O "efeito placebo" do 3-5-2 no São Paulo

Fonte Globo Esporte/andré ro
A palavra placebo deriva do verbo “placere” (latim) que significa “agradar”. Na medicina, resumindo bastante, representa qualquer tratamento que não tenha ação específica nos sintomas ou enfermidades do paciente. Mas, de alguma forma, pode causar um efeito.
Na prática, placebo é o tratamento inócuo. Já o “efeito placebo” é quando se obtém um resultado a partir da administração de uma substância que apenas sugere o combate ao mal. Como uma cápsula de farinha que “curaria” uma enxaqueca.
No Brasileirão 2012, o aproveitamento do São Paulo com formação inicial utilizando três zagueiros de ofício é respeitável: quatro vitórias e uma derrota, 13 gols a favor e sete contra. 80% dos pontos disputados. No campeonato, só inferior aos 82% do líder Atlético-MG. Sem contar os 2 a 0 sobre o Bahia na estreia da Copa Sul-Americana.
O desempenho, porém, precisa ser relativizado. Não só pela fragilidade de Figueirense, Flamengo e Sport (também do tricolor baiano), mas principalmente por conta da dinâmica e da posicionamento, que diferem muito pouco da proposta inicial de Ney Franco e até dos tempos de Emerson Leão.
Segundo os defensores do sistema atual, a entrada de um zagueiro compensaria a pouca combatividade dos laterais Douglas e Cortez e dos volantes Denílson e Casemiro ou Maicon.
Mas a grande maioria dos adversários atua com apenas um atacante fixo. Por isso, o desenho tático foi praticamente abandonado no cenário atual, seguindo exatamente a lógica do “criador”. Em 1984, o alemão Sepp Piontek retirou um defensor da seleção dinamarquesa que comandava porque os oponentes jogavam com dois homens na frente. Um marcador para cada, o terceiro na sobra e o meio-campo ganhava mais um armador – não exatamente um ala, “invenção” de Carlos Bilardo na Argentina campeã mundial de 1986 com Olarticoechea pela esquerda.
Hoje o terceiro zagueiro perde a função. Ou tem que mudá-la. É o que faz João Filipe no São Paulo. Com Rafael Tolói e Rhodolfo cuidando do único avante, ele se transforma em lateral-direito.
A solução libera Douglas praticamente como meia, mas não resolve o “problema” de Cortez. O ala apoia, sai para o combate direto ao lateral adversário, mas não tem a cobertura de Rhodolfo, que mantém o posicionamento mais centralizado, como em uma linha de quatro.
Na prática, a equipe na maior parte do tempo tem João Filipe, Tolói, Rhodolfo e Cortez na defesa; Denílson mais plantado, Douglas à direita e Maicon centralizado, caindo eventualmente pela esquerda; Jadson na ligação, articulando e se aproximando da dupla de ataque. O que mudou? No desenho, muito pouco em relação ao 4-3-1-2 que Ney Franco tentou implementar.
Confira a transição no vídeo abaixo:

O 3-5-2 “oficial”, porém, parece transferir confiança semelhante à do retorno ao time do capitão, líder e símbolo Rogério Ceni.
O tricolor paulista, outrora apático, aparentando desinteresse e incapacidade de se impor diante de adversários fortes ou apenas aguerridos, está mais atento, ligado. Marca à frente, pressiona e compensa alguma descompactação dos setores com entrega, suor. Algo que é difícil definir e costuma se chamar de “alma”.
A boa nova também ajuda: Ademílson herdou a vaga de Lucas – na seleção olímpica e agora negociado com o Paris Saint-Germain – que era de Osvaldo, lesionado. O menino de apenas 18 anos marcou quatro gols em cinco jogos e tornou o ataque são-paulino mais rápido e vertical. Faz bem a diagonal, se junta ao centroavante e não tem medo de concluir, mesmo com alguma afobação, natural pela idade.
No duelo com o goleiro Magrão na vitória por 1 a 0 sobre o Sport no Morumbi, Ademilson também foi persistente. Quatro conclusões, um gol anulado por impedimento inexistente até ir às redes no rebote do chute de Cícero – substituto de William José, titular por conta de mais uma lesão de Luis Fabiano.

O 3-4-1-2 da vitória sobre o Sport: João Filipe desce pela direita, Douglas vira meia, Cortez apoia como ala mas volta como lateral; na frente, Jadson faz a ligação e Ademilson acelera as ações ofensivas.
O São Paulo a dois pontos do G-4 oscilou na derrota por 4 a 3 para o Atlético-GO e cresceu no segundo tempo quando retirou um zagueiro. No 4-2-3-1 de Leão, impôs o único revés do Galo na competição.
Mas as lembranças da Libertadores e do Mundial Interclubes em 2005 e do tricampeonato nacional nos anos seguintes, com Paulo Autuori e Muricy Ramalho montando as equipes prioritariamente com três zagueiros, parecem falar mais alto. Mesmo que o futebol tenha mudado tanto nos últimos quatro anos e em 2007, na campanha mais sólida, com apenas 19 gols sofridos em 38 rodadas, o time tivesse ora Breno, ora Alex Silva como lateral direito em vários momentos. Exatamente a mesma função de João Filipe nas últimas partidas.

O São Paulo de Muricy Ramalho em 2007 também alternava do 3-5-2 para uma linha de quatro na defesa com Breno e Alex Silva alternando na lateral-direita.
Calando as cornetas de torcedores e dirigentes com o esquema preferido e tendo Ceni como o técnico dentro de campo, Ney Franco pode aproveitar o “efeito placebo” do 3-5-2 e preparar um São Paulo mais robusto e saudável para desafios maiores no futuro.
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