Homenagem - Careca (grande)

Homenagem - Careca (grande)

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Existiu no Brasil um palhaço chamado Carequinha. George Savalla Gomes, falecido em 2006. Carequinha gravou CDs, apresentou programas na TV, e criou bordão que animou gerações: “Tá certo ou não tá?”, ele dizia. Antes de brilhar no São Paulo, no Guarani, na várzea, Careca foi um dos cativados pelo trabalho do palhaço, daí o apelido do homem que protagoniza esse texto.

Desta vez faço nessas linhas homenagem a meu pai. São-paulino de 44 anos que embora garanta estar vacinado quanto ao delírio que é o futebol, não se desliga um minuto sequer da paixão. Ele é assim. Sempre com o rádio de bolso à mão, sentado no mesmo canto do sofá, e sempre esperando a derrota iminente. Seja a partida qual for – é sua maneira de se defender das possíveis decepções.

Cresci ouvindo-o contar histórias do São Paulo, e em 22 anos como ouvinte nunca o vi narrar um feito são-paulino como o de 1986, no Brinco de Ouro da Princesa. O título brasileiro, mero detalhe, foi só a cereja do bolo daquela ocasião; o principal foi o gol de Careca, aquele nos acréscimos da final. Quando os tricolores já perdiam a esperança. Meu pai era um dos que não acreditavam mais. Aquele momento marcaria uma geração inteira de são-paulinos, e Careca, em quatro anos de São Paulo, foi ídolo dessas pessoas.

Antes de brilhar no Morumbi, ainda garoto, Antônio de Oliveira Filho já chamava a atenção de torcedores do futebol amador de Araraquara – a várzea ainda é mina bruta do futebol brasileiro, e quiçá de lá saiam outras joias como ele, ainda que cada vez mais o esporte se distancie disso.

O personagem desse texto teve no Bugre de Campinas, o Guarani, o seu abrir de portas ao futebol profissional. Aos 17, em 1978, sagrou-se campeão brasileiro anotando gol, e conquistando projeção nacional. Tinha brilho no futebol do menino.

Os anos que seguiram em Campinas não foram como se esperava, e os títulos e gols não vieram. Careca passava por mau momento no futebol, à época alguns acreditavam que as boas atuações não voltariam, e, apostando no contrário, o São Paulo contratou-o em 1983. Há camisas no futebol brasileiro que ostentam certa mística. A do tricolor paulista é uma delas. Classe, raça, técnica, o jeito simples e característico de um passe; são marcas do futebol são-paulino, e como sabem meu pai e outros milhões de tricolores, Careca é exemplo desse estilo de futebol. Não poderia ser melhor o casamento atleta e clube. Os gols e o boas atuações voltariam sim, e aos montes.

Do jogo de estreia em 1983 ao último em 1987 foram 191 vezes em campo e 115 gols marcados. Impressionante média de 0,6 gols por partida. Oitava maior do clube.

E no meio dessa centena de gols está aquele que fez meu pai saltar do seu canto no sofá, que fez silenciar um lado das arquibancadas do Brinco de Ouro, e explodir o outro em euforia. Está demonstrada naquela partida a mágica do futebol. Foram 120 minutos de jogo – se somados os 30 acrescidos da prorrogação, e quis o destino, indescritível como sempre, que Careca entrasse pra história do São Paulo justamente contra o Bugre. Justamente o Bugre.

Guarani e São Paulo fizeram o que muitos ainda consideram ser a final mais emocionante de todas as edições do campeonato brasileiro. Não houve naquela noite, em fevereiro, 25, quem amasse o futebol que não tenha se arrepiado com o que os jogadores proporcionaram em campo. Na ocasião a partida primeira, jogada três dias antes, no Morumbi, terminou empatada em 1 x 1. E no Brinco de Ouro, lugar onde tantas vezes jogara, Careca seria decisivo.

A história do jogo pode ser contada de diversas formas. Por ora vamos contá-la como se conhece ser o jeito mais rápido. Empate em 1 x 1 no tempo normal. Jogo daqueles movimentados, daqueles que o torcedor joga junto na marcação, e procura espaços nos lances de ataque. Imaginem vocês que jogo foi esse! A prorrogação seria ainda melhor. O São Paulo fez 2 x 1, Pita, o Guarani fez lá dois gols, não se valha contar em qual minuto ou quem, com todo respeito ao Bugre, mas pouco importa. O que importa mesmo passou-se em sete segundos, passou-se em três toques. O que importa mesmo é que Careca, na área, era cirúrgico, preciso, como antes (e como depois) jamais se viu com a camisa tricolor.

Wagner lançou a bola lá de trás, talvez pra despachá-la, talvez por não querer que o campeonato brasileiro e o sonho do título terminassem em seus pés, mas quis ela, a bola, cair na cabeça de Pita, que ganhou no ar escorando para o lado esquerdo do ataque tricolor. Lado em que estava Careca. A bola caiu caprichosa, quicou, subiu novamente, e se ofereceu ao atacante são-paulino. De perna esquerda Careca colocou-a aonde ela sempre quer chegar, fez a bola repousar no fundo das redes, empatou a final, e nos colocou de novo na luta pelo título.

“Ah, 1986 foi uma final contra o Guarani, que me projetou para o mundo todo, tendo que defender as cores do São Paulo… Realmente um jogo emocionante, um jogo muito, muito disputado. O Guarani com uma grande equipe, o São Paulo também… o Guarani sempre deu trabalho pro São Paulo, sempre grandes jogos. Numa escapada, num lance que praticamente estava nos pés do Guarani, foi perdida essa bola, e rapidamente foi enviada pra frente, e o Pita ganhando de cabeça do zagueiro, e eu peguei uma lenhada de esquerda e consegui fazer o gol de 3 x 3 onde levou depois pros pênaltis.” – disse Careca em entrevista à TV Cultura.

Disse que Antônio de Oliveira Filho surgiu no futebol amador de Araraquara, e o que de curioso se levanta é que Antônio de Oliveira, o pai, era também centroavante no interior do Estado, também goleador, cabeceador de talento, mas que sofreu com contusões que lhe obrigaram a largar o sonho da bola. Era obcecado o Antônio Pai, e o filho lhe servira de última chance de alcançar o sonho. Apresentou-lhe à bola, sua companheira, e incentivou a carreira do menino alegre, fã do palhaço Carequinha. Careca nasceu em 5 de outubro de 1960, na mesma Araraquara em que brilharia anos mais tarde, justamente no momento em que o pai fora obrigado a abandonar os campos.

Quando chegou ao São Paulo Careca era ainda uma promessa. O menino encantou o interior paulista, viveu ótimo momento com a camisa alviverde de Campinas, mas ainda não havia provado seu valor aos mais críticos. O tricolor do Morumbi, por sua vez, precisava de um substituto para Serginho Chulapa, que acabara de ter sido vendido ao Santos. Chulapa ainda é o maior artilheiro da história do São Paulo, imagina-se o tamanho da responsabilidade do tal Careca, do filho do Sr.Antônio, e fã do palhaço Carequinha?

A torcida são-paulina estava endiabrada. Serginho era ídolo. Herói e vilão ao mesmo tempo. O temperamento forte e as histórias dele no São Paulo renderão outro texto, por ora concentremo-nos no menino de Araraquara.

Um ano antes da épica final do Brinco de Ouro, em 1986 – sim, porque a final do campeonato brasileiro de 1986 foi disputada em 1987 –, Careca brilharia com a camisa da seleção brasileira na Copa do Mundo. O atacante tricolor foi vice-artilheiro da competição com cinco gols, um a menos que o inglês Gary Lineker. A amarelinha também teve o prazer de vestir Careca. A amarelinha, a alviverde, e a tricolor. Tudo bem, dirão os torcedores do Santos e do São Jose que Careca jogou por suas equipes. Aos santistas diremos que 2 gols não são dignos de Careca, aos gaúchos de São José não temos o que dizer, afinal, ele nem entrou em campo pelo time do Rio Grande.

No São Paulo teve a companhia de Muller, outro grandíssimo nome do nosso ataque, mas foi no Napoli, da Itália, que Careca foi acompanhado pelo atacante que mais lhe fez brilhar. Maradona, o rei argentino, formou dupla infernal com o filho do Sr. Antônio. Glória ao menino de Araraquara e ao pai dele, que devia ter sido e não foi.

De quem veio pra alegrar a família depois da tristeza que Antônio pai enfrentara, Careca alcançou seus objetivos com louvor. Ídolo do bugre, ídolo são-paulino, grande futebol na seleção brasileira, um dos melhores (talvez o melhor) companheiros do gênio Maradona, e o nome do palhaço Carequinha outra vez nas alturas. Do Kashiwa, do pequeno Garforth da Inglaterra, apesar de boas, não se contarão as histórias.

O pai dos palhaços brasileiros, Carequinha, o Antônio, lá de Araraquara, e o meu pai, Clóvis, aqui em São Paulo… Três pais que juntos num mesmo texto fizeram de Careca um ponto comum. Um ponto que aos tricolores é só recordação de glórias. Tá certo ou não tá?

Viva Careca!

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