Ídolo do Palmeiras, Valdir aceitou convite do amigo Telê Santana para chefiar a preparação de goleiros no Tricolor no início dos anos 1990. Entre as primeiras tarefas, estava uma decisão marcante para a história do clube: convencer um garoto em quem via muito talento a não ceder à saudade da família e abandonar a profissão antes mesmo de se tornar profissional.
Valdir chamou Rogério em sua sala e repetiu o que já dizia a Telê: com paciência, seria um goleiro muito bom. “Acabou saindo melhor do que a encomenda, não imaginei que ele fosse se transformar em tudo isso. Imagine quem o futebol teria perdido”, comentou Valdir. Hoje fora do futebol, ele tem exata noção de sua importância para o “mito” são-paulino.
O agradecimento do pupilo já deixou o sempre contido Valdir emocionado. Em 2006, ele foi o padrinho para entregar a Ceni o Troféu Mesa Redonda, na TV Gazeta. Ouviu durante a gravação do programa e em conversa posterior palavras que o marcaram para sempre.
“Eu estava escondido, ele não sabia quem lhe entregaria o troféu. Quando apareci, ele me retribuiu dizendo que, se pudesse, dividiria o prêmio ao meio comigo por ser a pessoal responsável por tudo que ele conseguiu. Senti um orgulho tremendo e me emocionei. Um dos maiores goleiros do Brasil estava sendo modesto comigo”, lembrou.
Rogério Ceni não esconde sua gratidão com Valdir, e não apenas por evitar que voltasse a morar com os pais. O então preparador de goleiros ordenou que ele se juntasse aos profissionais mesmo depois de Márcio Araújo, técnico dos juniores, o havia colocado na reserva na categoria. O garoto convenceu Telê de que Valdir tinha razão em seus primeiros treinamentos com o time principal.
“Quando ele chegou, fez uns dois treinos e foi aprovado [por Gilberto Geraldo de Moraes, então preparador de goleiros da base]. Logo o trouxe para perto de mim. Senti que poderia ser um grande goleiro e iniciamos uma relação de confiança que dura até hoje”, justificou Valdir. “Falei para o Telê: ‘vamos deixá-lo no profissional que esse moço pode ter uma carreira muito bonita’. Tive sorte e acertei.”
Mais do que garantir a beleza, Valdir acabou plantando a semente de um dos diferenciais da trajetória de Ceni: a batida na bola. “Quando ele chegou, seu tiro de meta nem passava do meio-campo”, gargalha o preparador, em versão confirmada por Rogério, que pedia para o zagueiro Sérgio Baresi recolocar a bola em jogo da pequena área.
Dono de lançamentos quase impecáveis com seus pés, Valdir, que inventou a preparação específica de goleiros no fim dos anos 1970, acabou tendo em Rogério seu melhor aluno. Exigiu dele uma perfeição na reposição de bola com passe de qualidade superior à de atacantes. O ‘aluno’ treinou tanto que foi aprovado com louvor, a ponto de bater faltas e se tornar o goleiro com mais gols na história do futebol mundial.
“Na escola ou em qualquer lugar, em uma turma de 20 estudantes, o professor dá sempre a mesma matéria e dois ou três vão se sair melhor. Comigo também é assim no futebol. O Rogério foi quem melhor desenvolveu essa batida na bola de todos os goleiros com quem trabalhei. Adquiriu a perfeição, é quase impecável. Dificilmente erra. É a prova de que, com treino, dedicação e carinho, é possível atingir a perfeição”, orgulha-se o professor.
Texto publicado originalmente em 07/09/2011.

Ídolo no Palmeiras, Valdir Joaquim de Moraes se emociona ao recordar o início da carreira de Ceni (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)