Maurício de Carvalho Antônio não é um jogador muito conhecido pelos torcedores brasileiros, mas pode, nesta sexta-feira, conquistar um feito. Mesmo que não salte aos olhos de muitos por aqui, a final da Taça Da Liga de Portugal entre Benfica e Marítimo, que pode contar com a participação do zagueiro brasileiro, pode marcar história para o jogador e para seu clube.
O Marítimo, clube pelo qual Maurício joga desde o começo desta temporada, é um clube pequeno de Portugal localizado na Ilha da Madeira, região autônoma de Portugal onde nasceu o astro Cristiano Ronaldo. Apenas uma vez campeão nacional, o clube "nanico" pode conquistar pela primeira vez em sua história a Taça da Liga, algo que está mexendo com todos na cidade e com a cabeça do zagueiro.
"A torcida encara como um jogo decisivo que temos que ganhar de qualquer jeito. Estamos encarando como jogo da vida. Com certeza não somos os favoritos para conquistar o título, mas no futebol nada é impossível. Sabemos do grande time que vamos enfrentar, mas vamos com coragem e raça para ganharmos o jogo e o titulo", disse, ao ESPN.com.br
E o fato de conviver no lugar onde um dos maiores ídolos do futebol português surgiu para futebol é algo que o zagueiro vê com naturalidade, e conta inclusive que aqules que moram por lá não tocam muito no assunto, apesar de estarem rodeados por alusões ao CR7.
"Por aqui não falam muito dele não, mas a cidade tem inclusive uma loja e uma estátua em homenagem a ele."
Para conquistar tal feito, há mais um desafio: encarar Jonas. Jogador brasileiro com o maior número de gols na Europa neste ano - 35 - o atacante estará do outro lado com o Benfica. Maurício, que garante não saber se será titular, já tem a receita para parar o goleador.
"Ele (Jonas) está em uma fase espetacular da carreira. O segredo, ao meu ver, é estar concentrado e atento em cada momento do jogo, em cada lance e em cada movimentação. Tem que estar ligado estar concentrado para tentar anular as jogadas dele."
ROJÃO NA CONCENTRAÇÃO
Maurício não teve passagem destacada pelo futebol brasileiro. Pelo profissional, jogou apenas no Esporte Clube Pelotas e no Juventus. Seu seu início foi na base do São Paulo, aonde chegou a jogar com Lucas, hoje no Paris-Saint Germain, Casemiro, do Real Madrid e Rodrigo Caio, titular absoluto no clube do Morumbi.
Dos tempos da concentração em Cotia, o zagueiro guarda boas recordações e histórias engraçadas. Uma delas envolveu Casemiro, Lucas, rojões e comemoração de ano novo.
"Teve uma vez que alguns jogadores, entre eles eu Casemiro, Alfredo, Danilo e Lucas, ficamos no final do ano pra treinar para a Copa São Paulo e combinamos do Lucas trazer rojões para soltarmos na comemoração de ano novo".
"Só que acabamos soltando antes e tudo de uma vez só. Soltamos um monte e os seguranças do CT de Cotia acharam que estava tendo um assalto ou coisa do tipo. De repente, encheu de seguranças lá. Deram uma dura na gente, falaram um monte. No fim, foi engraçado (risos)".

Maurício, bem no centro da imagem comemorando
Maurício ainda lembra os momentos de união entre os garotos do clube à época. "No São Paulo sempre fomos muito unidos, até porque morávamos juntos, frequentávamos a mesma escola, a mesma classe. Éramos realmente uma família."
O tempo de São Paulo também o credenciou para jogar pela seleção brasileira de base. Passou pelas categorias sub-15 e sub-17, aonde conquistou dois sul-americanos e aprendeu bastante. Por lá, conviveu com grandes nomes que hoje brilham no futebol europeu, entre eles Neymar e Phillipe Coutinho.
"Aprendi bastante. Passei nas seleções de base onde hoje estão jogando os melhores do mundo como Neymar Phillipe Coutinho, Alisson (ex-Inter), Casemiro, que ia comigo. Só jogávamos com feras. Eles já eram muito bons na base. Fui campeão sul-americano sub-15 e sub-17.
E a convivência com as estrelas da seleção era a melhor possível, recheada de brincadeiras e gozações, muito pelos confrontos entre seus times na base, que Maurício garante que sempre se dava melhor na hora da "zuera", muito pelo sucesso do São Paulo na base, que sempre ganahva.
"Sempre respeitaram muito o grupo, eram muito humildes. Como jogávamos muito entre nós nos campeonatos, agente sempre se conhecia e era engraçado. Um zoava o outro quando era campeão e sempre eu com o Casemiro zoávamos mais, já que o time do São Paulo era campeão de tudo".
ESFIHA NO JUVENTUS
Faltando dois anos para terminar seu contrato com o São Paulo, Maurício recebeu uma proposta para atuar pelo Esporte Clube Pelotas, e decidiu abandonar a base para se aventurar entre os profissionais. A primeira experiência foi a pior possível, e Maurício pensou até em abandonar o futebol. Mas não foi o que aconteceu.
"A primeira experiência não foi nada boa. Cheguei através de um empresário e a contratação foi meio conturbada. Cheguei lá, assinei o contrato e treinei apenas uma semana."
"Depois o diretor falou que a minha vinda não passou por ele e que não me queria no clube. Fui dispensado sem mais nem menos. Fiquei seis meses sem jogar pois tinham acabado as inscrições para os estaduais. Foi muito ruim, pois foi minha primeira experiência no profissional, mas graças a Deus não desisti."

Maurício teve passagem pelo Juventus da Mooca
Foi quando surgiu a oportunidade atuar pelo Juventus, em São Paulo. A oportunidade veio através de conhecidos. A chance foi tratada por ele como um recomeço, e a estadia no bairro da Mooca trouxe um momentos de grandes alegrias para o zagueiro.
"Estava no clube Atlético Ypiranga qunado conheci o Eduardo (empresário) através de um amigo meu do futevôlei. O primo dele junto com outro amigo estavam montando o time do Juventus para a Copa Paulista daquele ano. Olharam o meu DVD, gostaram e me indicaram para a equipe."
"Fiquei um ano e meio. Cheguei na montagem do time, aonde a maioria dos jogadores eram garotos. Cheguei, assumi a posição, fui capitão do time fizemos uma campanha muito boa com um elenco jovem e barato, ganhando inclusive de alguns times de seria A1 do Paulista."
A convivência com os torcedores, muito apaixonados pelo clube, além do tradicional "presente" para o melhor jogador da partida estão na memória de Maurício, que aproveitava para dividi-lo com seus companheiros no vestiário.
"Fui capitão do time. O Juventus tem uma torcida fanática e muito amorosa. Todos os lugares estão povoados por torcedores do Juventus. Um clube onde a torcida apoia sempre onde estiver a equipe. Levo muitas lembranças boas da época em que estive lá."
"Lá quem era eleito o melhor jogador da partida ganha um kit com algumas esfias. Era bem legal pois sempre dividíamos com todos os jogadores depois dos jogos."
CHEGADA E SUSTO EM PORTUGAL
E o destaque em campos paulistas lhe rendeu uma transferência para Portugal. Através de seu empresário, que conheceu um representante do Portimonense, de Portugal, Maurício foi viver sua primeira experiência fora do país. Rodeado de brasileiros por perto, a adaptação ao país e ao clube foram naturais, assim como a titularidade.
Da equipe da segunda divisão veio o interesse do Porto B graças a boas atuações contra os "Dragões", inclusive com gol. "Fiz um campeonato muito bom onde tive dois ótimos jogos contra o Porto, inclusive fazendo gol em um deles. Esse fato despertou o interesse do clube para eu representar a equipe B."
"Estávamos no caminho para conseguir um feito que nenhum time B de Portugal tinha conseguido, que era ser campeão. Conseguimos nosso objetivo. Só o Porto B e o Real Madrid B no mundo conseguiram ser campeões da segunda divisão de seu país."
Só que no meio da campanha Maurício teve que optar por um caminho. Com uma proposta do Marítimo nas mãos parta jogar a primeira divisão, ou deixava o Porto B, líder do campeonato, ou iria tentar a sorte na elite portuguesa. Escolheu a segunda opção, e garante que foi a escolha certa, apesar de muita dúvida na hora de decidir.
"Cheguei no Marítimo e tive a honra de receber a confiança para ser titular desde o começo. Agarrei a oportunidade, fui bem nos jogos e hoje estou aqui a caminho da minha primeira final como profissional."
No meio do grande momento com a equipe madeirense, um susto. Na partida contra o Benfica, pelo Campeonato Português, Maurício subiu em uma divida de cabeça com o também brasileiro Jardel e acabou levando a pior. Resultado: saiu de campo na ambulância com traumatismo craniano encefálico.
"Foi num escanteio, eu tirei a bola e o Jardel, zagueiro do Benfica, veio de encontro e cabeceou a minha cabeça. Desmaiei na hora. Alguns companheiros e o árbitro da partida me deitaram de lado correndo. Chamaram a ambulância e fui para o hospital. Acordei só lá, e depois fiquei sabendo do acontecido. Não me lembro de nada."
"Meu familiares conseguiram até o telefone do hospital. Ligaram para lá na tentativa de falar comigo e ter alguma informação do meu caso. Foi um susto, uma pancada muito feia. Nos três primeiros dias eu não saí de casa, estava com muita dor de cabeça e muita tontura, mas já passou."
Hoje, 100% recuperado, Maurício terá a oportunidade de fazer história pelo pequeno Marítimo contra o Benfica pela Taça da Liga de Portugal, em jogo que começa às 15h45 (de Brasília). Para aqueles que gostam dos duelos de "David contra Golias", um prato cheio com direito a um candidato herói brasileiro.