Após faturar muitos títulos no começo da década de 90 com um esquadrão comandado por Telê Santana, o São Paulo entrou em um período de "vacas magras". Fatores como mudanças na política, saída de jogadores, reforma do Morumbi e ascenção de rivais como o Palmeiras (gerido então pela Parmalat) fizeram o clube viver uma nova realidade.
Durante quase uma década, acostumado com um período vitorioso, o são-paulino viu jovens jogadores de muito talento passarem pelo CT da Barra Funda, mas sem conquistarem títulos expressivos. A torcida fazia enorme pressão para que os substitutos de Raí, Palhinha, Muller, Zetti e companhia, obtivessem os mesmos resultados.
"Nossa geração não ficou tão marcada, mas daquele elenco a maioria fez uma carreira de sucesso em outros clubes e até mesmo na Europa. Isso mostra que eram jogadores de qualidade", disse o ex-jogador Fábio Aurélio, hoje aposentado, ao ESPN.com.br.
Com apenas 20 anos, ele foi vendido ao Valencia, clube pelo qual teve uma passagem vitoriosa, mesmo convivendo com algumas lesões. Foi bicampeão espanhol (2002 e 2004), quebrando um jejum de 31 anos sem conquistas. "Fiz até um dos gols na partida final contra o Málaga em que vencemos por 2 a 0, foi muito especial", disse.
Na equipe espanhola, ele ainda seria vice-campeão da Uefa Champions League em 2001 e venceria a Copa da Uefa de 2004. Depois, foi levado pelo treinador Rafa Benítez ao Liverpool, onde faturou a Supercopa da Inglaterra e a Copa da Liga Inglesa.
Fábio Aurélio foi mais um caso em um grupo de atletas que se consagrou no "Velho Continente" após deixar o Morumbi.
O zagueiro Bordon foi ídolo no Schalke 04, um dos mais tradicionais da Alemanha. Belletti, que era contestado por parte da torcida, fez uma carreira repleta de conquistas como a Uefa Champions League pelo Barcelona e a Copa do Mundo de 2002. Serginho comandou a lateral por nove temporadas no Milan e venceu duas vezes o principal torneio de clubes europeu. Edu marcou época em times médios da Espanha como Celta e Betis.
Gandula do jogo mais triste do Morumbi
O lateral esquerdo começou nos gramados durante a infância em São Carlos, sua cidade natal. Aos 14 anos, foi fazer um teste no São Paulo e acabou aprovado nas categorias de base. Morava nas arquibancadas do Estádio Cícero Pompeu de Toledo e "quebrava um galho" como gandula em jogos do time principal, inclusive os decisivos. São-paulino desde garoto, ele recorda com tristeza a perda da Libertadores de 94 nas penalidades para o Vélez, da Argentina, em plena casa tricolor.

Fábio Aurélio foi revelado pelo São Paulo
"Eu estava atrás de uma das placas de publicidade no gramado repondo as bolas daquela partida. Vi quando o Palhinha errou aquele pênalti que o Chilavert pegou, foi um dia muito triste, nunca vi o torcedor daquele jeito. Poderíamos ter conquistado um tricampeonato, eu tinha acabado de chegar lá", recordou.
Mesmo no time de baixo, Aurélio tinha muita proximidade com os bicampeões mundiais. "Já convivíamos com eles e isso nos dava ainda mais vontade ser profissional. Depois dos jogos ficávamos falando com eles, batendo papo e era muito legal" recordou.
O ex-lateral tem boas recordações do atual treinador e do goleiro são-paulino. "Pegava muita carona com o Doriva para a minha cidade, ele já tinha um carrão (risos). Era uma época de pouca grana e sou muito grato à ele por tudo isso. Eu treinava muitas cobranças de falta com o Rogério Ceni e aprendi muito. Se hoje bate bem é porque ele treinava muito desde cedo", elogiou.
Tratado como uma das joias do Morumbi, Fábio Aurélio estreou no time de cima com apenas 17 anos. Uma de suas primeiras partidas com a camisa tricolor foi na última partida do Campeonato Paulista de 1997, vencido pelo Corinthians.
"Foi um jogo marcante para mim porque fiz meu primeiro gol como profissional e de cabeça. Pena que empatamos por 1 a 1 e perdemos o título", lamentou. No ano seguinte viria a vingança, pois o São Paulo venceu o Estadual diante do mesmo rival, além do Paulista de 2000, diante do Santos.
Só que a exigente torcida queria não se contentava apenas com conquistas regionais. Em 1999, o time foi eliminado pela equipe de Parque São Jorge nas semifinais do Campeonato Brasileiro, quando em uma partida o goleiro Dida defendeu dois pênaltis batidos por Raí. "A gente tinha um elenco muito bom, mas por causa de detalhes não fomos para a decisão", afirmou.
Outro jogo que não sai da memória do ex-jogador foi a decisão da Copa do Brasil de 2000 no Mineirão. O gol de falta de Geovanni aos 45 minutos do segundo tempo terminou com o sonho de voltar a disputar uma Copa Libertadores. "Aquele jogo foi doído, o título estava nas nossas mãos. Infelizmente foram boas oportunidades que deixamos de conquistar", lamentou.

Fábio Aurélio foi campeão pelo Valencia