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Emerson Gonçalves tem toda razão !!!!

Depois de vários dias de intensas discussões sobre a escolha pelo clube da emissora com que fecharia o contrato de transmissão para o período 2019/2024, o Conselho Deliberativo do clube aprovou a escolha que havia sido feita pela diretoria de forma unânime, após analisar e discutir as propostas do Esporte Interativo e da Globo.

Durante vários dias a discussão foi acalorada entre conselheiros, sócios e torcedores, e ficou ainda mais com o vazamento da proposta do Esporte Interativo dentro do clube. Posteriormente, até para esclarecer alguns pontos, o vice-presidente de futebol, Ataíde Gil Guerreiro, apresentou os valores da proposta da Globo para o jornalista Luiz Augusto Simon, o Menon, que havia comentado a respeito em seu blog, e a discussão prosseguiu.
A proposta vencedora, no fim, a da Globo, foi apresentada ao clube horas antes do início da reunião.
Há quem não goste, há quem não tenha gostado do que aconteceu e da decisão, mas o que tivemos foi uma demonstração clara e até didática do mercado livre em ação, da concorrência, da disputa entre diferentes players favorecendo ao cliente.


Uma pausa ligeira: imaginem-se dentro de seus carros no posto de combustível, o tanque de gasolina vazio, e lá na frente algumas empresas disputando para ver quem te oferece a gasolina melhor e mais barata.
Impossível, né?
Sabem por quê?
Porque existe um monopólio. Criado e protegido por lei.
Com isso, não há disputa, não há concorrência e somos obrigados, todos, indistintamente, a pagar o preço que a empresa beneficiada pelo monopólio determinar. Porque ela não tem concorrência.
Isso é monopólio. Nesse posto hipotético as empresas brigariam para nos vender gasolina mais barata. Nesse episódio do futebol, ao contrário, vimos duas empresas disputando para vencer pagando mais e dando mais vantagens ao dono de um bem que elas desejam.
É preciso deixar clara essa obviedade, porque virou moda no Brasil chamar alguma coisa com um nome que não é verdadeiro, mas que combina com os interesses de quem o usa.


Voltando ao assunto do post: vimos ontem o mercado em ação, livre.
Sem monopólios, sem protecionismos legais.
Duas propostas foram apresentadas, ambas ótimas, ambas representando grandes avanços sobre negociações anteriores. E um cliente, ops, um clube recebeu-as, discutiu-as internamente e optou por aquela que considerou melhor.
Se a decisão foi certa ou errada para visões externas, não importa. O clube decidiu de forma independente, dono de seu próprio nariz e de seu destino.
Essa é a essência do negócio e do capitalismo, algo a que nós, brasileiros, pouco ou nada acostumados estamos. E muitos de nós temos, ainda, saudades de coisas como a Lei da Informática, da mesma forma que defendemos monopólios pré-históricos.
A competição nos é estranha. Curioso, não?

O avanço e o conformismo

O avanço para o mercado, para os clubes, se deu em três diferentes pontos:
- Crescimento dos valores – a transmissão em canais fechados cresceu quase 10 vezes em relação ao presente; o total do valor anual pago por essa mídia evoluiu de cerca de R$ 60 milhões em 2016 para R$ 500 milhões a partir de 2019, para serem divididos entre os 20 clubes (ou valor proporcional entre os que assinarem) e mais a luva no valor de R$ 60 milhões, essa exclusiva do São Paulo e que será paga imediatamente;

- Distribuição dos valores pagos a partir de 2019, agora com um velho desejo da maioria dos clubes entrando em vigor:
- 40% do total dividido em partes iguais entre os 20 clubes da Série A;
- 30% dividido de acordo com o mérito esportivo;
- 30% dividido de acordo com a exposição do time nas transmissões.

- Concorrência real pelos direitos, algo que até hoje não tinha existido para o Campeonato Brasileiro, exceto uma única vez, em 2011, quando a Rede TV apresentou uma proposta formal para o Clube dos 13.


O conformismo dos clubes é o mesmo de sempre, é o mesmo que vem sendo apontado e criticado nessas páginas digitais há muito tempo: os clubes não se mobilizam, não se unem, não criam uma liga e, por meio dela, não brigam por seus interesses coletivos.
Todos admiram, elogiam e fazem comentários maravilhosos sobre a Premier League, ignorando o fato básico a respeito dela: foi criada pelos clubes ingleses. United, Liverpool e Arsenal, potências da época, não gostaram da divisão do dinheiro dos direitos de transmissão de seus jogos, mas prevaleceu a união e a certeza de que poderiam avançar muito mais juntos do que separados.

Nesse episódio envolvendo os direitos de transmissão em sinal fechado do São Paulo, destaco as posturas das duas emissoras, que se dispuseram a pagar os direitos de transmissão de uma forma mais interessante para o conjunto dos clubes, e a posição assumida pelo São Paulo, por meio de seu vice-presidente de futebol, Ataíde Gil Guerreiro, de reforçar e colocar em contrato essas mudanças.
Ataíde era o diretor-executivo do Clube dos 13 em 2011 quando foi apresentado um edital para licitação que eu critiquei por considerar irreal, impossível, simplesmente, de ser atendido. Apesar disso, ele envolveu-se com o assunto “direitos de transmissão” e, portanto, mais do que a maioria dos dirigentes conhece bem essa questão, o que levou o presidente do São Paulo a passar-lhe a responsabilidade pelas negociações. Inegavelmente, Gil Guerreiro cumpriu bem o que lhe foi designado e conseguiu agora alguns pontos que já tinha em mente em 2011.

Os porquês da escolha do São Paulo

Vários pontos pesaram na decisão do São Paulo FC pelo acordo com a Rede Globo (quando se fala em Globo nesse caso é sempre o conjunto das emissoras, de sinal aberto, fechado e pago – o PPV), começando pela relação existente há anos entre o clube e a emissora e pelo histórico da própria emissora. É comum em negociações empresariais que o fornecedor atual tenha a preferência numa renovação, mesmo que isso não conste em nenhum contrato, desde que tenha cumprido bem com suas obrigações. As pessoas, e por extensão as empresas, têm a tendência a se manter numa zona de conforto sempre que possível, ao invés de mudar. O que só fazem por necessidade ou por vantagens muito significativas. Essa característica cultural também costuma ter um valor.
Pesou, igualmente, a percepção que o clube teria mais a ganhar em termos de exposição ao fazer parte de um grupo com clubes de maiores torcidas, pois o Corinthians já assinou com a Globo e a diretoria acredita que Flamengo e Palmeiras farão o mesmo, talvez não nesse ano, já que não estão pressionados por dívidas imediatas, mas em 2017.
Outro ponto importante: o São Paulo negociará a publicidade estática do Morumbi, operação que poderá levar mais R$ 10 milhões para os cofres do clube, o dobro do que ocorre hoje.
Estrategicamente, porém, eu pessoalmente acredito que a mudança no formato de distribuição das verbas teve um peso decisivo para o São Paulo. É uma mudança que dará ao Tricolor, considerando temporadas normais, maior competitividade contra Flamengo e Corinthians.

Dinheiro já para dívidas pesadas

Segundo a auditoria realizada pela PwC, a Price WaterhoCoopers, a dívida do São Paulo é hoje de R$ 250 milhões. Desse total, R$ 70 milhões se referem às dívidas tributárias, já equacionadas e em processo de pagamento pela adesão ao PROFUT. Outros R$ 180 milhões são dívidas com bancos, principalmente, e fornecedores.
O grande problema do clube, entretanto, é a dívida imensa a ser paga a curto prazo, ou seja, no decorrer desse ano corrente. O valor dessa dívida é de espantosos R$ 120 milhões, dois terços da dívida não tributária total.
Deixar que tamanho peso da dívida vença num período curto é uma falha absurda na direção financeira do clube, falha, é bom que se esclareça mais uma vez, que vem de outras gestões e não da atual.
Superar essa realidade, que o leitor desse OCE conhece e acompanha em detalhes desde 2010, mas sobretudo a partir de 2012, é a missão mais importante da atual direção. Não se consegue construir o futuro de longo prazo sem passar, primeiro, pelo futuro de curto ou curtíssimo prazo.
Tal missão está longe de ser fácil.
Mesmo com a injeção imediata dos R$ 60 milhões que serão recebidos como luva pelo novo contrato, o clube terá que buscar recursos para bancar o elenco, cuja folha já foi reduzida a pouco mais da metade do que era em 2015, pagar fornecedores e pagar o serviço da dívida financeira, além de amortizar o que for possível.
A saída primeira e mais óbvia é negociar para alongar o prazo dessas dívidas, mas, aparentemente, isso não será possível com boa parte dela.
O ano de 2016 será muito difícil para o São Paulo. Para ameniza-lo, conseguir um bom patrocínio máster se torna fundamental. Igualmente fundamental será o desempenho do time no Paulista, na Libertadores e no Brasileiro, pois se jogar bem levará a torcida ao Morumbi, gerando boas rendas, e aumentará o faturamento com o programa de Sócio-Torcedor, receitas essenciais para as contas do dia a dia.

É isso. Podem anotar que uma nova fase para nosso futebol começou na noite de ontem.
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