Milton Cruz quebra o silêncio, diz que torce por título tricolor na Libertadores, admite mágoa por demissão, responde a polêmicas...

Fonte Blog do Jorge Nicola
Milton Cruz em seu escritório, dentro de casa; ex-são-paulino quer trabalhar como técnico e tem oferta do mundo árabe (Nico Nemer/Diário SP)
Apesar de não fazer mais parte do dia a dia do São Paulo há quase dois meses, Milton Cruz continua torcendo muito pelo clube. Isso não significa que sua demissão tenha sido bem digerida. Os amigos deixados no Morumbi e os serviços prestados nos últimos 22 anos o mantêm ainda extremamente ligado ao Tricolor.
“Estou torcendo muito por esse título, porque também tenho minha participação. Eu e os jogadores que levamos o time para a Libertadores”, ressalta o ex-coordenador, que recebeu o Blog em sua casa na última sexta-feira.
Durante quase três horas de conversa, Milton revelou chateação com a dispensa, negou que atletas de seu filho jogassem pelo Tricolor, rebateu o ex-presidente Carlos Miguel Aidar, disse que poucos profissionais darão tanto retorno financeiro ao São Paulo quanto ele…
BLOG_ Lá se vão quase dois meses desde a sua demissão. Como reagiu a ela?
MILTON CRUZ_
Eu fiquei magoado, porque esperava uma demissão mais digna. Por exemplo, poderiam ter me demitido no fim da Libertadores, até porque eu ajudei o São Paulo a se classificar, dirigindo o time nas últimas quatro rodadas do Brasileiro. Entendo que o presidente tem o direito de trabalhar com as pessoas que quiser. Isso é legítimo. Mas o momento não foi legal.
Quem o demitiu?
O Luiz Cunha, que havia virado diretor de futebol três dias antes. Foi depois de um jogo no Morumbi, em que ganhamos (vitória por 1 a 0 sobre o Botafogo, pelo Paulistão).
E qual justificativa foi dada?
Não sei o porquê da demissão, até porque o Luiz só me elogiou e depois me mandou embora. Ele falou em reciclagem. Mas reciclagem de uma pessoa que deu tanto retorno ao São Paulo por todo esse tempo? Foram 22 anos como funcionário e outros seis como jogador. Ganhei vários títulos, assumi o time em diversos momentos de crise… No ano passado, por exemplo, meu aproveitamento como técnico foi de 71%, só atrás do Tite, que foi campeão brasileiro com 74%.
Guarda raiva de alguém?
Pelo contrário. Tenho de agradecer ao São Paulo, afinal, foi esse clube que me projetou para o mundo, primeiro como jogador, depois como observador técnico e coordenador, e mais recentemente como técnico.
Antes de ser demitido, você ficou fora de algumas viagens internacionais em que até conselheiros estiveram. Sentiu que foi fritado?
É o que todo mundo comentava lá no São Paulo. Até esse ano, eu sempre havia participado de todas as viagens.
O Ataíde Gil Guerreiro, então vice-presidente de futebol, disse que sua saída teria a ver com problemas com o Bauza.
Nada a ver. O Bauza disse publicamente que não havia problema nenhum com a comissão técnica. Tanto que, quando inventaram a ideia de me promover para um departamento de análise de desempenho, para ficar numa sala fechada, falei com o Bauza e ele pediu para que eu ficasse no campo.
Sua demissão foi política?
O Bauza disse em entrevista exatamente isso. Não há motivo para pensar em outra coisa.
Após tudo o que ocorreu, segue torcendo pelo Tricolor?
Claro! Inclusive, se o São Paulo ganhar a Libertadores, vou me sentir campeão. Estou torcendo muito por esse título, porque também tenho minha participação. Eu e os jogadores que levamos o time para a Libertadores. Sem contar que fui eu quem indiquei Denis, Bruno, Thiago Mendes, Hudson, Michel Bastos, Alan Kardec, Renan… Eu ainda subi o Rodrigo Caio e Lucão ao time principal. Torço muito por eles.
E o São Paulo tem chance de título na Libertadores?
O São Paulo é grande favorito, porque o fator campo tem ajudado demais. A torcida gosta muito da Libertadores, lota o Morumbi e faz acontecer.
Já voltou ao Morumbi depois da demissão?
Não deu para ver alguns jogos, porque eu passei quase um mês na Europa. Mas fui ao Morumbi contra o Atlético-MG, nas quartas de final.
Foi como torcedor?
Sim. Comprei ingresso, coloquei um boné e fui a pé para o estádio, que está duas ruas para baixo da minha casa.
E te reconheceram?
Eu fiquei em um cantinho, mas muita gente me reconheceu. E essa talvez seja a parte mais legal de ter dedicado boa parte da minha vida ao São Paulo. O reconhecimento das pessoas é demais. O dinheiro é bom, mas esse carinho é muito melhor. Outro dia, saí da missa e um cara veio correndo em minha direção, chorando, para agradecer por tudo o que fiz ao São Paulo. Até palmeirenses e corintianos me elogiam.
Quanto acha que gerou de dinheiro ao São Paulo com jogadores que você indicou ou promoveu da base?
É difícil fazer essa conta, mas certamente foram muitos milhões de reais. Dificilmente alguém fará o que fiz para o São Paulo. O próprio Rogério Ceni já disse, em duas entrevistas, que eu montei aquele time campeão da Libertadores e do Mundial em 2005. É óbvio que o treinador e os dirigentes ajudaram, mas eu estava à frente. Além de todos os títulos, fui eu quem promovi Kaká, Lucas, Oscar, Hernanes, Breno, Tardelli, Casemiro e outros.
Com qual deles você teve papel mais importante?
O Kaká foi o meu cartão de visita. Ele era reserva no time de baixo, mas sempre acreditei em seu potencial. Aí, falei com o Vadão, subimos o Kaká e ele acabou sendo o melhor jogador do mundo anos depois.
Qual o mérito do Bauza para a chegada do São Paulo à semifinal da Libertadores?
Ele conseguiu montar um time com poder de marcação mais forte. E o curioso é que o São Paulo sempre foi um time de sair para jogar. Agora, prioriza a marcação, que é aquilo que a Libertadores requer. O São Paulo evoluiu bastante e os jogadores entenderam o espírito da Libertadores.
Ainda mantém contato com algum jogador?
Com vários. Falo por telefone com Ganso, Michel Bastos, Maicon, Denis… Tenho muitos amigos e uma história no clube. Não é por causa de duas ou três pessoas que vou deixar de gostar. O São Paulo é a minha casa e me deu todas as condições de ser quem sou hoje.
Trabalharia no Palmeiras ou no Corinthians?
Nunca parei para pensar nessa possibilidade.
Alguns torcedores reclamam de que você errou em relação a reforços recentemente.
As pessoas não sabem que, nos últimos tempos, a condição financeira do São Paulo mudou. Na maioria dos casos, não pude contratar as minhas primeiras opções. Mas o Rogério, por exemplo, fez o gol que classificou o time para a Libertadores, contra o Goiás.
Foi você quem indicou o zagueiro Luiz Eduardo?
Não. O Luiz estava em um dos vários DVDs a que o (Juan Carlos) Osorio assistiu. Foi o Osorio e seu auxiliar-técnico que gostaram do Luiz, porque era um zagueiro alto, técnico e canhoto. Eu não tive nada a ver.
Há quem o acuse, porém, de você ter contratado o Luiz Eduardo e outros jogadores por serem agenciados pelo seu filho, o Tadeu Cruz.
É mentira. Nunca o São Paulo teve jogador do meu filho. Era um trato que eu havia feito com o Juvenal. Não sou moleque! Teve até um caso: em 2013, um diretor do São Paulo estava contratando o Adriano, volante que era do Santos. Eu soube e fui lembrar o Juvenal do nosso acordo. Ele ainda perguntou se o menino não era bom. Eu respondi que sim, mas pedi para não fazerem o negócio e o Adriano foi parar no Grêmio.
O ex-presidente Carlos Miguel Aidar disse neste ano que precisou proibi-lo de levar o celular para o banco de reservas, porque o Abílio Diniz ligava para você e pedia mudanças no time. É verdade?
O Carlos Miguel está desinformado. Ele não sabe que a Fifa proíbe há anos que qualquer pessoa no banco use algum aparelho comunicador com o meio externo, como telefone, rádio… A minha amizade com o Abílio incomoda algumas pessoas. Somos amigos desde 2005, por intermédio do doutor Marcelo Portugal Gouvêa.
que ainda voltará ao São Paulo?
Quem sabe, né? Nunca fui de fazer planos. Prefiro deixar a vida guiar meu destino.
Teve propostas nestes dois meses em que está parado?
Eu sempre tive propostas. O (José Maria) Marin (então presidente da CBF) me chamou duas vezes para ser o coordenador-técnico da seleção brasileira. O Osorio queria me levar para ser auxiliar no México, o Carpegiani e o Autuori sempre me convidaram… No fim de 2015, o Goiás me ofereceu o cargo de técnico e eu não aceitei, por causa do São Paulo.
E você vai ser técnico, dirigente ou o quê?
Passei 28 dias na Europa, assim que saí do São Paulo. Estive um bom tempo no Barcelona, no Real Madrid, no PSG e no Atlético de Madrid. Voltei ao Brasil com essa possibilidade de ser treinador também. Até o Zidane (técnico do Real Madrid) me incentivou. Se aparecer chance, vou encarar, porque estou preparado. Deu para ver que o que se pratica lá não é muito longe da nossa realidade.
Existe alguma negociação neste momento?
Quando viajei, três times do Nordeste, sendo dois da Série A, me ligaram. Também tive convite de um time da cidade de São Paulo e uma sondagem de um clube do interior. Fica chato dizer os nomes, né? Agradeci a todos, mas estava no meio da viagem.
E tem algo agora?
Tem uma negociação para ser manager nos Estados Unidos e uma para ser técnico nos Emirados Árabes. Já até mandei cópia do meu passaporte. Pediram que eu fizesse uma proposta e estou esperando a resposta. Graças a Deus, tenho um nome que abre portas.
O que uma oferta precisa para te convencer a ser técnico?
Quero tempo para trabalhar, porque ninguém faz mágica no futebol. Dois anos seriam um tempo legal para montar um time e colher os frutos.
Qual estilo de jogo terá o time do técnico Milton Cruz?
Na minha concepção, um time precisa ser seguro e equilibrado. Não vou depender de um esquema tático só e saberei mexer de acordo com minhas peças e com o rival.
O que seus amigos da bola têm dito sobre seu futuro?
Muricy, Marcelo Oliveira, Osorio, Leão… todos me incentivaram a virar treinador. Eles dizem que tenho muita competência e vou dar conta.
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