Se no jogo de ida das finais da Libertadores de 1992 o São Paulo tinha perdido grandes chances de sair de Rosário com um grande resultado, no jogo de volta, em 17 de junho, exatos 22 anos atrás, era o Newell's Old Boys que, como visitante, estava desperdiçando chances de ouro que lhe garantiriam o título em pleno Morumbi. E os argentinos nem precisavam de mais do que um empate, pois tinham vencido em casa por 1 a 0. O primeiro tempo havia sido equilibrado em termos de chances, mas, agora no segundo, era o time argentino que tinha chegado mais perto de abrir o placar, enquanto o São Paulo nem sequer tinha entrado na área adversária com a bola dominada.
O técnico Telê Santana, então, ordenou que o atacante Macedo se aquecesse. A torcida vinha pedindo sua entrada, em alto e bom som, desde o intervalo, apesar da relação tumultuada entre as duas partes, que piorava quando o jogador ficava algumas partidas sem marcar gols, mas melhorava sempre que ele entrava no segundo tempo e decidia uma partida. Embora seu último gol tivesse sido mais de um mês antes, ele acontecera justamente nessas condições, no jogo contra o Criciúma no Morumbi, pelas quartas-de-final, e dera a vitória ao Tricolor pela contagem mínima.
"Vai lá, garoto", falou Telê. "A torcida está pedindo para você entrar, então agora é com você." Macedo entrou pouco antes dos vinte minutos, com a missão de abrir espaços na área argentina. Ele acabou fazendo muito mais do que isso, já em sua segunda participação no jogo. Após receber a bola de Palhinha na área, passou por entre dois zagueiros e teve sua camisa segurada por Gamboa e aproveitou a deixa para cair. "Acho que, se não fizesse isso, o árbitro não marcaria nada", contaria depois. Como ele fez, o árbitro marcou: pênalti.
A lógica - e este é um conceito perigoso para se usar num jogo de futebol - dizia que o São Paulo estava perto de igualar o placar da ida, o que, na pior das hipóteses, levaria a decisão para a disputa de pênaltis. Raí garantiu que a lógica prevalecesse, ao partir decidido para a cobrança, deslocando o goleiro Norberto Scoponi, que foi para sua esquerda, enquanto a bola entrou, sem muita força, do outro lado.
Ao Newell's, a decisão por pênaltis passava a ser a melhor opção. Ao São Paulo, não deveria ser, mas o time não mostrou futebol o bastante para evitá-la após marcar seu gol. Sem mais nenhuma grande chance criada por nenhum dos times, o árbitro optou por encerrar a partida com apenas quinze segundos de acréscimo. O lotado Morumbi veria, pela primeira vez, uma decisão nos pênaltis, com um bom presságio: nas duas outras ocasiões em que o São Paulo decidiu assim, ambas fora de casa, saiu com a vitória o título, nos Brasileiros de 1977 e 1986.
OS PÊNALTIS
Eduardo Berizzo, que marcara, também de pênalti, o único gol do jogo de ida, abriu as cobranças e carimbou a trave de Zetti. Em seguida, Raí marcou seu segundo gol de pênalti da noite, no mesmo canto - desta vez, Scoponi pulou para o lado certo, mas o resultado foi o mesmo. Seguiram-se acertos de Julio Zamora, Ivan e Juan Manuel Llop, e o placar estava empatado por 2 a 2, com o Newell's tendo chutado uma vez a mais.
O problema é que Ronaldão, o próximo a cobrar, chutou no meio do gol. Scoponi parecia saber que isso aconteceria, não se mexeu e defendeu. Felizmente para Ronaldão e para os são-paulinos, Alfredo Mendoza chutou por cima do gol e Cafu restabeleceu a vantagem são-paulina, sob os gritos de "É campeão" que vinham das arquibancadas. Esses gritos eram precipitados, pois ainda faltava uma cobrança para cada lado.
Coube a Zetti acelerar a alegria da torcida, após a cobrança de Gamboa. A bola não subiu muito; provavelmente pouco mais de um metro. Também não foi tão perto da trave. O ponto exato da meta não importa muito, porque ela nunca chegaria lá, impedida que foi pelas mãos do goleiro são-paulino. Bola espalmada para fora. O placar permanecia marcando 3 a 2 para o Tricolor, sem mais nenhuma penalidade a ser cobrada pelo Newell's. Pintado nem precisaria fazer a sua cobrança. São Paulo campeão.
Foi a senha para milhares de torcedores invadirem o gramado, numa festa tão grande que o gramado deixou de ser visível embaixo de um mar de gente feliz. Jogadores foram carregados e pedaços do Morumbi foram levados como lembrança. Telê, por sua vez, estava feliz como poucas vezes de viu: "Se o São Paulo tivesse vencido com um gol roubado, com catimba e pancadaria, eu não estaria feliz agora."
Pouco mais tarde, Raí levantou o troféu, oficializando o caso de amor com a Libertadores que o São Paulo mantém até hoje, mais de duas décadas depois.




