O Adeus a Juvenal Juvencio, eterno vencedor - Por Layla Reis e Equipe SPFC.Net

Fonte SPFC.Net
Meu primeiro parágrafo fala sobre o ser-humano. Todos nós somos pais ou filhos de alguém, somos maridos, somos esposas, representamos algo importante na história e vida de alguma pessoa. Nossos erros não nos desgraçam pela eternidade, mas nossas vitórias, essas sim, são eternas. Ninguém morre e vira santo, não é isso, mas quem junta-se aos anjinhos no céu merece respeito e um minuto de silêncio em sua atenção. Então peço, se você for julgar, pare de ler aqui e dê seu alt+F4, este texto presta homenagem a um São Paulino ex-diretor de futebol campeão brasileiro e mundial, e ex-presidente no SPFC. Um homem polêmico, enigmático, histórico e vencedor.
Este foi um homem que dedicou 30 anos de sua história ao São Paulo Futebol Clube. Administrador racional que usava a emoção como forma de produto com os jogadores. Sabia fazer o "Vamos! Venha! Vai!". Pagava o bicho em dinheiro no vestiário, dobrava o valor em campo pré cobranças de pênalti "Bate pra furar a rede que eu tenho um prêmio dobrado pra você lá embaixo!", puxava orelha de jogador pessoalmente, cara a cara, olho no olho. "Às vezes eu não pago o bicho pra um, dou castigo, ele quer reclamar, eu digo psiuu, não, próximo jogo você melhora, entende?".
Foi um desafiador, verdadeiro orador palestrante de forma inigualável. Toda vez que eu cobria um evento com Juvenal eu tinha certeza que ele arrancaria algumas risadas minha, por saber se impôr e argumentar, falava com tom perseverante sobre todos os assuntos e não tinha papas na língua. "Se o Paulo Autuori perder um jogo a torcida vai jogar a culpa do desastre nele mas se ele fizer duas ou três vitórias todos esquecerão a crise e vão chamá-lo de salvador, e eu também chamarei!"; Peitou Ricardo Teixeira, o qual pagamos o preço até hoje, mas mostrou coragem e impôs respeito em nome das três cores. Peitou seus próprios dirigentes por inúmeras vezes quando lhe cabia fazer. Ele se enchia, mandava todos os jogadores embora, refazia o elenco, trocava o técnico, voltava, refazia o elenco de novo e admitiu no final do terceiro mandato em entrevista "Perdi a mão... mudei muito de técnico, claro, a gente erra e eu não enxergava aquilo".
Se a gente fingir só por um instante que o terceiro mandato não existiu, estaremos falando apenas de vitórias históricas. Recordaremos de um dos dirigentes que mais beijou troféus no Morumbi, que mais montou elencos vencedores e engajados cheios de raça, estaremos falando do quase único presidente que nunca teve problemas com o elenco e desafiava de maneira pública "Os jogadores sairão do treinamento daqui a pouco e eu desafio vocês(imprensa) a perguntar um por um qual deles está insatisfeito com a diretoria! Se eu não cumpro tudo o que digo a eles! Eu cumpro! A nossa parte com eles está feita!".
Juvenal Juvêncio como diretor de futebol abraçava o elenco. Sabia dar bronca daquele jeito imposto imperador, mas tratava o jogador com humildade e recebe carinho de todos que passaram por suas mãos desde a década de 80. Luis Fabiano é uma dessas provas, desde que saiu do SPFC pela primeira vez, ligava para o "Juju" a cada temporada e time que passava, ouvia os conselhos do Cartola e dizia ter saudades de ver o Juvenal no vestiário. Fabuloso disse que aprendeu com o ex-presidente que "Futebol só se joga com alegria".
Foi o homem que enxergou o social, reformou o clube, o elitizou. Reformou o Morumbi, criou sua estrutura de quase shopping, trouxe o mármore, as cadeiras vermelhas, os estofados nos setores majoritários, reestruturou Cotia, tinha um patamar de cinco estrelas em tudo o que fazia no São Paulo. Colecionou estrelas não só em nossa camisa, acima do emblema, mas também em seus padrões de reforma. Cuidava do jardim do Morumbi, zelava pelo gramado de perto todos os dias, viajava quase sempre com o time, era um presidente de presença.
Falo de um homem que eu ataquei por incontáveis vezes neste site. Cobrei, pressionei, critiquei pois minha carreira como jornalista deu-se início junto ao terceiro mandato dele em que mesmo assim saiu vitorioso com o título inédito da Copa Sul-americana e trouxe o retorno de Muricy a pedido da torcida para livrar-nos do rebaixamento. Diferente dos dias de hoje, Juvenal mandava embora jogadores que causavam mal ao ambiente, como o zagueiro Lúcio, por exemplo.
Juvenal foi tricampeão brasileiro, campeão da Libertadores, Mundial e sul-americano mas foi derrotado por sua própria cria em 2014 quando Aidar o demitiu da base e o tornou inimigo público número um do São Paulo. De lá sua doença já era de conhecimento público mas no começo de 2015 escutei de alguns conselheiros "Ele está doente mas não deixará vencer-se pelo Aidar, ele é forte demais para isso" e assim foi feito.
Em setembro deste ano fiz meu primeiro texto de ataque a Aidar com denúncias ao seu mandato em rolos com jogadores, empresas, comissões duvidosas, etc. Em um final de semana como outro qualquer recebo a ligação de um amigo do Juvenal. Fui abraçada pelo amigo, Juvenal já estava doente demais para sair de casa, mas foi enviado seu recado que na época falava sobre o Dr Osvaldo, ex-diretor financeiro tricolor, "Juvenal mandou te dizer que o contrato da BMG não é de autoria dele". Eu sabia que escrevia para a diretoria àquela altura, mas não para Juvenal, perguntei "Ele leu? Gostou? Demorei três meses para fazer esse texto". Ele gostou, sempre foi fã das mídias tricolores mais do que das tradicionais. Naquela semana mensagens de ameaça pública foram enviadas a mim, eu sabia a autoria e mais uma vez o amigo me disse "Se precisar de segurança, você terá, mas continue a luta". Sem o conhecer, eu tive seu apoio. Nunca nos falamos diretamente, mas lutamos juntos de forma paralela em sua última batalha.
Juvenal teve sua última vitória que com pressão interna e muitos meses sem dormir (como a maioria dos conselheiros e dirigentes também) derrubou Aidar junto à uma série de pessoas e acontecimentos que se uniram em prol do SPFC. O dia da eleição de Leco foi um presente a ele que não compareceu, ali perguntei a um conhecido "Por que Juvenal não veio?" e me responderam que sua saúde estava muito debilitada e não podia sair de casa mas que estava comemorando.
Semana passada Luis Fabiano se despediu e pela última vez escutamos a voz de Juvenal Juvêncio que se despediu via áudio. Digam o que quiser, chorei ao ouvir a gravação, afinal quem não se lembra daquele vídeo vazado há quatro anos em que Luis Fabiano dizia ao seu empresário "Eu vou ligar pro Juju, pode deixar que eu falo com o Juju e vou voltar pro São Paulo". Juvenal disse em entrevista que para não chorar no retorno de Luis Fabiano ele teve de falar poucas palavras e ir embora rapidamente, também estava emocionado.
Juvenal Juvêncio, você venceu. Conquistou o mundo, conquistou o Brasil mas perdeu a mão no terceiro mandato, fato. Teve sua última vitória antes de deixar este mundo e ir se encontrar com Telê Santana e Marcelo Portugal Gouveia. Há quem vá reconhecer seus feitos, sua história e eternizar seu nome no hall do São Paulo e há quem vá criticá-lo por três anos desgraçados no final de sua presidência. Mas o fato é que você foi um vencedor que defendeu as cores vermelho, preto e branco. Nos representou como nação, nos fez chorar com títulos inimagináveis, nos fez rir com seu jeito e até nos ofereceu bala.
Obrigada por tudo. Obrigada por podermos dizer "Arapuca!" e sorrir. Obrigada por cada vez que gritamos "É CAMPEÃO!", por cada vez que deu bronca em um jogador no CT. Por pagar o bicho em dinheiro, levar passionalidade a seus elencos. Obrigada por nos oferecer bala. Obrigada por nos apresentar a máquina removedora de chiclete, por nos levar ao Japão, obrigada por triplicar o bicho antes das cobranças de pênalti em 1987, por revelar o Lucas e vender o Douglas ao Barcelona (duas transações históricas), por ajudar a nos tornar hexa e podermos ter o privilégio de falar "MorunTRI". Juvenal Juvencio, homem de peito, de coragem e persistência. Você nos deixa com uma história gloriosa e vitoriosa que são maiores do que seus erros de 2011 a 2014. Fica abaixo a despedida e o recado que hoje, conhecedora da política interna do São Paulo, eu consigo entender e apoiar.

Você tem razão, Doutor. A emoção é passageira e nós temos vida eterna. Que seu nome também seja eternizado "Foi um dirigente que defendeu as nossas cores".
Fico por aqui com a emoção de um mês de despedida. Vai Luis Fabiano, sexta nos despedimos do M1TO e hoje demos adeus a Juvenal. Somente os fortes são eternizados e critiquem o quanto quiser, contra fatos e números não há argumentos.
Valeu, Juvenal. Descanse na paz que você merece, continue nos abençoando aí de cima e dê um abraço apertado em nossos ídolos que você encontrará. O time do SPFC recebe um reforço de peso lá no céu hoje. Hoje o Santo Paulo te aguarda na entrada dos portões celestiais.
Agradecida e emocionada.
Layla Reis e Equipe SPFC.Net
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