A notícia mais coerente que vi nesses últimos tempos sobre o São Paulo
Opinião: São Paulo, caia na real, entenda que todos estão errados
Falhas de jogadores, teimosia do técnico, omissão da diretoria, interesse de Conselho e abandono da torcida: mais do que resultados, clube precisa de mudanças profundas
Por Alexandre Lozetti
Depois do empate por 1 a 1 contra o Trujillanos, da Venezuela, o São Paulo ainda tem chances de se classificar para as oitavas de final da Libertadores. Depende só de si. Talvez fosse melhor depender dos outros. Mas, enfim, está aí mais uma muleta que vai impedir o clube de dar passos necessários nas próximas semanas. Há esperança de avançar heroicamente e, num passe de mágica, sair da mediocridade para a glória. Ilusão!
Está mais do que na hora de o São Paulo cair na real. Jogadores, comissão técnica, dirigentes, conselheiros, torcedores... Nenhum deles é responsável direto pelo buraco em que o clube se enfiou nos últimos anos, mas todos são cúmplices.
MAIS: Bauza e Ganso decretam "missão 100%" para São Paulo se classificar
A renúncia de Carlos Miguel Aidar e a eleição de Carlos Augusto de Barros e Silva, no ano passado, configuraram um momento histórico que está sendo desperdiçado pelo São Paulo. Em vez de aproveitar a chance para mudanças profundas e verdadeiras, o clube segue trabalhando pelo resultado de daqui a três dias, pressionado, claro, pela torcida e por uma oposição sedenta, que às vezes está mais próxima do que se imagina do poder.
Pelo que não joga este São Paulo, a possibilidade de avançar na Libertadores é minúscula. E será preciso uma dose cavalar de humildade para reconhecer: a eliminação será normal. Diante de tantos e sucessivos erros, de todos os lados, surpreendente seria a classificação.
Abaixo, um resumo do que o São Paulo faz errado – e não faz certo.
Jogadores
A iminente eliminação na Libertadores tem, em cinco jogos disputados até agora, dois pênaltis perdidos, falhas individuais incríveis e seis bolas na traves. Paulo Henrique Ganso é um dos que desperdiçaram chances fundamentais, mas como atacar o camisa 10, que tem jogado sozinho “contra a rapa”?
No futebol de hoje, pelo mundo, discute-se a estrutura tática, conceitos que independem de sistemas, como a recomposição, a compactação, a transição rápida, a agressividade nos movimentos com e sem a bola... O São Paulo é tão amador que tudo isso vira supérfluo diante da permanente dúvida sobre a disposição de seus atletas em ganhar. Quarta-feira estão a fim, domingo nem tanto, na outra quinta, então, bate a preguiça. Sábado? Soninho... E por aí vai.
As falhas em lances cruciais e a ausência de uma conduta linear, o predomínio do acaso e do pouco caso, freiam qualquer tentativa de evolução.
Comissão Técnica
Edgardo Bauza assumiu num momento de dificuldade, tem currículo vitorioso e bons métodos a implantar no futebol brasileiro, mas não se pode fechar os olhos para seus erros. Ele também está mais preocupado em ganhar amanhã do que em mudar o futebol do São Paulo. Apoiado numa forma retrógrada de praticar futebol, toma decisões que beiram o inexplicável.
Todos no clube trataram o jogo contra o Trujillanos como uma final. Patón, então, decidiu poupar Maicon, o melhor defensor, de longe, do elenco. Poupar numa final? Não há justificativa aceitável.
No seu 4-2-3-1, os lados são fundamentais. Jogam abertos no São Paulo Carlinhos e Centurión. Um lateral improvisado na frente e um argentino que trata a bola como se fosse um meteorito. Os centroavantes estão travados. Não podem ser esses os jogadores protagonistas de um sistema tático. Ou mudam as peças ou a maneira de atuar.
O elenco não é brilhante, está bem longe disso, mas tem peças a serem mais usadas. Algo que Juan Carlos Osorio fazia tanto – que às vezes até exagerava.
Diretoria
A boa solução na saída de Kieza, financeira e esportiva com a chegada de um jovem talentoso, não apaga o fiasco institucional da aposta num reforço como o atacante. O São Paulo se orgulha de priorizar aspectos profissionais e pessoais nos jogadores que contrata. Se é assim, errou, falhou na avaliação. Como tem falhado em outros que chegam e pouco ajudam.
Estão corretíssimos em exigir mais do grupo, mas também precisam exigir mais de si mesmos. Parece não haver habilidade para lidar com figuras pontuais. Ou será que nenhum elenco tem boa conduta? Não é fácil atuar com um Conselho interesseiro e todas as artimanhas políticas que correm nas veias do clube, mas ninguém achou que seria fácil quando toparam suceder Aidar.
LEIA: Dirigente vê empate frustrante do São Paulo, mas acredita em classificação
A missão de Leco e companhia não é ganhar a Libertadores, e sim resgatar o São Paulo. Por enquanto, trata-se de uma gestão honesta – o que, apesar da anterior, é obrigação –, mas pouco corajosa. É preciso se desgarrar de resultados enganosos, afastar definitivamente quem não está disposto a ajudar, romper com torcedores que apoiam baseados em caraminguás, ter convicção do clube e do time que se espera nos próximos dois, cinco, 10 anos. Bem diferente deste atual.
Depois do 6x1 do Corinthians, no ano passado, Leco prometeu uma reformulação profunda. No empate contra o Trujillanos, nove dos 11 titulares eram remanescentes do ano passado. Maicon e Calleri, contratados por seis meses, estavam fora – um poupado, o outro suspenso. Resumindo: o São Paulo não mudou. Ficou na promessa. Ainda há tempo, mas é preciso coragem.
Conselho
A essa altura, Abílio Diniz certamente já enviou textos aos conselheiros e postou críticas em seu blog. Brilhante empresário e torcedor mimado, ele não se conforma em ver Milton Cruz longe do banco de reservas e, consequência, sentir-se alijado de palpitar no time de futebol. Outro dia, reclamou que os dirigentes quiseram a grife de Edgardo Bauza, mas não teve coragem de dizer que indicou Guto Ferreira para comandar o São Paulo na Libertadores.
Tanto ele quanto os conselheiros do clube mais atrapalham do que ajudam. Depois que Juvenal Juvêncio e seu poder opressor deixaram o Morumbi, muita gente se viu apta a morder um pedacinho do clube. Não se trata de desonestidade, e sim de ambição, da tara de contar ao vizinho que tem influência no time do coração.
O modelo político do São Paulo, com dezenas de vitalícios, é pobre. A eleição de abril do ano que vem já fala alto. Leco e seus homens mais próximos precisam também reformar o clube nesse aspecto. Eles têm capacidade para isso. Terão coragem? Como vão querer ser lembrados? Como mais uma diretoria ou aquela que impulsionou o retorno às glórias?
Torcida
Há três desestímulos neste início de ano: o ingresso caro, o Morumbi fechado e as brigas entre comuns e organizados. Sem falar que o sócio-torcedor se sente um idiota ao pagar mensalmente para frequentar o mesmo local em que organizados recebem ingressos do clube – o próprio presidente Leco admitiu.
Isto posto, é lamentável a relação predatória da torcida das redes sociais. Dizem que “vou apoiar por que se os caras ganham milhões e não suam a camisa”? Ora, torcer por uma equipe de futebol é uma relação de amor. E não há momento mais adequado para demonstrar amor do que nas horas ruins. Não há sentimento de colaboração, apenas de cobrança.
É compreensível, mas não ajuda. Uma parte é financiada, a outra se afasta, sem falar nos blogueiros que se acham dirigentes – da situação e da oposição. Amor? Está passando longe...
Solução ?
A pergunta final: quem, então, deve sair? Na minha visão, ninguém. Leco é honesto e bem intencionado, bem como Ataíde Gil Guerreiro e Gustavo Vieira de Oliveira, diretor que entende mais de futebol do que todos os outros cartolas tricolores juntos. Edgardo Bauza tem currículo e caráter para liderar uma transformação. Há jogadores de brios e talento.
Mas o caminho para o São Paulo deixar a mediocridade rumo à glória não é se classificar na Libertadores. Só mudanças mais profundas e corajosas mudarão os rumos tricolores. Hoje, estão todos errados. Em vez de apontar o dedo para o erro do outro, é preciso esticar a mão e ajudar. Desde o camisa 10, até o torcedor, passando pelo técnico, o presidente, o diretor, o conselheiro e o milionário palpiteiro.
Fonte: http://globoesporte.globo.com/futebol/times/sao-paulo/noticia/2016/03/opiniao-sao-paulo-caia-na-real-entenda-que-todos-estao-errados.html
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