A Comissão de Ética do São Paulo realizou, na noite desta segunda-feira, uma das etapas mais sensíveis do processo que investiga o uso irregular de um camarote do MorumBis, conhecido como “Sala Presidencial”. Foram ouvidos os ex-diretores Mara Casares e Douglas Schwartzmann, apontados como envolvidos em um esquema clandestino de cessão e venda de ingressos do espaço. O colegiado agora tem prazo de até 15 dias para concluir o relatório e apresentar um veredito.
A reunião ocorreu no próprio estádio e começou por volta das 19h, com previsão inicial de término às 22h. No entanto, diante da extensão dos depoimentos e do volume de questionamentos feitos pelos membros da comissão, os trabalhos se estenderam até perto da meia-noite. Ao longo da oitiva, ambos os ex-dirigentes sustentaram a tese de inocência e negaram qualquer participação em prática ilícita.
Douglas Schwartzmann, que ocupava cargo na base do clube e possui статус de conselheiro vitalício, concentrou sua defesa na gravação de áudio que veio a público e revelou o esquema. No material, ele demonstra preocupação com a possibilidade de o caso se tornar público e pressiona a intermediária Rita de Cássia Adriana Prado a retirar uma ação judicial. Segundo Douglas, as declarações foram mal formuladas e não representam confissão de irregularidade.
O ex-diretor afirmou à Comissão de Ética que se expressou de forma inadequada ao utilizar termos como “problema” e “clandestino”, alegando que falava em um cenário hipotético e que jamais teve intenção de encobrir fatos ou impedir investigações. Ele também declarou que não recebeu dinheiro, não participou de divisão de valores e que não existem provas materiais que indiquem benefício financeiro pessoal.
Mara Casares, por sua vez, adotou uma linha de defesa baseada em relações internas do clube. Ela afirmou que a liberação de ingressos ocorreu como um favor a uma parceira ligada ao departamento feminino, área que ela comandava à época. Segundo seu depoimento, não havia objetivo comercial e tampouco intenção de explorar financeiramente o camarote, que não é destinado à venda regular.
A ex-dirigente também argumentou que a intermediária envolvida no caso mantinha relação profissional com ela e com o São Paulo desde pelo menos 2022, o que, segundo sua versão, explicaria o contato frequente. Mara negou ter recebido qualquer valor e afirmou que não tinha conhecimento de repasses financeiros feitos a terceiros a partir dos ingressos do camarote.
Durante a oitiva, a Comissão de Ética confrontou os dois ex-diretores com trechos do áudio em que o esquema é descrito pelos próprios interlocutores como “clandestino”. Ambos sustentaram que a palavra foi usada fora de contexto e que não corresponde à realidade dos fatos. Ainda assim, integrantes do colegiado registraram a divergência entre o teor da gravação e as versões apresentadas formalmente.
O processo interno do São Paulo ocorre simultaneamente às investigações conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público, que buscam identificar os valores movimentados e mapear responsabilidades no suposto esquema. A apuração criminal segue independente da sindicância administrativa do clube.
Conforme o regimento interno, caso a Comissão de Ética entenda que houve infração estatutária, as punições podem variar desde advertência formal e censura pública até suspensão por prazo determinado. Em situações mais graves, o colegiado pode recomendar a perda de mandato ou até a exclusão do quadro associativo, decisões que precisam ser analisadas pelo Conselho Deliberativo.
No caso de Douglas Schwartzmann, qualquer penalidade mais severa depende da aprovação do Conselho, em razão de sua condição de conselheiro vitalício. Já Mara Casares, apesar de ter renunciado ao cargo de conselheira, segue passível de julgamento porque os fatos analisados teriam ocorrido enquanto ela exercia função estatutária. Uma eventual condenação pode ter efeitos futuros, como impedimento para concorrer a cargos no clube.
A Comissão de Ética é composta por cinco integrantes, e a decisão não precisa ser unânime, bastando maioria simples. Após a divulgação do veredito, os acusados ainda poderão apresentar recurso dentro do prazo previsto no estatuto do São Paulo.