Se receber da diretoria reforços e sustentação das ideias que, enquanto teóricas, encantam a todos, e se os treinos nos Estados Unidos forem prósperos, o técnico pretende recriar rapidamente o moroso futebol exibido no Morumbi nos últimos anos.
A imagem ao lado, por exemplo, mostra o posicionamento que Rogério quer imprimir no São Paulo. Não importa se com quatro (como na arte) ou três na linha defensiva, se com alas ou laterais, atente-se ao conceito: plantar sua zaga no meio-campo e adiantar seus jogadores, seja para pressionar a saída de bola adversária ou criar superioridade numérica nesse setor de criação quando sua equipe tiver a posse – Ceni quer tê-la por muito tempo.
O goleiro ficará ali mesmo, não está errado. Com coragem e qualidade para interceptar quaisquer contra-ataques rivais, e, é certo, eles vão surgir com a marcação alta do São Paulo (aqui não falamos da estatura dos jogadores, e sim da faixa de campo que ocuparão).
Os treinos na pré-temporada na Flórida servirão para que a nova comissão técnica treine seus goleiros como jogadores de linha, sob a exigência de velocidade na tomada de decisões, do bom passe, da visão mais ampla do campo. Vencerá a disputa pela titularidade aquele que for não apenas o mais técnico, será necessária uma boa dose de coragem. É uma palavra que pode moldar o – por enquanto – teórico São Paulo de Ceni: coragem.
No último domingo, facilitado por enfrentar o mais frágil dos rivais, o rebaixado Santa Cruz cheio de reservas e problemas estruturais, o São Paulo postou sua linha defensiva bem mais à frente do que de costume. No vídeo abaixo, e em seus frames abaixo, veja como Rodrigo Caio fez diferença com sua movimentação para frente, agressiva. Sua presença no campo ofensivo gerou a tal superioridade citada acima. A equipe ficou com mais gente no meio-campo do que o rival. Essa é a premissa básica, independentemente do sistema de jogo.

Inclusive, o lado esquerdo tricolor na goleada de 5 a 0, por onde Rodrigo Caio conseguiu flutuar sem ser acompanhado – deficiência do Santa Cruz e de todo time brasileiro, pouco habituado a esse tipo de avanço –, foi montado a pedido de Ceni, que queria ver Buffarini na lateral e Chavez fora da área, ao lado de outro centroavante. No caso, Gilberto.
É assim que o treinador vê o argentino: melhor como segundo atacante do que na função de camisa 9. Em sua cabeça há outras ideias, como uma linha de três zagueiros com David Neres aberto numa ala do campo, a presença de dois centroavantes, etc. Rogério Ceni não quer ficar preso a um modelo de jogo, mas quer que todos se baseiem em atacar.
Por que ressaltamos desde a primeira linha que tudo não passa de uma ideia? Por vários aspectos. Ceni não parece disposto a abrir mão de suas convicções – que bom! –, mas terá de equilibrá-las com a exigência – até dele mesmo – por resultados. Ainda goleiro, ele topou correr riscos ao jogar com os pés e bater faltas, mas sempre fez a ressalva: se o 1º gol não tivesse saído rapidamente, talvez jamais tivesse tido chance de fazer o 2º, o 3º,... o 131º.

Rogério Ceni orienta o lateral Buffarini e o atacante Chavez no CT da Barra Funda (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)
Por mais imune que seja o ídolo a manifestações públicas de reprovação, ele tem vivo na cabeça o que sofreu Juan Carlos Osorio, colombiano de grande influência em suas ideias de futebol, em quatro meses como técnico do São Paulo.
E ainda há a condição financeira do clube, que não só não permite grandes investimentos, como também o deixa sob risco de perder Rodrigo Caio, justamente aquele jogador que carrega coragem e inteligência para compreender e colocar em prática o que está na cabeça do técnico e de seu auxiliar inglês, Michael Beale.
Será um desafio. Será interessante acompanhar.