dias de que o "rodício" não ficou no passado, ao contrário do que pregavam seus antecessores Doriva e Edgardo Bauza, adeptos de times titulares fixos e da repetição. A equipe que entrou em campo para encarar o Moto Club nesta quinta-feira em São Luís (MA) contou com nada menos que 6 alterações no time titular, com as entradas de Denis, Junior Tavares, João Schmidt, Cícero, Neílton e Gilberto no onze inicial.
Mais que isso, houve uma variação tática: o time se organizou não no habitual 4-3-3, optando desta vez por um 4-1-2-1-2, com o meio-campo em losango e Cueva fazendo o papel de enganche. Buffarini, lateral-esquerdo contra o Audax, ocupou a direita ontem. Rodrigo Caio, volante no domingo, ontem retornou à zaga. A atuação econômica do São Paulo foi pouco empolgante, muito graças à burocracia no meio-campo, ainda lento e incapaz de triangular com rapidez para clarear espaços e comandar a partida. Sem maiores desgastes, o Tricolor fez 1x0 logo no primeiro lance do cotejo, com Gilberto aproveitando bom passe do menino Junior Tavares, e está classificado para enfrentar o PSTC pela próxima fase da Copa do Brasil. O novo técnico Ceni vai tateando seu plantel e, aos poucos, demonstrando algumas marcas de autoria, como algumas jogadas insinuantes de bola parada vistas ontem.
Muita sede ao Pratto?
Se é verdade que há rivais que foram com muita sede ao Pottker na busca por um camisa 9, no Morumbi parece que a história terá final diferente. Por um vultoso investimento de quase R$ 22 milhões (e mais R$ 400 mil mensais em salários + luvas), o Tricolor está prestes a fechar a compra de 50% dos direitos de um sonhado reforço: Lucas Pratto, centroavante titular da Seleção Argentina de Patón Bauza, mas reserva de Fred no Atlético-MG. Seus 41 gols e 14 assistências em 104 jogos com a camisa atleticana apenas evidenciam o óbvio para quem assiste o jogador: Pratto não é um matador clássico, mas um jogador de gols em momentos agudos e, sobretudo, de incansável participação sem bola.
Nunca me esqueço da primeira vez que vi o novo contratado são paulino atuar. Foi em algum jogo pela primeira fase da Libertadores de 2011. Sua equipe, a Universidad Catolica (CHI), penava para superar o Velez Sarsfield (ARG) fora de casa e eu, cheio de preconceito, me deparei com um centroavante aparentemente deveras gordo e corcunda usando a camisa 2 (!) que deu uma furada monumental na bola. Via o jogo com meu pai na TV e fiz alguma piada sobre o quão grosso era o atacante. Menos de 1 minuto depois, Pratto gira o corpo e faz um gol de craque, absolutamente incompatível com aquele porte físico desengonçado, calando minha boca. A Catolica, que também tinha Marcelo Cañete como destaque (que logo em seguida seria comprado pelo São Paulo) não apenas venceu em Liniers como terminou em primeiro do grupo.

Nas oitavas-de-final, Pratto voltou a brilhar e marcou dois gols no Olímpico, quando os Cruzados (treinados por Jose Antonio Pizzi, que levaria a Seleção Chilena à conquista da segunda Copa América em 2016) eliminaram o Grêmio de Renato Gaúcho. O atacante argentino terminou a Libertadores 2011 em alta, como vice-artilheiro com 6 gols e logo retornou ao futebol de seu país muito mais valorizado do que saíra. Desde então, rodou por Genoa (ITA), Velez Sarsfield (ARG) e Atlético-MG, onde foi ídolo. Contra o São Paulo, em duelo pela 18a rodada do último Brasileirão, marcou um golaço e deixou mudas as gélidas arquibancadas do Morumbi.
Uma semana após vendermos David Neres e em meio às fortes especulações de que Lyanco também deixará o clube, o Tricolor despeja um montante considerável em um jogador prestes a completar 29 anos. Isso significa que Pratto não terá o privilégio de ser uma aposta e chega com o peso monumental de ser uma certeza e uma referência para a equipe. Faminto por jogar, de forma a carimbar seu passaporte para a Copa do Mundo de 2018, a pergunta inevitável é: Pratto lidará bem com o eventual rodício de Rogério Ceni?
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