Breno garante ter se livrado do álcool, fala dos duros 27 meses na cadeia e elogia atual elenco do São Paulo

Fonte Blog do Jorge Nicola
Breno fez sua estreia na temporada de 2016 diante do Red Bull, ontem, em Campinas
Lá se foi um ano e um mês desde que Breno foi liberado pela Justiça alemã da condenação por colocar fogo na casa onde morava, em Munique. O zagueiro quase não falou sobre o pesadelo de 27 meses, sendo 14 em um presídio e outros 13 em regime semiaberto. Porém, na última sexta, o são-paulino resolveu quebrar o silêncio e falou abertamente sobre tudo.
“Não sou louco. Acontece que bebi demais”, diz Breno, se referindo à fatídica noite de 20 de novembro de 2011. O episódio parece completamente superado. Tanto é que o jogador, de 26 anos, leva na esportiva as provocações dos colegas de time. A intenção dele, agora, é recuperar o tempo perdido longe da família e do futebol. E, ainda, mostrar aos quatro filhos o perigo do álcool.
No bate-papo de 40 minutos, Breno se lembrou das dificuldades na cadeia, destacou a ajuda do São Paulo no momento em que ficou desempregado e projetou um 2016 muito bom. Sem lesões e como titular.
BLOG_ Poucos jogadores do São Paulo sorriem tanto quanto você. Dá para dizer que os quase três anos em uma cadeia alemã estão superados?
BRENO_ Com certeza. Tudo o que passei serviu de aprendizado. Foram momentos muito difíceis. Muito mesmo. Achei que não fosse aguentar quando meu advogado falou que eu teria de ficar 22 meses preso. Acabei ficando 27. Mas acabou, estou muito contente e sei que coisas boas virão pela frente.
Você tem vergonha de tudo o que aconteceu?
Não tenho o que esconder. Quando os meus filhos iam me visitar na cadeia, o Pietro ainda era muito novo. Então, eu pedia para a minha esposa dizer que eu estava trabalhando. Mas, lá na frente, vou dizer tudo. Eu quero dar exemplo para os meus filhos e alertar sobre o perigo da bebida. Vou falar toda a verdade. Não há motivo para esconder nada.
Em algum momento, achou que não jogaria mais bola?
Eu sempre coloquei na cabeça que voltaria a jogar, até para ajudar na autoestima. E o fato de o São Paulo ter assinado um contrato comigo (em dezembro de 2012) serviu para dar segurança e força. Sabia que, quando aquilo tudo acabasse, teria a chance de recomeçar.
Você ganhava mais de 100 mil euros por mês no Bayern de Munique. Quando foi preso, já nem tinha mais contrato e ficou sem salário. Como a família se virava na Alemanha?
Eu roí o osso dentro da cadeia e a minha esposa e os meus filhos também não ostentaram fora. Eles moraram num apartamento emprestado por um amigo. Ela não podia trabalhar, porque não tinha visto. O jeito era promover eventos em um restaurante português. E o São Paulo também passou a pagar um valor que ajudou.
Como surgiu a ideia do São Paulo de fazer um contrato contigo na cadeia?
Soube que a diretoria procurou a minha esposa e houve acerto. O Milton Cruz e o Gustavo Oliveira, inclusive, me visitaram em 2013, durante a Audi Cup.
Você segue com acompanhamento psicológico?
Para falar a verdade, nunca tive acompanhamento. Nunca. Por exemplo, aqui no São Paulo: eu falo com a psicóloga assim como todos os outros jogadores. Sou uma pessoa normal. Falo normalmente sobre o acidente. Não sou louco. Acontece que bebi muito e saí de mim. Aí, realmente aconteceu (ele colocou fogo na própria casa).
Você ainda bebe?
Para falar que nunca mais bebi, coloquei uma taça de vinho na boca na companhia da minha esposa. Uma vez. E nada mais.
Qual foi o momento mais difícil na cadeia?
Os seis primeiros meses foram bem difíceis. Fiquei muito para baixo e o próprio psicólogo da cadeia já previa isso. Ele dizia que eu, como jogador, nunca havia cogitado chegar a um lugar como aquele, ao contrário de quem comete crimes. Nas primeiras vezes em que minha esposa me visitou, não conseguíamos falar. Só chorávamos.
Ela podia visitá-lo com qual frequência?
A cada 15 dias. E a visita era de apenas uma hora.
Como você ocupava o tempo?
Cheguei a ter um celular, mas descobriram e acabei ficando sem. Ainda levei uma multa. Também não tinha acesso à internet. As únicas diversões eram a televisão, as cartas que escrevia para a minha esposa todo dia e os campeonatos internos de futebol que aconteciam de vez em quando. Meu time, inclusive, foi campeão e eu acabei artilheiro. Ah, eu também trabalhava.
Fazendo o quê?
Nos primeiros meses, trabalhei na lavanderia. Depois, comecei a servir comida, buscava coisas, limpava o pavilhão… A mudança foi boa, porque o trabalho na lavanderia era muito estressante e cansativo.
Com quem dividia a cela?
Eu tinha a opção de ficar sozinho. Até tentei, assim que cheguei, mas a cabeça fica um trevo. O tempo não passa e você fica pensando na família, não sabe o que está acontecendo… Aí, acabei ficando um bom tempo com dois africanos. Mais tarde, ainda dividi cela com um iraquiano, um peruano, até que pedi para ficar sozinho.
Quais crimes os africanos haviam cometido?
O pessoal costuma mentir muito. Quase todo mundo que está lá diz que não fez nada, foi injustiçado (risos). Ao que parece, um foi preso por droga e outro, por contrabando.
E como era o convívio?
Eu não tinha problema, mas eles brigavam entre si o tempo inteiro. E a história é engraçada: quando eu cheguei, não tinha TV na cela. Pedi para a minha esposa comprar uma TV, só que os dois viviam discutindo, porque cada um queria ver um canal. No fim, eles davam o controle na minha mão, para que eu decidisse o canal.
Algum amigo ajudou a enfrentar o drama da prisão?
Perdi o contato com todos jogadores do Bayern, exceto o Rafinha, que foi lá me visitar duas vezes. E ele conseguiu com o juiz autorização para fazer visitas extras. Senão, ele tiraria a chance de a minha família visitar. Também tive a ajuda de um pastor brasileiro chamado Teodoro, da igreja CBG. Ele me visitava toda semana, lia a Bíblia, dava conselhos…
Você teve muitos pedidos de liberdade negados pela Justiça alemã. Foi injustiçado?
Posso estar enganado, mas imagino que a Justiça não quis facilitar as coisas, porque sabia que eu era uma pessoa conhecida. Deve ter sido isso. Se quisessem, teriam me liberado sem a necessidade do semiaberto. Fiquei 14 meses preso e, depois, foram mais 13 com liberdade condicional.
Foi aí que você começou a trabalhar no Bayern de Munique. O que fazia lá?
Eu saía da cadeia às 9h e ficava até as 18h no Bayern fazendo tudo. Era uma espécie de office boy. Pegava carta no correio, ficava tirando as etiquetas dos uniformes que chegavam para os meninos da base… Nessa época, a minha esposa ainda teve de voltar ao Brasil, porque estava grávida e corria o risco de perder o bebê. Então, no fim de semana de folga, eu passava fazendo orações e ia ao culto.
Como é o tratamento das pessoas com você na rua?
Até torcedores de outros times me respeitam. Tem sempre um engraçadinho em rede social, mas, na rua, é bacana. O pessoal pede foto, diz me admirar.
Como você é como pai?
Sou um cara extremamente caseiro e tento dar toda a educação do mundo aos meus filhos (são dois biológicos e dois enteados). Sempre brinco com o Juca e o Felipe (assessores do São Paulo) que não posso ficar dando muita entrevista, porque preciso recuperar os anos perdidos longe dos meus filhos.
Qual seu objetivo para 2016 com a camisa do São Paulo?
Quero terminar o ano sem lesões. É a coisa mais importante, porque fiquei mais no Reffis do que outra coisa em 2015. Já se esperava essa dificuldade, porque fiquei quase quatro anos sem uma vida de atleta.
E o que dá a você a esperança de um ano livre de lesões?
Passei dezembro quase inteiro me condicionando. Abri mão das férias, emagreci seis quilos e estou me sentindo muito bem fisicamente. Agora, é me fixar como titular, jogar bem durante o ano e conquistar títulos, como a torcida espera.
Você surgiu em 2007, com apenas 17 anos, e era apontado como um fenômeno da zaga. Ainda tem esperança de ir à seleção, agora com 26 anos?
Primeiramente, preciso me firmar no São Paulo. Tenho jogado a pré-temporada como titular, mas ainda estou me adaptando. Até porque joguei no ano passado fora de posição, como volante. No começo, foi difícil, mas depois gostei tanto que jogaria facilmente assim de novo.
O Tricolor pode ganhar títulos, apesar das perdas de Pato, Luís Fabiano e Rogério Ceni?
Depende muito dos jogadores. Não adianta ser como no ano passado, quando tínhamos muito elenco, mas todo mundo entrava em campo com a cabeça mais ou menos. Assim não dá para ser campeão. Não dá para esperar a coisa ficar feia para acordar. O time de hoje colocou isso na cabeça. Tenho gostado muito do grupo.
O seu São Paulo de 2007 tinha uma das melhores defesas da história do país. O Bauza gosta muito de defender. Existe alguma semelhança?
Eu estava conversando com o Rodrigo Caio sobre isso. O Bauza não admite que a última linha do time se defenda com menos do que três jogadores (um lateral e dois zagueiros). Antes da estreia no Paulistão, não havíamos levado gol. Nem em amistoso nem em coletivo.
Prefere trabalhar com o Bauza ou com o Osorio?
São treinadores totalmente diferentes. O Osorio era mais agitado, falava mais. O Bauza se preocupa mais com a defesa. Não tenho do que reclamar, até porque estou como titular.
Depois de tudo o que viveu, voltaria a jogar na Alemanha?
Tudo pode acontecer. Eu penso em voltar para a Europa, qual jogador não pensa? Especificamente sobre a Alemanha, tenho bastante experiência, falo a língua… Mas, antes de imaginar uma transferência, preciso me firmar no São Paulo.
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