Futebol e rock'n'roll.
A combinação, tradicional especialmente na Inglaterra, também se mostra forte pelos lados sul-americanos. Por aqui, poucas bandas possuem uma relação tão próxima entre duas das maiores paixões mundiais quanto a Tr3sdeCoraZón (Tres de Corazón). Os punkrockers colombianos Sebastián Mejía, Jorge Iván Botero, Andrés Felipe Muñoz e Julio César Osorio, acima de tudo, nutrem o amor comum da maioria dos latinos pela pelota.
Para notabilizar essa relação, nada melhor do que misturar a bola com a guitarra. A banda de punk rock lançou em 2014 a canção 'Dame Una Alegría' como uma forma de homenagear a seleção colombiana que disputaria a Copa do Mundo de 2014. A música em si já fizera sucesso. Contudo, com o videoclipe, o grupo atingiu novos territórios, continentes e viu a sua rotina mudar - foram mais de 1 milhão de acessos no Youtube.
Fora o apoio incondicional para um elenco que se tornou histórico por atingir as quartas de final do Mundial, o vídeo chamou a atenção pelas participações de René Higuita, Faustino Asprilla, Victor Hugo Aristizábal, Maurício Serna e o lendário técnico Francisco Maturana. Todos eles possuem uma coisa em comum: participaram da famosa geração dos anos 1990, responsável pelas melhores lembranças de quem é apaixonado pelo esporte bretão na Colômbia.
"Foi impressionante para nós estarmos no mesmo set de gravação com os nossos ídolos. Olha, foi indescritível, tivemos a chance de conhecê-los pessoalmente mais a fundo. O sentimento que ficou é que vivemos um momento inesquecível", contou ao ESPN.com.br, com entusiasmo durante a passagem por São Paulo, Felipe ‘Pipe' Muñoz, baterista da banda e um dos mais aficionados pela modalidade mais popular do planeta.
Para quem acompanhou o resultado do videoclipe, com parte das grandes estrelas do futebol colombiano em meio ao punk rock latino, estranha-se o fato de atletas sul-americanos se identificarem com o gênero. Se no Brasil são raros os casos de jogadores assumidamente roqueiros, como os goleiros Cássio, do Corinthians, e Rogério Ceni, recentemente aposentado do São Paulo, na Colômbia não é diferente.
"Olha, foi difícil, porque o rock não é um gênero que eles gostam ou conhecem muito. Não é como a música tropical da Colômbia, o reggaeton ou a salsa, enfim...eles não conhecem a fundo o rock, mas gostaram da mensagem passada pela música, que fala de nacionalismo, união e irmandade. Só assim decidiram participar", acrescentou ‘Pipe'.
Formada em 2002, a banda originada em Medellín se divide futebolisticamente entre Atlético Nacional (Pipe e Jorge) e Independiente (Sebastián e Julio). Inspirada por grupos como o Attaque 77, da Argentina, e o Trotsky Vengarán, do Uruguai, o quarteto colombiano decidiu transformar a paixão pela bola em trabalho. A recompensa veio com a homenagem à seleção em 2014.
"O futebol faz parte do nosso dia a dia. Somos torcedores de clubes e da seleção. O futebol faz parte da nossa vida e de outros artistas assim como a família, a política e o amor. Decidimos falar de futebol e criamos uma canção. A mais importante foi a que fizemos para a seleção no Mundial de 2014. É um orgulho colocar o esporte mais bonito do mundo na nossa música", disse.
Se James Rodríguez e a nova geração acompanharam o vídeo com os grandes nomes do futebol do país, ninguém sabe. Todavia, a Colômbia realizou em 2014 a melhor campanha da história ao atingir as quartas de final. A eliminação para o Brasil, em Fortaleza, segue engasgada por muitos, em virtude da anulação (polêmica) do gol do zagueiro Mario Yepes.
Apesar da lembrança incômoda, o grupo comandado por José Pekérman fez história e entrou para a galeria como a ‘nova geração de ouro cafetera'. Entretanto, mesmo com um resultado melhor em comparação ao time de Higuita, Valderrama e companhia, James Rodríguez, Falcao García e companhia ainda ocupam um segundo plano no coração de Pipe. Fruto da nostalgia.
"A atual fez um grande papel no Brasil e a de 1990 e 1994 nos deu muitas alegrias. Em uma tínhamos Higuita, o maior goleiro colombiano da história, agora temos Ospina, que é um grande goleiro e que possivelmente seja até mais completo embaixo dos três paus. Tínhamos Rincón, Asprilla e Valderrama, apesar que James, Cuadrado, Falcao e Guarín também ganharam coisas na Europa. Mas, por reconhecimento, idolatria e sentimento mesmo, gosto mais da antiga", conta o baterista.

Pipe, com a camisa do Atlético Nacional, e Sebastian, do Independiente: paixão dividida
A nostalgia da adolescência atinge também a outra referência do futebol sul-americano da década de 1980 e 1990. Em entrevista ao jornal argentino Olé, Pipe apontou Maradona como o ‘maior da história'. Provocado pela reportagem do ESPN.com.br, o baterista apelou para as lembranças da infância.
"Não demos essa declaração ao Olé só pelo fato de ser um jornal argentino. Também na Colômbia, sempre dissemos que Maradona era maior de todos, um dos mais técnicos que vi. Pelé não tocou a nossa geração, vimos apenas pela televisão...", recordou-se o músico, alguém que enxerga em Maradona um símbolo do que é pertencer à América do Sul e ser sul-americano.
"Maradona caiu, mas levantou. Passou pelas drogas, problemas familiares, e se curou. Como pessoa, nessas idas e vindas...é um típico personagem sul-americano. Maradona sofreu e se levantou, por isso Maradona é o maior", fala, com idolatria.

Pipe e o também ídolo Juan Carlos Osorio
A admiração de Pipe e da banda, contudo, não se limita aos donos do talento com a bola nos pés. O lado Atlético Nacional do quarteto se derrete ao falar de Juan Carlos Osorio. O baterista mesmo se diz suspeito para falar do antigo comandante do São Paulo, já que o sentimento transcende a admiração profissional.
"Eu, particularmente, tenho uma boa amizade com Juan Carlos. Ficamos próximos pelo fato de eu acompanhar o Atlético pela arquibancada, com a torcida Los Del Sur. Aí pude ficar amigo dele. Sinto falta do Prof. Osorio, fez grandes coisas, mas estou feliz por ele pessoalmente. Osorio deixou uma boa imagem no futebol brasileiro, embora não tivesse o tempo suficiente para trabalhar, e espero que vá ainda melhor no México. Estou feliz por ele", completa.
Nesta miscelânea de duas das grandes paixões da humanidade, o rock and roll e o futebol, a banda Tr3sdeCoraZón lotou no último sábado (6) o Hangar 110, casa de shows localizada na Rua Augusta, em São Paulo. Naquele que ainda se diz o país do futebol, o punk rock ganhou vez ao traduzir o sentimento de quem carrega a bola nos pés para as palhetas, baquetas e microfones.
"Gostaria de falar com os brasileiros que nos prestigiaram: sigam admirando a nossa banda, e, que quem goste de futebol, nos acompanhe. Tomara que, aí no Brasil, desfrutem de uma banda com um outro idioma, mas que canta a linguagem única que só o futebol tem", disse 'Pipe', que não poderia resumir melhor a melhor forma de instrumento do esporte mais popular do planeta: a união.