Na prática, placebo é o tratamento inócuo. Já o “efeito placebo” é quando se obtém um resultado a partir da administração de uma substância que apenas sugere o combate ao mal. Como uma cápsula de farinha que “curaria” uma enxaqueca.
No Brasileirão 2012, o aproveitamento do São Paulo com formação inicial utilizando três zagueiros de ofício é respeitável: quatro vitórias e uma derrota, 13 gols a favor e sete contra. 80% dos pontos disputados. No campeonato, só inferior aos 82% do líder Atlético-MG. Sem contar os 2 a 0 sobre o Bahia na estreia da Copa Sul-Americana.
O desempenho, porém, precisa ser relativizado. Não só pela fragilidade de Figueirense, Flamengo e Sport (também do tricolor baiano), mas principalmente por conta da dinâmica e da posicionamento, que diferem muito pouco da proposta inicial de Ney Franco e até dos tempos de Emerson Leão.
Segundo os defensores do sistema atual, a entrada de um zagueiro compensaria a pouca combatividade dos laterais Douglas e Cortez e dos volantes Denílson e Casemiro ou Maicon.
Mas a grande maioria dos adversários atua com apenas um atacante fixo. Por isso, o desenho tático foi praticamente abandonado no cenário atual, seguindo exatamente a lógica do “criador”. Em 1984, o alemão Sepp Piontek retirou um defensor da seleção dinamarquesa que comandava porque os oponentes jogavam com dois homens na frente. Um marcador para cada, o terceiro na sobra e o meio-campo ganhava mais um armador – não exatamente um ala, “invenção” de Carlos Bilardo na Argentina campeã mundial de 1986 com Olarticoechea pela esquerda.
Hoje o terceiro zagueiro perde a função. Ou tem que mudá-la. É o que faz João Filipe no São Paulo. Com Rafael Tolói e Rhodolfo cuidando do único avante, ele se transforma em lateral-direito.
A solução libera Douglas praticamente como meia, mas não resolve o “problema” de Cortez. O ala apoia, sai para o combate direto ao lateral adversário, mas não tem a cobertura de Rhodolfo, que mantém o posicionamento mais centralizado, como em uma linha de quatro.
Na prática, a equipe na maior parte do tempo tem João Filipe, Tolói, Rhodolfo e Cortez na defesa; Denílson mais plantado, Douglas à direita e Maicon centralizado, caindo eventualmente pela esquerda; Jadson na ligação, articulando e se aproximando da dupla de ataque. O que mudou? No desenho, muito pouco em relação ao 4-3-1-2 que Ney Franco tentou implementar.
Confira a transição no vídeo abaixo:
O 3-5-2 “oficial”, porém, parece transferir confiança semelhante à do retorno ao time do capitão, líder e símbolo Rogério Ceni.
O tricolor paulista, outrora apático, aparentando desinteresse e incapacidade de se impor diante de adversários fortes ou apenas aguerridos, está mais atento, ligado. Marca à frente, pressiona e compensa alguma descompactação dos setores com entrega, suor. Algo que é difícil definir e costuma se chamar de “alma”.
A boa nova também ajuda: Ademílson herdou a vaga de Lucas – na seleção olímpica e agora negociado com o Paris Saint-Germain – que era de Osvaldo, lesionado. O menino de apenas 18 anos marcou quatro gols em cinco jogos e tornou o ataque são-paulino mais rápido e vertical. Faz bem a diagonal, se junta ao centroavante e não tem medo de concluir, mesmo com alguma afobação, natural pela idade.
No duelo com o goleiro Magrão na vitória por 1 a 0 sobre o Sport no Morumbi, Ademilson também foi persistente. Quatro conclusões, um gol anulado por impedimento inexistente até ir às redes no rebote do chute de Cícero – substituto de William José, titular por conta de mais uma lesão de Luis Fabiano.

O 3-4-1-2 da vitória sobre o Sport: João Filipe desce pela direita, Douglas vira meia, Cortez apoia como ala mas volta como lateral; na frente, Jadson faz a ligação e Ademilson acelera as ações ofensivas.
O São Paulo a dois pontos do G-4 oscilou na derrota por 4 a 3 para o Atlético-GO e cresceu no segundo tempo quando retirou um zagueiro. No 4-2-3-1 de Leão, impôs o único revés do Galo na competição.
Mas as lembranças da Libertadores e do Mundial Interclubes em 2005 e do tricampeonato nacional nos anos seguintes, com Paulo Autuori e Muricy Ramalho montando as equipes prioritariamente com três zagueiros, parecem falar mais alto. Mesmo que o futebol tenha mudado tanto nos últimos quatro anos e em 2007, na campanha mais sólida, com apenas 19 gols sofridos em 38 rodadas, o time tivesse ora Breno, ora Alex Silva como lateral direito em vários momentos. Exatamente a mesma função de João Filipe nas últimas partidas.

O São Paulo de Muricy Ramalho em 2007 também alternava do 3-5-2 para uma linha de quatro na defesa com Breno e Alex Silva alternando na lateral-direita.
Calando as cornetas de torcedores e dirigentes com o esquema preferido e tendo Ceni como o técnico dentro de campo, Ney Franco pode aproveitar o “efeito placebo” do 3-5-2 e preparar um São Paulo mais robusto e saudável para desafios maiores no futuro.