As opções do velho Cícero no novo São Paulo de Ceni

Fonte Globo Esporte
A negociação se arrastou um pouco, mas o São Paulo conseguiu tirar Cícero do Fluminense. Um dos principais jogadores do time carioca, viveu, tecnicamente, seu melhor ano no Flu, segundo ele próprio. Acontece que Cícero recebe um alto salário, e esse foi um dos motivos para sua liberação das Laranjeiras. O meio-campista buscará seu espaço com o técnico Rogério Ceni, que pediu sua contratação e esfrega as mãos para usá-lo em até quatro posições, aproveitando sua polivalência.
O Espião Estatístico analisou números e características dos jogadores são-paulinos mais utilizados no Brasileirão 2016 para saber em que Cícero se diferencia deles e como poderia completá-los. Ao que parece, o repertório da nova contratação deve agregar experiência, qualidade de passe e mais contundência ao São Paulo. Confira!

CONTEXTO DE CHEGADA
Prestes a fazer sua segunda passagem pelo clube (atuou entre 2011 e 2012), Cícero chega ao São Paulo aos 32 anos e com status de titular, até porque o Tricolor Paulista já perdeu uma peça no setor de marcação do meio-campo - Hudson foi para o Cruzeiro em troca pelo atacante Neilton - e deve perder outra. João Schmidt não vai renovar contrato e deve ir para o Atalanta, da Itália.
No meio-campo, saíram o experiente Michel Bastos e Jean Carlos, pouco aproveitado. A briga será sobretudo com jovens no setor de criação, pois Cueva deve se manter na equipe titular. Se Rogério preferir Cícero como referência de ataque, a disputa será com Andres Chavez e Gilberto, já que Ytalo voltou ao Audax-SP para o Campeonato Paulista, e o garoto Pedro deve ser emprestado. Já aberto pelas pontas, Ceni afirmou na pré-temporada que "não o vê jogando assim".
As possibilidades são muitas, mas Cícero já deixou claro em que local do campo prefere atuar.
- Meia armador eu nunca fui. Se precisar que eu faça, eu faço, como também faço outras funções. Venho me firmando como volante há dois anos. Vai ser conversado, porque o time precisa de encaixe. A posição só o tempo vai dizer. O importante é o time ter uma identidade. Tenho preferência por jogar como volante, é a posição onde me destaco - afirmou.
SE JOGAR DE VOLANTE?
Se a posição mais provável de Cícero é a de volante, seja mais preso à defesa, seja com mais liberdade, os números ajudam a comparar o rendimento com o dos jogadores do São Paulo no Brasileirão 2016. Os quatro volantes que mais jogaram na competição foram Hudson, Thiago Mendes, João Schmidt e Wesley. E, de cara, um número salta aos olhos no gráfico abaixo: Cícero teve 11 participações diretas em gols pelo Fluminense, contra somente sete de todos os são-paulinos juntos.
Explica-se: no Flu, ele variava de posição de jogo para jogo e até dentro de uma mesma partida. Com Marcão como treinador, na reta final, foi escalado até como centroavante. Mas as principais posições eram de segundo volante e meia, por vezes caindo pela direita, quando preenchia o espaço sempre que Gustavo Scarpa trazia a bola pelo centro. Tais características já diferem muito dos companheiros que Cícero irá encontrar.

Cícero é mais decisivo, tem poder de finalização. Tem também qualidade de passe - com índice de quase 93% de acerto no quesito, excelente para um meia. A princípio, deve ser menos contundente por estar mais longe do gol, mas vai imprimir sua qualidade à saída de bola. E deve continuar um tormento para os adversários nas jogadas aéreas, como veremos mais abaixo.
Quem vê Hudson com marca superior a 96% nos passes pode até estranhar. O jogador era volante mais fixo, que buscava a bola nos pés dos zagueiros e pouco se projetava ao último terço do campo. A maioria de seus passes ocorreram no campo de defesa. Hudson também sustentou a melhor média de roubadas de bola - assim como a maior de faltas cometidas - dentre os pesquisados. Seu perfil é de destruidor de jogadas, não há muito o que esperar ofensivamente. Foi útil ao São Paulo e pode se encaixar bem no Cruzeiro de Mano Menezes.

Cícero fez 16 gols e foi goleador do Fluminense em 2016: seguirá artilheiro jogando mais recuado? (Foto: Marcos Ribolli)
Thiago Mendes jogou quase todas as partidas do time no Brasileirão e teve boa participação. Costuma chegar à área, finaliza bem de longa distância e conta com vigor físico e intensidade invejáveis, pontos que fazem dele o parceiro ideal para um jogador mais lento, como Cícero.
João Schmidt e Wesley primam mais pela técnica e têm números parecidos. Schmidt não era titular absoluto, mas foi menos sacado de campo que o companheiro, alvo de parte da torcida por deixar cair o ritmo em dados momentos da partida. Cícero, por sinal, já foi vaiado pelo mesmo motivo pelos adeptos do Fluminense. O jovem Araruna será outra sombra para Cícero no setor.
E DE MEIA?
Atuar como terceiro homem seria alternativa interessante para aproveitar o potencial ofensivo de Cícero. Como ele mesmo já disse, atuar sozinho na armação não é a melhor maneira de aproveitar seu potencial. Por isso, Rogério deve escalar Cueva ao seu lado, concentrando os passes mais agudos nos pés do peruano, enquanto Cícero tem mais possibilidade de se projetar à área como elemento surpresa, uma de suas principais características. Destas investidas inesperadas, se infiltrando como um atacante, nasceu a maioria de seus gols pelo Flu em 2016.
Se esta for sua função, os concorrentes são bem menos tarimbados: Lucas Fernandes e Daniel (que negocia com Chapecoense e Coritiba) correm por fora. Para as funções de meia ou atacante pelos flancos, o cardápio de Rogério Ceni é rico: Neilton, Luiz Araújo, Wellington Nem, Robson e David Neres. Todos de muita velocidade. Nenhum faz muito o estilo de Cícero, mais cadenciado. Por isso mesmo o treinador descartou hipótese de colocá-lo no setor.

Estilo técnico e agudo de Cueva pode casar bem com o oportunismo de Cícero (Foto: Marcos Ríboli / GloboEsporte.com)
OU CENTROAVANTE?
A possibilidade de colocar Cícero como um centroavante, um falso 9, também é cogitada. Se compararmos com a presença de área de Calleri e Andres Chavez, Cícero não fica em tanta desvantagem. Pelo contrário, é mais insistente e eficiente em cabeceios, pois aproveita muito bem sua impulsão. Pode utilizá-la também para preparar jogadas para a ultrapassagem dos pontas velozes, como uma espécie de pivô. Ficará mais perto do gol, o que favorece seu oportunismo e poder de definição, mas perde a imprevisibilidade de quem vem de trás.
Gilberto e Pedro também estão no elenco, mas o garoto está na lista de jogadores que devem ser emprestados. Gilberto foi pouco aproveitado no finzinho do Brasileirão 2016, mas fechou o ano marcando gols e deve ganhar mais oportunidades nesta temporada. A torcida chegou a se empolgar com um possível retorno de Calleri, mas o atacante não conseguiu a liberação junto ao West Ham, da Inglaterra. A chegada do argentino, titular absoluto e destaque na Libertadores 2016, provavelmente descartaria essa formação.

*A equipe do Espião Estatístico é formada por: Eduardo Sousa, Guilherme Maniaudet, Guilherme Marçal, Leandro Silva, Paula Carvalho, Roberto Maleson, Valmir Storti e Wilson Hebert.
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