Hoje sensação com Osorio, bilhetinhos já faziam sucesso há 30 anos no São Paulo

Fonte Site Oficial
Foto: Gazeta Press
O hábito de mandar bilhetinhos aos jogadores é uma das práticas do técnico Juan Carlos Osorio que mais chama a atenção entre os torcedores do São Paulo. Talvez sem saber, o colombiano adota uma prática que já foi muito utilizada no clube do Morumbi.
O precursor disso foi Otacílio Pires de Camargo, o Cilinho, treinador que há mais de 30 anos ajudou a revelar para o futebol uma geração conhecida na década de 80 como "Menudos do Morumbi", que tinha jogadores como Silas, Muller e Sidney. O rígido comandante já escrevia mensagens aos atletas.
"A gente brinca que nada se cria tudo se copia (risos). Ele não usava canetas diferentes nem mandava no meio do jogo como o Osorio. Era mais na concentração, sempre colocava embaixo do prato da gente na hora do almoço", recorda Silas, ex-jogador do 'Tricolor', em entrevista ao ESPN.com.br.
O campeão paulista de 85 e 87 usava as mensagens também para motivar seus jogadores. "Na Libertadores, um jogador do Colo Colo falou que ia atropelar a gente. O Cilinho recortou o jornal e fez cópias para cada um. A gente entrou mordido em campo (risos)", recordou Silas.
Um ensinamento do mestre não saiu da cabeça do campeão da Copa do Nordeste pelo Ceará neste ano. "Ele dizia que o jogador comum via a jogada acontecer, já o craque antevia a jogada, ou seja, sabia antes o que ia acontecer", rememorou.
Além dos bilhetes, nas palavras de Silas, o ex-comandante do São Paulo era um visionário em outros setores do futebol. "Muito do que acontece hoje ele já previa mais de 30 anos atrás, como treinos com campo reduzido, utilizava psicólogos para ajudar os atletas. Além disso, levava um cara que foi ministro da economia para falar de finanças com a gente, trazia pessoas do teatro para dar palestras. Ele se preocupava muito com o ser humano também", disse.
O conhecimento do ex-técnico de 76 anos era tão grande que impressionava até os próprios jogadores.
"Ele enxergava o jogo bem demais. Uma vez, no interior pelo paulista, percebeu que o Careca não estava bem e o tirou no intervalo. Ele falou assim: 'Vamos ganhar pelo lado direto com o Silas, Zé Teodoro e Pianelli, que entrou no lugar do Careca'. Não deu outra, o que ele falava, acontecia".
Contra o Palmeiras, adversário deste final de semana pelo Campeonato Brasileiro, Silas conta como uma vez fizeram uma armadilha para os defensores rivais.

"Ele mostrava qual lado o zagueiro marcava melhor e mandava nas duas primeiras bolas que a gente tentasse passar por aquele lado, para dar confiança para o adversário. Na terceira, era para pegar de surpresa pelo lado ruim, que o cara não esperava. Dava certo e a gente ficava de boca aberta comentando: 'O cara sabe demais (risos)'", recordou.
Alguns conselhos do mestre seguiram como lemas para o ex-atleta. "Qualquer jogo que você fizer, sempre terá alguém olhando. Se tiver apenas uma pessoa no estádio, se empenhe e dê tudo na partida", disse Silas.
Cilinho era um disciplinador, mas mostrava seu lado bem humorado até na hora das broncas. "O Márcio Araújo uma vez foi tentar sair jogando e perdeu uma bola. Então o Cilinho falou nervoso para ele assim: 'Dá um bico nessa bola, manda pro cemitério que o coveiro é meu amigo. Na segunda ele traz a bola de volta pra nós (risos)", divertiu-se.
Outra prática comum do técnico era usar os jogadores como carregadores de relíquias para sua loja de antiguidades em Campinas. "Toda vez que jogávamos no Norte ou Nordeste, ele comprava aquele monte de coisas. Ele dava para os moleques mais novos trazerem na viagem. E o medo de quebrar o negócio? (risos)", gargalhou Silas.
O ex-meia cansou de carregar objetos importantes para Cilinho, mas uma vez perdeu uma relíquia particular para o comandante após vencer a Itália por 1 a 0, às vésperas da Copa de 90.
"Fui eleito o melhor do jogo e troquei camisa com o Giannini. Quando cheguei ao Morumbi, todo feliz, ele fala assim: 'Trouxe ela para mim?' Eu pensei: 'Caramba não tem jeito vou falar o quê? Trouxe sim professor, sexta te entrego'. Dei a camisa com uma dor no coração, ela acabou desfalcando a minha coleção (risos)", divertiu-se Silas.
Mesmo assim, o pupilo acredita que o objeto foi uma pequena retribuição aos ensinamentos que recebeu em tanto tempo. "Tenho muito carinho e uma dívida eterna de gratidão com ele", observou.
Quando ainda não tinha carro, todo final de jogo ele pegava carona com Cilinho até Campinas e iam conversando. O assunto era futebol, certo?
"Nunca falava sobre a partida, ele sabia separar muito bem as coisas. Ele perguntava sobre a minha vida, sobre a namorada, qualquer assunto menos bola (risos)". Silas só lamenta não ter guardado uma das mensagens que talvez fosse uma relíquia com um valor sentimental, que dinheiro nenhum no mundo possa comprar.
"Ele uma vez escreveu que a gente deveria andar descalço num jardim com flores, conviver com a natureza, mas que o futebol era um esporte viril. Era um cara muito sério e fechadão, mas às vezes tirava uma coisas do nada, meio de filosofia sabe?", concluiu.
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