Diego Lugano, o melhor de 2016

Fonte Blog do Menon
Diego Lugano estava nitidamente assustado no salão de desembarque do terminal 3 do Aeroporto de Cumbica. Seus olhos se moviam rapidamente da direita para a esquerda, para frente, para trás. Ficava um pouco assustado quando ouvia seu nome gritado de forma ritmada em alto som. Depois, sorria, mas sem entender direito o “voltou'' berrado após seu sobrenome. E teve um sobressalto quando seu pai, William de Almeida, gritou: “ele pousou''
William, com o filho de dois anos no colo, estava emocionado. Mostrava, em seu celular, o convite feito por Karina Roncio, mulher do outro Diego Lugano, aquele que voltava, para um futuro encontro, de modo que os dois diegosluganos se encontrassem, o ídolo do pai, que colocou o nome no filho.
A Internet, nos últimos dias, estava aproximando Lugano da torcida. Começou quando Karina postou em seu instagram a foto do marido treinado sozinho em uma academia de Montevideu, usando a camisa do São Paulo. O ídolo já havia deixado Assunção, mas o presidente do Cerro Porteño se apegava a detalhes de contrato para não liberá-lo. Depois, o vídeo, com Lugano praticando exercícios aeróbicos e falando da ansiedade pelo embarque.
Então, tudo se concretizou. Houve a tal rescisão e o que era virtual passou para o mundo real. Lugano estava mesmo de volta, após dez anos. A saudade juntou-se à ansiedade, que estava de mãos dadas com a carência – de títulos e de atitude – e fez-se a catarse.
Eram 700, mil, talvez mais – não sou bom nestes cálculos – a gritar, chorar, espernear e pular como cabritos monteses, berrando ao mundo que o ídolo estava de volta. A questão aqui não é julgar se era um, era dois ou era cem, o importante é saber que estava ali um microcosmo representativo da realidade. Não é preciso beber um litro de leite para saber o gosto, basta uma xícara, dizem os defensores de pesquisas eleitorais.
Aqueles que estavam ali representavam, sem dúvida, o pensamento da grande torcida do São Paulo. Ela, que chorou a saída do M1to, cantava a chegada do Di05.
E como é importante haver ídolos no futebol. É lógico que ele resiste do jeito que está agora, com os clubes sendo apenas hospedeiros de homens de negócio que também sabem jogar bola. O torcedor ama a camisa. É o que tem. Então, quando além dela, pode amar o homem que a veste, é uma boa nova. Uma velha boa nova. O futebol cresce. Nesse sentido, a chegada de Lugano, independentemente do São Paulo, é a grande notícia do ano. Ainda há amor por um ídolo, a ponto de lhe dar status de divindade
Na verdade, o Dio5 é apenas um homem. Um capitão. Um zagueiro diante de seu maior desafio. Maior até do que o que foi sua chegada ao clube em 2003 – desconhecido e sob suspeita. Diego Lugano cresceu como jogador, tornou-se um zagueiro confiável e de alto nível. Detalhe: não estou dizendo que se transformou em alguém tecnicamente invejável. Não foi e nunca será. Mas alguém de porte físico, liderança e posicionamento em campo.
Foi capitão da Celeste, o sonho de todo uruguaio. Foi rei na Turquia. Teve seu caráter moldado com a eliminação para a Austrália na repescagem que definiu que os aussies iriam ao Mundial de 2006. Disputou a Copa da África do Sul em ótimo nível, assim como a Copa América de 2011. Foi rei na Turquia. Ainda esteve em bom nível – sem errar na competitiva eliminatória da América do Sul – e depois, caiu.
Foi mal na Copa do Brasil. Sofreu com Joel Campbell, da Costa Rica, e viu surgir Jose Maria Gimenez, seu substituto na Celeste. Esteve no PSG, no Málaga e foi parar no West Brown. Demitido, ficou parado quase um ano.
E iniciou sua volta pela Suécia em um time desconhecido. Consegui fazer uma dezena e meia de jogos seguidos. E foi para o Cerro Porteño. Lá, jogou mais 16 vezes. Fez cinco gols. E chega agora ao São Paulo para despedir-se do futebol.
Não é um encontro burocrático. O guerreiro não aceitaria isso. Ele quer jogar em bom nível, não quer ser um peso morto, não quer viver de passado. É um homem sério, que treina muito e ainda tem sonhos.
Ter um final digno de carreira no clube que o projetou e que ama.
É um desafio enorme. A chegada gloriosa ao Brasil foi apenas um mínimo passe.
Foi pensando nesse desafio que meu pensamento voltou no tempo. Me lembrei quando a sociedade civil arrancou da Ditadura a Lei da Anistia. Os exilados começaram a voltar. Brizola, Arraes e muitos mais. Entre eles, a educadora gaúcha Flavia Schilling. Filha de Paulo Schilling, assessor de Brizola, ela vivia em Montevideu, no Uruguai, desde os 11 anos de idade. Lá, envolveu-se na luta política e foi condenada a dez anos.
O Brasil aceitava sua volta, mas a ditadura uruguaia impedia sua saída. O caso teve repercussão mundial porque Flavia também tinha nacionalidade alemã. No final, depois de muita luta, ela voltou. Em 1980.
O aeroporto estava lotado. E o grito era único. “Flávia, a casa é sua. A luta continua''.
Flávia, uma guerreira.
Diego, outro.
Lugano, a casa é sua. A luta continua.
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