Sangue correndo nas veias. A redenção de Michel Bastos - Layla Reis

Fonte SPFC.Net
Está decretado, o Morumbi é o inferno. Seja bem-vindo ao inferno, adversário, aqui você não será bem tratado. Logo na porta, uma multidão recordista brasileira (mais uma vez) de público com 61 mil pessoas invocadas se apresenta como anfitriã. Fumaça vermelha no céu, símbolos gigantes de um lado segurados por "mortos-vivos" mascarados, era a Dragões da Real e seus bandeirões esmagando o Morumbi pela Av Giovanni Gronchi.

Do outro lado neblina, do jeito que o inferno deve ser, um fundo vermelho e uma cerração ameaçadora acompanhada pelo mar branco. A Independente ensurdece as ruas do Morumbi enquanto balança seus bandeirões gigantes e estouram bombas no céu. De cara feia, a bateria anuncia: É O CAMPEÃO, DOS CAMPEÕES, TRICOLOR, QUERIDO DO CORAÇÃO! Não é qualquer um que está te recebendo no inferno, Atlético. Chega o ônibus dos adversários, bombas, palavrões, xingamentos que terminam em um único som mandando o convidado tomar naquele lugar. Chegaram os inimigos. A guerra está declarada.

Enquanto os jogadores do Galo descem no estádio, olham para trás e enxergam esfumaçados duas luzes de farol crescendo no meio das danças de bandeiras e a multidão se descontrolando. Fica impossível respirar, há muita fumaça. Impossível falar ou ouvir, há muito barulho, é ensurdecedor. Um clima inigualável, é quarta de Libertadores, meu amigo. O São Paulo chega e domina o Morumbi, a torcida se impõe e mostra como serão os próximos 90 minutos: perigosos.

O torcedor lota o estádio com cara feia mas receio, existe um tabu de time brasileiros nos eliminarem da Libertadores. o Galo já fez este papel anteriormente. Apita o juiz, cadê Michel Bastos? No banco, vem de lesão. Vamos cantar até a voz acabar, nossa parte faremos. Três minutos de jogo, briga em campo, 2 jogadores do São Paulo no chão, Kelvin levou um tapa, Ganso um empurrão, muitos atletas rodeiam o juiz que distribui cartões amarelos na tentativa de conter a briga. O clima de UFC segue junto com o jogo.
Partida disputada no meio-campo. Bola viva. O futebol foi deixado de lado, a estratégia do Atlético era básica: tirar do sério. Mais uma vez nossos nervos foram testados, Calleri foi o alvo principal, levava pancada o tempo todo. Atlético fez rodízio de falta e se lascou, pendurou metade do time.
O São Paulo atacava mas o jogo não andava. Ganso cabeceou perigosamente no começo e levantou a torcida. O chão do estádio tremia. A zaga cortava o atleticanos logo no meio-campo. Precisam ser elogiados, Maicon e Rodrigo Caio viraram muralhas. Estamos defendendo bem mas aos 35 do primeiro tempo eles marcam gol. Silêncio no inferno, o galo explodiu. Aquele meio segundo em que não percebemos que o bandeirinha acusou impedimento, congelou nossos corações. Um desespero, um frio na barriga, uma sensação desesperadora em menos de um segundo. Impedido! Comemorado como um gol! Sim, ufa, respiramos.
Continuam as pancadas e os cartões amarelos. Hudson marcava com firmeza, bom capitão, conquistou respeito e virou guardião. Thiago Mendes voltou à sua versão 2015, agradecemos, fizeram boa dupla. Intervalo de jogo. Vejo sentado a alguns metros de mim Dario Pereira que atendia aos São Paulinos com muita simpatia. Atrás de mim, em um camarote, estava Rogério Ceni. E pouco antes, passou por perto, o Careca. Noite de ídolos não pode acabar em derrota, são muitos vitoriosos com energia positiva pra dar errado. Voltamos para o segundo tempo sem alterações.
Assustamos o Atlético 2 vezes em 15 minutos. O galo também cresceu, vinha com mais firmeza, nos ameaçava. A torcida ecoou "Michel! Michel! Michel!". Bauza atendeu. O camisa 7 corre do aquecimento para a entrada lateral do campo. Placa levantada, substituição, a torcida já comemora como se previsse o futuro. O jogo precisou de 3 minutos pra ter briga, isso é coisa de Libertadores. Michel Bastos precisou de 3 minutos pra receber em falta a bola de Wesley e cabecear pro fundo das redes. GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL! Isso é Libertadores, isso é São Paulo!
Explodimos! Nos abraçamos! Agradecemos às nossas crenças! Nos arrepiamos! Wesley correu descontrolado e chutou os arbustos do Morumbi. Por trás dele passa correndo o goleador que se rendeu ao São Paulo. Batendo no braço, não só no estilo "Aqui é trabalho, meu filho", com mais raça que isso, o que ele quer nos dizer é que tem sangue correndo nas veias! Tá pulsando! E é por nós ! Sendo abraçado pelo capitão Hudson e o eterno amigo maestro, Michel mostra porque somos o inferno e a torcida o agradecia, se espremia, gritava!
Todos emocionados quase chorando pensando na representatividade daquele gol mas fomos interrompidos pelos alambrados que se quebram no Morumbi. Torcedores caem no poço do estádio, Ganso, Wesley e Calleri vão ajudar. Chamam a ambulância e os médicos de plantão que logo socorrem, nada grave, apenas um susto que resultou na paralisação do jogo. E nesse tempo, aquela fumaça da entrada toma conta do estádio novamente, luzes acendidas por tod a arquibancada, uma neblina desce, mal consegue-se enxergar o campo, Michel Bastos estava ali, parecia coisa de cinema, ele se sobressaltava e 61mil vozes explodiam "MICHEL! MICHEL! MICHEL!". Aquele momento em que você percebe que tudo pode dar certo. Impressionante.

Fomos dos 34 aos 51 minutos de tensão. Não podíamos sequer sonhar em tomar um gol. Quando o juiz finalizou, comemoramos. Não era final de campeonato mas a vitória e não ter levado um gol dentro de casa se uniu com o alivio dos nervos estourados durante 90 minutos. Cada jogo o nível de nervosismo cresce absurdamente.
Respirei por uma hora, tive enxaqueca. Libertadores nos dá ressaca emocional, sem dúvidas, um excesso de adrenalina, dopamina e cortisol que acabam conosco.Confusão mental.
Quando revi os momentos do jogo, me emocionei. Aquele jogador que eu xinguei, pedi que fosse vendido ou afastado, assisti nos pedir pra calar a boca em um jogo do paulista, que conturbou-se conosco no início da temporada... hoje ele é nosso. Michel Bastos é tricolor. Michel quer fazer história, foi dominado pela massa São Paulina, quer ser campeão. O antes renegado, hoje defende nossas cores, honra nosso manto, enche nossos olhos. Michel se rendeu ao São Paulo e nós nos rendemos a ele. Ao guerreiros de sangue nas veias, líder do nosso inferno, os mais sinceros agradecimentos. Se dormimos em paz é graças ao seu retorno.
Poderia seguir falando que iremos para Belo Horizonte com o Atlético desfalcado em 2 volantes e 1 atacante. Poderia tentar enumerar vantagens. Mas não dá, hoje a emoção toma conta da razão e eu só posso dizer uma coisa: Obrigada, Michel, eu espero que você faça história!
PS: Por favor, não cantem "O campeão voltou" ainda. Eu vi hoje no estádio, Dá azar.
Vamos com calma, respeitando o Galo. Vamos invadir Minas Gerais. Torcida batedora de recordes, vocês estão de parabéns! Além de tudo pediram ao Bauza o nome do homem que nos salvou hoje.

Michel Bastos, você é o cara.
Layla Reis
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