Essa é a minha história. Ninguém me contou: eu vivi, eu senti. Não sei se é possível transmitir em palavras, mas vou tentar. Jogar uma CONMEBOL Libertadores com a camisa do São Paulo me fez crescer como jogador. É uma coisa que te joga para cima, te faz sentir como um super-herói. Faz você acreditar que é melhor do que é, que pode enfrentar qualquer um de igual para igual. E garanto a vocês: não há nada como uma noite de quarta-feira no Morumbis . Por quê? Nem tudo na vida dá para se explicar, ou merece uma tese científica, mas a mística dessa sinergia entre São Paulo, Libertadores e torcida é uma coisa de louco. Isso era transmitido já na concentração. O ar que se respirava antes do jogo era diferente. O café da manhã não era igual, até o sabor do misto quente é outro. A saída do centro de treinamento já era outro ambiente. Dá aquele frio no estômago, a sensação mais linda de não saber o que vai acontecer, mas de fazer parte daquele momento.
Quando cheguei ao São Paulo, as coisas não eram fáceis assim. Fazia 9 anos que o clube não chegava à Libertadores, tinha um elenco que não era vencedor . O objetivo de todos era voltar a disputar esse torneio, em uma época que só se classificavam quatro, não os sete, oito ou nove de hoje em dia. Classificamos e em 2004 vivemos um pouco dessa tradição que vêm do passado, da época do Telê e de antes também. Como esquecer o jogo do Rosário Central , aquela noite em que a figura Rogério Ceni e o São Paulo tomaram uma dimensão continental. Uma aura que nos empurrou a tudo que veio depois. Perdemos a semifinal e senti que havia jogado uma oportunidade fora. Eu mal jogava, mas sabia que tinha o que faltava ao São Paulo para conquistar aquele torneio. Depois do Once Caldas , entrei e não saí mais do time.
Sempre falo: a nossa geração teve sorte. Não tinha coisa mais linda do que aquecer diante de 70 mil pessoas no Morumbis, ir pelo seu túnel sozinho, você e seus companheiros, mais ninguém, você subir e a torcida te receber com aquela ovação "aaaaaaaaaahhhh" . Era o maior êxtase do jogador. Todo o esforço da sua vida era para chegar nesse momento. Hoje não se vive mais, entra juntinho, dá a mão: é horrível, fico com pena! Fomos passando em 2005. Primeira fase, "vai ou racha" contra o Palmeiras , o emblemático confronto com o River Plate aqui e na Argentina. Até chegar à final. Senti que éramos mais time que o Athletico-PR . Se transportar o São Paulo daquela época para agora, poderia comparar ao Flamengo .
Exagero? Nosso time tinha três campeões do mundo ( Rogério, Júnior e Luizão ), um lateral de seleção ( Cicinho ), três meio-campistas que se tornaram monstros ( Mineiro, Josué e Danilo ) e um craque que foi artilheiro no mundo inteiro ( Amoroso ). No futebol de hoje, seria impossível: estaríamos todos dispersos pela Europa. O título veio. Não lembro exatamente do ambiente do vestiário, mas minha memória tem imagens de muita confiança e segurança. Não havia muito grito, nem câmera . Ali era olho no olho, não tinha cobrança na frente do treinador, do diretor, do roupeiro. Era diferente. Mais real.
Joguei 4 Libertadores pelo São Paulo e o mínimo que cheguei foi à semifinal . O fracasso da época era ser vice-campeão. Noites como essas no Morumbis são de emoção, sentido de pertencimento. Sinergia, essa é a palavra. Era vibrar com o lance. Com o meu carrinho, o chute do Mineiro, o gol do Rogério. Isso é jogar junto, como naquele aplauso coletivo que até hoje deve ecoar nos ouvidos do Bautista, do Chivas... 2006 eu me sentia imbatível. Era o melhor momento do São Paulo, que sempre respondia quando estava apertado . Com todo o respeito ao Internacional , me sentia tão superior, mas aconteceu tudo de errado: expulsão do Josué, lesão do Mineiro, Ricardo Oliveira impedido de jogar, erro que Rogério nunca teve na vida. E eu perdi um gol debaixo da trave que era mais difícil errar que acertar... é futebol, faz parte. Voltei dez anos depois. Outra geração, outra época, problemas de sobra, mas ela estava lá: a mística . Pode pegar, fomos mal em todos os outros campeonatos, mas na Libertadores não teve jeito. A camisa vai te empurrando. Chegamos à semifinal contra um time que era melhor que nós, mas que, se não fossem por erros graves da arbitragem, a gente não perderia nem a pau.
Nem na Europa eu vivi isso. Era lindo jogar Champions League com o Fenerbahçe na Turquia, clássicos, mas toda a prévia era mais fria. Eu era mais frio, mais profissional. Aqui em São Paulo, na Libertadores, eu era mais conectado com a competição. E para o bem e para o mal, porque você se sente mais responsável, se solta menos para jogar. Isso é o São Paulo na Libertadores. Essa sensação não é superficial. Não se conquista no Instagram. É fruto de algo que o passado criou e a gente soube aproveitar. Te dá o direito de ser campeão. "É meu", ponto final.
Se pudesse falar com cada um que jogará logo mais, só diria: aproveitem a oportunidade que o São Paulo dá de fazer história. É uma pressão, lógico, mas uma pressão linda é quando realmente se tem a oportunidade de atingir o êxito. Noite de quarta no Morumbi é uma sensação única que nem todos podem sentir. Eu senti. Eu vivi. É a minha história.
* Em depoimento a Kaique Lopreto e Murilo Borges

Esse era ****
Pouquíssimos jogadores conseguem internalisar esses sentimentos.... No nosso elenco :Rafinha, Arboleda, Diego, Pablo, Alisson (por isso é titular), Luciano e Calleri. Alguns que talvez consigam, porém falta algo( Nestor, Galoppo, Ferreira, Rato, Eric, Ferraressi)... E os que nunca vão atingir : JAMES, Wellington (por isso não vai renovar)
Bons tempos! Hoje, não somos nem migalhas do que já fomos. São Paulo tem de entender que não se contrata técnico barato. É tradição do clube ter grandes treinadores
kralho! Até entrou um cisco no meu olho! Que os jogadores atuais e o Carpini leiam esse depoimento e entendam a mística do São Paulo na Libertadores. Quando entram em campo, carregam junto todo o peso da nossa história. Então, que não venham fazer a gente passar vergonha de novo!
orra mano... que depoimento top. Não tenho nada a acrescentar, somente: Obrigado Lugano!