É véspera de Choque-Rei em São Paulo.
O São Paulo é o 12º colocado no Brasileiro e o Palmeiras é o 11º, posições pouco confortáveis para os dois times.
No Tricolor do Morumbi, Baresi admite voltar ao esquema 3-5-2.
Alex Silva pediu a volta do esquema que, segundo ele, é o melhor para agora: “…prefiro o 3-5-2. No momento em que estamos hoje, as coisas não dão certo. O terceiro zagueiro deixa o time compacto e dá mais confiança. Assim ganhamos três Brasileiros.”
Novidade?
Nenhuma.
Muricy tentou mudar e não conseguiu.
Ricardo tentou e tampouco conseguiu.
Baresi não só tentou, como ousou: mudou o esquema e entrou com três atacantes. Quebrou a cara, perdeu jogos, perdeu pontos preciosos.
Venho dizendo há alguns anos que o 3-5-2 está no DNA do São Paulo porque o clube montou seu elenco baseado nesse esquema de jogo.
Ele foi implantado no São Paulo a partir de 2003 e começo de 2004 porque o clube, que recém-perdera Kaká e Ricardinho, não tinha dinheiro para contratar dois meias de qualidade, jogadores que, além de caros, eram raridades no mercado. Até por isso, também ou principalmente, eram caros. Em contrapartida, o mercado em meados da década era relativamente farto em bons volantes, bons alas e bons zagueiros. Junte-se a isso a inteligência da direção do São Paulo de Marcelo Portugal Gouvêa, que saiu na frente, junto com o Cruzeiro dos Perrella, na contratação de jogadores de acordo com as novas regras do jogo pós-fim do passe, e temos a montagem de um elenco excelente e grande, que já em 2005 conquistou, na sequência, o Paulista, a Libertadores e o Mundial de Clubes.
Um time armado com três zagueiros fica mais compacto e confiante, como diz Alex Silva, mas para ser vencedor precisa de dois volantes de grande qualidade, bom passe e velocidade na saída de jogo, além de chegarem com perigo à área adversária, vindos de trás. Era o caso das duplas Mineiro e Josué e depois Hernanes e Richarlyson, em 2007.
Para esse time respirar e evoluir rumo à meta adversária precisa, também, de dois alas que saibam jogar futebol: que saibam marcar, armar, que tenham técnica apurada e razoável vigor para ir e vir o jogo inteiro. Assim eram Cicinho e Junior em 2005.
O ataque, embora o São Paulo tenha contado com Grafite, Amoroso e Luisão em 2005, além de Aloísio, não chega a ser tão decisivo, mesmo porque com o esquema bem azeitado os gols saem com naturalidade e são feitos por diversos jogadores.
Mesmo vencedor, o time de 2005 tinha um ponto que não era fraco, mas que deixava a desejar: o meio-campo. Os dois estupendos volantes não eram criadores, não pensavam o jogo, não tinham capacidade para cadenciá-lo conforme o desejo e necessidade. Danilo, o único meia, na verdade um falso meia, era eficiente e ótimo, mas era tão somente uma peça a mais num coletivo. Fazia diversos papeis e muito bem, marcava bem, mas não criava.
Com a saída de Cicinho e o declínio físico de Junior, o São Paulo ficou sem alas de qualidade. Ilsinho supriu bem a direita, mas por pouco tempo. Hernanes e Richarlyson substituíram a dupla anterior de volantes eficientemente. Se tivessem permanecido com as mesmas funções teriam feito outra história no São Paulo e no futebol brasileiro, mas necessidades diversas levaram Muricy a mudar o posicionamento de Hernanes e até a função de Richarlyson, que passou a jogar na ala esquerda ou compondo a zaga.
E assim morreu o eficiente e vitorioso formato 3-5-2 do São Paulo, no final de 2007.
Morte anunciada, que a direção sabia e até previu, mas nada fez para evitar. Pelo contrário, desafiando o bom senso persistiu na manutenção de um elenco orientado para aquele formato de jogo, sem, entretanto, ter jogadores tão diferenciados e bem encaixados como nos anos anteriores. Assim, 2008 foi o prenúncio de 2009 e 2010, com o São Paulo conquistando o título brasileiro mais por incompetência alheia que por méritos próprios. Sim, todo campeão tem muitos méritos, nem se discute, mas há títulos cuja conquista é também devida aos desastres dos adversários.
A virada para 2009 deveria dar-se com uma total reformulação no clube, mudando a filosofia de jogo e, naturalmente, mudando o elenco. Permaneceu tudo igual, assim como na virada para 2010. Nomes foram trocados, mas não se mexeu nos conceitos.
Hoje, véspera de jogo contra o Palmeiras, com o time na metade baixa da tabela e, pior, em viés de baixa, como se diz no mercado financeiro, Sergio Baresi, jovem e cheio de ideias, a maioria boas, vê-se obrigado a repetir a fórmula que Leão foi obrigado a usar, assim como obrigados foram Autuori, Muricy e Ricardo Gomes, porque não há invenção nessa área: o esquema deve adaptar-se aos jogadores existentes. O contrário nunca dá certo.
Há um ponto que antecede qualquer sistema de jogo, pois é necessário em todos eles: equilíbrio. Bem resumidamente, um bom time é um time equilibrado, igualmente bom nos seus diversos setores: defesa, meio e ataque.
Para ter um esquema na numeração 4-4-2 ou 4-3-3 e suas variações, há necessidade de dois bons meias, um em cada lado do campo, de preferência. Tendo esses dois jogadores, o resto é mais facilmente arrumado.
Sem meias, o que é o caso do São Paulo, o jeito é voltar ao 3-5-2. Como o time não tem dois alas de qualidade comprovada e dois volantes bons, técnicos, velozes, com excelente saída de jogo, o São Paulo vai, na verdade, retrancar-se num esquema com três zagueiros e mais 4 ou 5 defensores, todos volantes.
Terá que jogar atrás, sofrendo o assédio permanente dos adversários mais categorizados, partindo num ou noutro contra-ataque e fazendo ligações diretas do goleiro para o atacante ou dos zagueiros para qualquer um no campo adversário. O nome disso é rifar a bola e o resultado é que ela, na maioria, quase na totalidade das vezes cai em peitos ou pés adversários.
Essa história tem um fio condutor: a direção do São Paulo. Brilhante, até o final de 2006, sofrível e incompetente no futebol do final de 2007 em diante.
Não por coincidência, justamente o período em ela passou a viver em função do projeto Morumbi 2014. Para mudar, não bastará trocar de treinador mais uma vez, já que Sergio Baresi, grande novidade, está na corda-bamba.
O que precisa mudar é a filosofia, a política da direção. Tanto faz se com os mesmos nomes ou com outros, mas conceitos e práticas precisam ser substituídos.
Por exemplo: nos últimos anos o clube deixou de usar jogadores da base no time profissional. O último tinha sido Breno, em 2007. Nesse momento, apesar da má performance na temporada, os torcedores comemoram a aparição de Lucas e também de Casemiro, dois garotos de 18 anos promovidos por Sergio Baresi. Há outros, como a eterna promessa Sergio Motta, o único meia que o clube possui e que permanece encostado.
A presente temporada para o São Paulo já está definida: com muito esforço e muita sorte, e mais o retorno de Ricardo Oliveira e Alex Silva, o time, caso Baresi consiga motivá-lo, poderá ainda conquistar uma das vagas para a Copa Libertadores 2011. Será uma conquista fantástica, talvez até mais impressionante que o título de 2008. Mas, qualquer que seja o resultado no final do ano, o clube precisa mudar muito o futebol para 2011.
A volta do que nunca foi embora ou a Gestão e o Esquema
Fonte Globo Esporte
19 de Setembro de 2010
Avalie esta notícia:
17
5
VEJA TAMBÉM
- ELE MENTIU? Bradesco questiona versão de Casares sobre depósitos em dinheiro vivo- Derrota no Paulistão amplia tensão e coloca Casares sob fogo no São Paulo
- Impeachment é nessa semana! Conselho do São Paulo vota processo de impeachment nesta sexta-feira
- Vai sair? Após escândalos na diretoria e problemas de saúde Muricy Ramalho estuda sair do São Paulo
- POLÊMICA: Estreia desastrosa no Paulista expõe tensão e discussão no vestiário do São Paulo