Carta Aberta PH Ganso
Amigo torcedor, amigo secador, peço a devida licença para me dirigir, nesta carta aberta, ao Paulo Henrique Ganso, cujo talento passou a ser um castigo, não mais um motivo de mil sambas de exaltação.
É, meu caro PH, o país do futebol é quase sempre injusto. Costuma punir mais o craque que o arremedo de jogador. Quando falo o país não trato só de uma abstração ou da imagem rodriguiana da pátria em chuteiras. Digo o país de carne e osso dos cartolas, dos investidores da praça e dos falsos torcedores.
Muito injusto, para dizer o mínimo, o que fizeram contigo. O cúmulo foi a chuva de moedas e os berros de mercenário anteontem na Vila Belmiro, um templo que não merece a infâmia de tais bárbaros.
Por que o Santos perdeu para o Bahia? Ah, tenham paciência, o tricolor da Boa Terra bateu o Peixe com Pelé e tudo. No auge dos auges. Acontece.
Mais respeito com os baianos.
Apenas um torcedor de meia pataca é capaz de tais insultos. Uma pilhéria que tenhas que andar com seguranças extras sob a pena de ser alvejado pela corja.
Sei que serenidade não te falta. Tens os segredos do caboclo amazônico para enfrentar estas pequenas maldições urbanas. Chegou a hora, no entanto, de pedir a bola. De dizer "Eu me garanto", de repetir, em palavras, o que fizeste com gesto firme naquele Santos x Santo André. Final do Paulista-10. "Atitude de homem", como definiu, à beira do campo, o técnico Dorival Jr.
Está na hora de juntar os dirigentes do Santos, o supermercado que te expõe nas gôndolas, como uma promoção avícola, e dizer bem alto: "Quero fazer o que eu sei, jogar bola". Arre égua. Pronto.
Hora de dizer também: "Seu Juvenal, me respeite, o São Paulo é um grande clube, mas fez uma proposta miserável". Por que jogar em um time que te julgas por este preço?
Os reais torcedores do Peixe, óbvio, amariam o teu dia do fico. Claro que não poderias se contentar com um salário menor do que vários no elenco. Conversas, reajustes, retomada da proposta do plano para o futuro, garantias até a Copa etc. Tudo isso e muito mais.
O apoio público do comandante Muricy Ramalho foi importante. Algo digno. Neymar, ressalvadas as diferenças de tratamento no clube, também não fugiu à luta, bancou a tua presença.
Lembro agora, caríssimo Ganso, do teu conterrâneo paraense doutor Sócrates Brasileiro. Tu eras praticamente o único motivo que o fazia ver um jogo de futebol inteiro. Ficava à espera do teu toque. Dizia: "Este sabe". Fazia o maior gosto.
Que te deixem em paz para fazer o que gostas. Que te livres de quem desconfia do teu dote. Que te livres mais ainda de quem te rifas por qualquer moeda. De adversário bastam os brucutus em campo.
Boa sorte, rapaz.
@xicosa
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