Tenho olhado os números do Custo do Futebol de oito de nossos clubes. Pois é, era para mostrar os números de doze ou, preferencialmente, dos vinte clubes da Série A, mas faltam informações. Hoje nem tanto, mas para ter uma pequena visão panorâmica as que existem não são suficientes. Alguns dos números vistos são estrondosos, bonitos, grandões. Números que já foram grandes até mesmo em euros ou dólares, antes da debacle de nossa economia. Belos números... Eles, porém, não escondem e até evidenciam nosso atraso em relação aos clubes europeus. Não todos eles, é claro, mas em relação aos muitos bons clubes europeus. Se é para comparar, temos que nos comparar com o que há de melhor, naturalmente.
Enquanto pensava nesses números, bati os olhos na matéria do jornal Folha de S.Paulo de quarta-feira, feita com o novamente demitido ex-CEO são-paulino, Alexandre Bourgeois, um CEO bidemitido. Opa, temos aqui uma nova categoria e até um novo vocábulo: bidemitido.
O cerne de sua entrevista é um só: o atraso.
O atraso em que vivem nossos clubes, nesse caso em particular o São Paulo, graças aos esforços dantescos de seus últimos gestores em fazer do clube do Morumbi o grande líder tupiniquim nesse quesito. Estão sendo bem sucedidos, tanto que, em poucos anos, o que era considerado o clube mais moderno e melhor administrado do país passou a viver mergulhado numa crise política e moral que parece não ter fim.
O mais incrível é que essa crise reflete pouco ou menos do que era de esperar sobre o time profissional, ainda disputando o G4, e sobre a base – o importante time sub 20 está na final do Brasileiro da categoria.
Credito isso à, ainda, forte e sólida estrutura montada pelo São Paulo no decorrer de muitos anos. Um amigo, o Vinicius Paiva, editor do excelente blog Teoria dos Jogos, credita isso a uma cultura vencedora. Em ambos os casos o que está por trás é boa gestão. Importante: boa gestão para uma outra época. Para os dias de hoje a boa gestão do passado não é mais suficiente.
O atraso que domina nossos clubes começa pela estrutura de nosso futebol, gerida, até hoje, por uma legislação importada da Itália fascista de Benito Mussolini, pelo igualmente fascista e ditador Getúlio Vargas, no final da década de 30 e implantada em 1941, pelo Decreto Lei 3199, em plena Segunda Grande Guerra, muito antes da virada do governo brasileiro, forçado pela opinião pública, em plena ditadura, a tomar o partido das forças aliadas contra o nazifascismo.
É raro esse fato histórico ser destacado, como também é raro que a história dê nomes corretos aos nossos bois, mantendo uma aura e fortalecendo falsos mitos em torno de figuras que contribuíram apenas para nos deixar na rabeira do desenvolvimento político e cultural do Século XX. Recentemente, por sinal, o advogado e professor Pedro Trengrouse abordou esse ponto em explanação feita numa Comissão do Senado que estuda uma nova legislação desportiva para o Brasil, consolidando em uma só as diferentes leis que hoje regem nosso esporte e, pelo vulto, principalmente o futebol. Em sua apresentação, ele destacou que a base de nossa legislação ainda é o Decreto-Lei 3199.
Voltemos ao presente e ao bidemitido CEO.
Bourgeois disse que o motivo maior de sua demissão foi a estrutura de poder existente no São Paulo, que é muito rígida e tocada por diretores numa faixa de idade bastante alta, ao redor dos 70 anos. Como ele diz, idade não é problema, e não é mesmo, além de muitas vezes ser a solução ou parte dela, emendo eu. O problema está, sim, no fato de essas pessoas terem suas cabeças ainda nos anos 80. E desde aquela época o futebol mudou, evoluiu muito. Para o ex-CEO, o futebol brasileiro vive uma crise, “porque não tem gestão, profissionalização ou governança”. Penso que essa crise é muito profunda e a base de nosso atraso, como bem já sabe o leitor deste OCE.
Uma das razões que levam a isso está na falta de renovação de lideranças, que tem sua origem na ausência de democracia nos clubes brasileiros, de uma maneira geral. Entretanto, mesmo os mais democráticos, como o Internacional, que acredito ser o mais democrático de todos, sucumbem ao peso da rigidez da estrutura, o que o levou à perda de Aod Cunha, que foi o primeiro CEO num clube brasileiro. Aod foi derrotado pelo futebol, pela estrutura do futebol.
O planejamento de Bourgeois conduziria a uma direção profissionalizada e paga. Ora, esse tipo de comando tira espaço e visibilidade dos dirigentes tradicionais e mexe com toda a estrutura interna de poder. Poucas instituições têm tantos diretores por metro quadrado quanto um clube de futebol. E diretores-adjuntos. E vice-diretores.
Existe uma lógica para isso: votos. O voto conjunto de uma família e amigos pode fazer uma grande diferença em colégios eleitorais pequenos, como são os dos clubes de futebol, em que algumas dezenas ou poucas centenas de conselheiros escolhem o presidente. Mesmo em colégios maiores, onde os sócios podem votar para eleger o presidente, esse tipo de nomeação mantém sua importância. Qualquer semelhança com o cenário político nos estados e na União não é mera coincidência.
Barganha-se por votos.
Uma carteirinha e uma vaga no estacionamento têm um peso muito grande. Com isso, muitas carteirinhas são impressas, muitas vagas de diretores são criadas, muitos votos são garantidos (ou ministérios, por exemplo).
Vaidade, teu nome é mulher. Essa frase marcou época há muitos anos. Hoje seria diferente, algo como “Vaidade, teu nome é diretor de clube”.
Gerir um clube grande no Brasil é uma tarefa enorme. Demanda o mesmo ou mais tempo ainda que gerir uma empresa de porte até menor que o de um grande clube. Mas...
Tenho um grande amigo que é diretor de um grande clube, de uma área fundamental para seu presente e seu futuro. Esse amigo é diretor de fato. Só não dorme em seu local de trabalho porque tanto quanto ama o clube ama sua família. O tempo para sua empresa foi reduzido ao mínimo – formou seus filhos bem o suficiente para serem gestores tão bons quanto ele – e com isso ele inverteu seu eixo de vida. Considerando o tempo de trânsito na ida e na volta, ele trabalha para o clube das sete (da manhã) às oito (da noite) ou mais um pouco alguns dias. Meu amigo, infelizmente, é uma exceção no quadro geral de dirigentes.
O mais comum é o dirigente dedicar-se ao clube “das cinco às oito”. Das cinco horas da tarde às oito horas da noite. Nesse período, ele precisa encontrar e conversar com as pessoas que trabalham em sua área. Elas trabalham das “oito às cinco”. Quando ele chega, elas deveriam estar saindo. Não dá, algumas têm que ficar para conversar com o chefe. Que tem reuniões urgentes com seus colegas de diretoria, todos eles também diretores das “cinco às oito”. E é de lei e de praxe dar um oi para o presidente. Que pode até estar assoberbado com mil coisas por fazer, mas não vai se furtar a “cinco minutos” de prosa com seu diretor. E mais “cinco” com outro e com outro e com outro...
Tal como faz um diretor de empresa, o diretor de um clube deveria chegar ao seu escritório logo cedo, como os demais funcionários, e trabalhar durante todo o dia, avançando noite adentro nos dias de jogos. Tal atitude, porém, pode e deve ser cobrada de funcionários remunerados, mas não dá para ser cobrada de um diretor que trabalha por amor ao clube.
Dá para entender o porquê da necessidade de direção profissionalizada e remunerada?
Em algum momento nossos clubes precisarão mudar suas estruturas para poderem sobreviver às exigências dos novos tempos.
Já é possível perceber que esse será um parto dos mais difíceis.
O momento que vive o São Paulo tem pontos próprios, específicos, mas se ignorarmos nomes e alguns fatos, veremos que, basicamente, o clube vive os mesmos problemas que a maioria dos grandes clubes brasileiros.
Bourgeois diz que os clubes precisarão de muita eficiência para sobreviverem e se manterem fortes, principalmente porque os recursos financeiros já não são abundantes e precisam, portanto, ser empregados da melhor maneira possível.
O que reforça a necessidade de profissionalização das gestões.
Outra frase dele reflete bem seu pensamento:
“Paixão não resolve. No futebol de hoje, ninguém trabalha por paixão, nem jogadores nem treinadores. O que a sua emoção vai fazer contra os 700 milhões de euros de faturamento do Real Madrid? No Brasil, somos atrasados que achamos que sabemos de tudo. E aí acontece o 7 a 1 para a Alemanha e acham que está tudo bem.”
Um dos problemas que sentiu no São Paulo (e que Aod Cunha sentiu no Internacional e outros dirigentes profissionais sentem em todos os clubes) foi o peso da política nas tomadas de decisões, seja influenciando-as, seja retardando-as.
Mais um fato que leva à necessidade de repensar o modelo atual de direção. E, lembrem-se do que disse acima: quanto mais diretores, mais gente para interferir, mais interesses para serem atendidos ou “toureados”.
Nosso atraso é estrutural, está fortemente fincado nas estruturas diretivas e, muito pior, nas cabeças dirigentes.
Para fechar, novamente uma declaração de Alexandre Bourgeois ao jornal:
“No mundo globalizado, ou você se torna eficiente para competir ou assume de vez que quer ser amador. Para ter eficiência, você precisa se profissionalizar. Basta lembrar o que aconteceu durante o período das privatizações no Brasil. Muita gente reclamou na época, mas imagine o que seria a Telebras hoje se não tivesse sido privatizada. Veja a Petrobras, esse antro de roubalheira.”
Em suma: mudar é preciso, ficar como está não é possível.
O atraso estrutural do futebol brasileiro e a nova demissão do CEO do São Paulo
por Emerson Gonçalves
Fonte Olhar Crônico Esportiv
13 de Novembro de 2015
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