Mais de uma década depois de uma das maiores crises internas da história recente do São Paulo, Ney Franco já admitiu que ficou profundamente magoado com tudo o que aconteceu em sua relação com Rogério Ceni durante sua passagem pelo Tricolor.
Campeão da Copa Sul-Americana de 2012, Ney acabou deixando o São Paulo em 2013 em meio a resultados ruins, problemas no vestiário e uma relação desgastada com o então capitão e maior ídolo do clube.
O episódio gerou declarações pesadas dos dois lados. Com o passar dos anos, porém, Ney revelou que a ferida cicatrizou e que atualmente mantém respeito por Rogério.
“Fiquei muito sentido”
Ao recordar o período, Ney Franco reconheceu que o conflito ganhou uma dimensão muito maior do que gostaria.
“Eu acho que o problema que tive com o Rogério foi superdimensionado”, avaliou o treinador em entrevista ao UOL.
Ney também admitiu que as declarações feitas depois de sua saída mexeram com ele.
“Pra mim, na época, eu fiquei muito sentido com tudo, mas já foi tudo resolvido e, hoje, tenho um respeito enorme pelo Rogério, como sempre tive”, afirmou.
Como começou a briga entre Ney Franco e Rogério Ceni?
O primeiro grande atrito público aconteceu em outubro de 2012, durante o confronto contra a LDU de Loja, pelas quartas de final da Copa Sul-Americana.
Com o jogo empatado, Rogério Ceni gesticulou de dentro do campo pedindo a entrada de Cícero.
Ney Franco tinha outra ideia e colocou Willian José.
O comportamento do capitão incomodou o treinador, que posteriormente deixou claro que não aceitaria interferências em suas decisões.
“Eu sou o treinador, quem decide sou eu”, declarou Ney na ocasião.
Apesar da polêmica, o São Paulo avançou naquela Sul-Americana e posteriormente conquistou o título diante do Tigre, no Morumbi.
2013 transformou o atrito em crise
Se o título ajudou a controlar os problemas no fim de 2012, o cenário mudou completamente na temporada seguinte.
O São Paulo não conseguiu repetir o desempenho, os resultados pioraram e surgiram relatos de insatisfação de jogadores com a metodologia da comissão técnica.
A relação entre Ney Franco e Rogério Ceni tornou-se cada vez mais distante.
Segundo o próprio treinador relataria posteriormente, ele sentia que não tinha em Rogério o capitão de que precisava naquele momento.
O desgaste terminou com a demissão de Ney Franco em julho de 2013.
“Zero, zero, zero”
Foi depois da saída do treinador que aconteceu uma das declarações mais marcantes daquela crise.
Questionado sobre qual legado Ney Franco havia deixado depois de aproximadamente um ano comandando o São Paulo, Rogério Ceni respondeu de maneira contundente:
“Zero, zero, zero.”
A declaração atingiu Ney especialmente porque o treinador havia comandado o São Paulo na conquista da Copa Sul-Americana de 2012.
O título encerrou um jejum internacional do clube e acabou sendo a última conquista do Tricolor por vários anos.
Ney Franco fez acusações pesadas contra Ceni
Um mês depois de sua demissão, Ney resolveu apresentar publicamente sua versão.
Em entrevista ao jornal O Globo, o treinador afirmou que Rogério possuía enorme influência nos bastidores do São Paulo e declarou que determinados profissionais poderiam encontrar dificuldades quando não tinham a aprovação do capitão.
“Se está bom para o Rogério, este profissional vai bem. Se não, se chega um profissional que ele não concorda, a tendência é ser minado”, afirmou na época.
Ney também citou as situações de Paulo Henrique Ganso e Lúcio e disse que havia percebido, nos últimos meses de seu trabalho, o interesse de parte do elenco em sua saída.
Rogério Ceni não deixou as acusações sem resposta.
O então goleiro negou possuir o poder descrito pelo treinador e ironizou a versão do ex-comandante, afirmando que, caso tivesse tamanha influência dentro do São Paulo, Ney teria deixado o cargo muito antes.
Rogério chegou a ignorar Ney no Morumbi
O tamanho do desgaste ficou evidente meses depois.
Em outubro de 2013, Ney Franco retornou ao Morumbi comandando o Vitória.
Antes da partida, diversos jogadores do São Paulo cumprimentaram o antigo treinador. Rogério Ceni, entretanto, evitou o reencontro.
A relação entre os dois estava claramente rompida naquele momento.
Mágoa ficou no passado
O tempo acabou diminuindo a temperatura de uma das maiores guerras públicas de bastidores do São Paulo naquela década.
Anos depois, Ney revelou que voltou a conversar com Rogério e considera o episódio superado.
O treinador também disse que considera ruim carregar esse tipo de situação em sua trajetória profissional, especialmente porque afirma não ter histórico de grandes conflitos com jogadores, dirigentes ou outros profissionais do futebol.
Hoje, segundo Ney, existe respeito entre os dois.
Isso não significa que ele tenha esquecido o que aconteceu.
O próprio treinador reconhece que ficou muito sentido naquele momento, principalmente diante da repercussão pública que o conflito ganhou depois de sua saída.
Quem estava certo naquela briga?
Mais de uma década depois, o episódio continua permitindo diferentes interpretações.
Ney Franco tinha acabado de comandar o São Paulo na conquista da Sul-Americana, mas viveu um primeiro semestre de 2013 ruim e enfrentou problemas com diferentes jogadores do elenco.
Rogério Ceni, por outro lado, era capitão, maior ídolo do clube e possuía naturalmente enorme peso dentro do vestiário, mas sua interferência pública em uma decisão do treinador também provocou questionamentos.
O resultado foi uma relação que começou com um título internacional, terminou em uma enorme troca de acusações e deixou uma mágoa que Ney Franco levou algum tempo para superar.
Ney Franco tinha razão ou Rogério Ceni que estava certo, o que você acha?
Quem manda no time é o treinador.