Análise: Passou da hora de Paulo Henrique Ganso se reinventar. Mas depende de quem?

Fonte ESPN
Mais uma temporada perto do fim no futebol brasileiro. Paulo Henrique Ganso não foi decisivo, não é o camisa 10 da seleção brasileira e não esteve perto de ir para um grande clube da Europa na última janela de transferências. Estas, inclusive, eram todas as previsões de cinco anos atrás, quando o meia são-paulino atuava em alto nível ao lado de Neymar com a camisa do Santos.
De lá para cá o futebol mudou. Muito. Não só lá fora, mas no Brasil também. E o que vimos do nosso "futuro" camisa 10 foi pouca evolução e mudança de comportamento desde 2010. Mas seria ele o grande culpado desta não ascensão? Apesar de sua parcela, o seu não desenvolvimento como atleta vai para conta dos técnicos que o treinaram. Muricy Ramalho, Dorival Junior, Milton Cruz, Juan Carlos Osório... Cada um tem seu pedacinho de responsabilidade nesta história que até agora não deu certo.
Enquanto o time do Morumbi caminha para mais uma escolha de treinador, Ganso "grita" por alguém que o reinvente em 2016. Alguém com olhar tão contemporâneo, que abra a visão do ex-menino da Vila para novas possibilidades dentro das quatro linhas. Alguém que consiga convencê-lo a ser um novo jogador a partir de agora. Alguém que treine de forma correta, que o faça criar novos comportamentos e o ressuscite para o futebol.
Ganso é meia. Tem jogado grande parte de sua carreira centralizado na linha de três do esquema 4-2-3-1. Uma vez ou outra vimos ele um pouco mais aberto pelos lados ou até mesmo recuando em situações bem peculiares durante as partidas.
É clara sua capacidade técnica quando tem a posse da bola. O quanto tem de talento para fazer a leitura das jogadas segundos mais rápidos que os adversários e até mesmo seus companheiros. Consegue executar ações rápidas em um curto espaço do campo. Mas também está cada vez mais visível o quanto sua participação dentro das partidas tem caído ao longo destes anos.
Paulo Henrique tem um gesto técnico refinado em sua essência. Um atleta que gosta de ter a bola e que tem uma boa relação com ela. Mas a grande questão é: a área do campo em que ele se posiciona. Esta entrada central no último terço, a cada ano que passa, está cada vez mais e melhor preenchida e sem espaços. Com muita pressão na bola e muita marcação agressiva. São raros os jogadores no cenário mundial que conseguem decidir neste pedaço de campo em que a intensidade e a pressão ao portador da bola são cada vez maiores.
Aí entramos na grande pergunta: mas porque não fabricamos camisas 10 como antigamente? Por que não jogamos o futebol de antigamente, oras pois!
Estes jogadores criativos, que atuavam pelo centro do último terço do campo, sofreram transformações. Coisa, aliás, que ainda não aconteceu com Paulo Henrique Ganso.
Alguns deles viraram meias-atacantes. Jogadores com um grande poder de infiltração, que pisam na área e buscam a finalizações que decidem jogos. Atletas que possuem em suas características uma maior mobilidade e agilidade para enfrentamentos no um contra um ofensivo. Jogadores como Henrikh Mkhitaryan (Borussia Dortmund), David Silva (Manchester City), James Rodríguez (Real Madrid), Mario Götze (Bayern de Munique)...
Outros, por sua vez, passaram a trabalhar essa organização do jogo mais por trás, geralmente na segunda etapa de construção. Neste caso - o mais propício para Ganso -, estes atletas encontraram uma zona do campo com menos pressão na bola, uma visão de frente para o que está acontecendo na fase ofensiva e uma capacidade maior de iniciar uma jogada de gol. Xabi Alonso (Bayern de Munique), Andrea Pirlo (New York City)...
E toda esta adaptação precisou de um maior entendimento e participação no momento defensivo destes jogadores que recuaram. Talvez aí esteja a grande questão do meia são-paulino ter ou não possibilidades de se adaptar a esta nova função. Estaria Ganso disposto a esta transformação? Será que ele, um grande assistente para gols, se contentaria em iniciar os lances e entenderia a mesma importância desta ação no atual futebol?
Na partida contra o Figueirense, no último sábado, o meia do Tricolor sofreu enquanto estava posicionado na zona de pressão do campo. Na imagem abaixo, fica clara a dificuldade em se tomar decisões no meio de cinco jogadores prontos para agredir a bola. É de se ressaltar que, durante esta partida, não houve um momento de omissão do camisa 10. Competiu, buscou jogo, se movimentou para o apoio, sinalizou a melhor opção, reclamou... Queria jogar!
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Ganso recuou. Na imagem abaixo, vemos ele de frente para o jogo - e não de costas para o gol -, menos pressão na bola para tomar decisões e mais espaço para encaixar bolas importantes durante a partida. Uma delas, inclusive, foi do empate de sua equipe aos 45 do segundo tempo. Ficou claro como o jogo fluiu melhor para os tricolores a partir do momento que o meia passou a organizar o jogo nesta nova faixa do campo.Com as situações de jogo - neste caso se caminhando para derrota do São Paulo em pleno Morumbi -, Paulo Henrique observou o time catarinense todo posicionado atrás da linha da bola e sua faixa do campo "preferida" ainda mais ocupada. Foi aí que tudo mudou.
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Qualquer treinador diria que é bem difícil você mudar radicalmente os comportamentos táticos/técnicos de um jogador de 26 anos. Mas existem os bons técnicos com tamanha competência para isso. Tite fez Jadson acompanhar lateral e ser um jogador de beirada de campo. Viu Ralf perder a posição por conta da saída de bola e tem usado Renato Augusto para esta iniciação das jogadas. Então há esperança.O debate de Paulo Henrique Ganso ter condições de virar um volante ou não é um pouco antigo. Principalmente pelo seu comportamento sem a bola. Espera-se dele um pouco mais de intensidade em suas ações, reações à perda da bola mais rápidas e, principalmente, senso de posicionamento, primordial em um volante contemporâneo. Por isso, esqueça aqueles volantões desarmadores, que fungam no cangote do adversário e vivem um jogo de contato físico nos 90 minutos.
Bons treinos - e argumentos, principalmente -, podem fazer de Paulo Henrique Ganso um novo jogador. E acredito que o mesmo tenha capacidade de entendimento do jogo para preencher espaços, fechar linhas de passe e dar qualidade nos primeiros toques da construção ofensiva. Comportamento só se cria com metodologia e muito treinamento. Mas a outra grande parte vai depender do próprio camisa 10.
Nem tudo está perdido para Ganso. Existe uma luz no fim do túnel. Nada que um bom trabalho e suor não possam fazer. Talvez ainda há camisa 10 da Seleção Brasileira lhe esperando, transferência para um gigante europeu ou temporadas mais decisivas em seu destino.
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