Lugano, o norte que veio do Sul

Fonte Blog do Torcedor
Salve, devotos do melhor Ronaldo,
Os walkie talkies frenéticos dos seguranças pronunciando seu QAP padrão, o vai-e-vem incessante das portas automáticas e o olhar desconfiado dos passageiros ainda bronzeados do réveillon na fila do check-in denunciavam uma eletricidade incomum no ar de Guarulhos. Era janeiro de 2016 e vivíamos uma noite banal de terça-feira quando uma multidão informalmente trajada de vermelho, branco e preto, com bandeiras, faixas, chapéus e celulares - nossa, e como havia celulares... - começou a se engalerar perto das escadas rolantes do aeroporto, querendo saber onde é que desembarcaria o homem. Que homem? O homem, oras!

Por volta de 20h30min, foi como um gol, desses que saem após o time pressionar muito: a porta se abriu, o já muito mais que balzaquiano Diego Alfredo Lugano Moreno chegou e tudo que aquelas milhares de pessoas queriam para suas vidas era berrar aos céus, tocá-lo e festejá-lo, numa mistura de alívio e felicidade. Se olhavam umas às outras em catarse absoluta, como quem diz 'tamo junto, meu irmão, tamo junto, se é pra comer o pão que o diabo amassou esse ano, vamo comer todo mundo e dividir ele com Diós'. Após aquele que talvez tivesse sido seu pior ano na história - ao menos sob o ponto de vista ético, administrativo e financeiro - o São Paulo tinha de volta um norte, mesmo que vindo do país mais ao sul do nosso continente.
Lugano encontraria pela frente uma Guernica: menos de um mês depois de se despedir de referências históricas como Luís Fabiano e o eterno capitão Rogerio Ceni, a gestão-tampão de Leco achou por bem preencher a visível lacuna de lideranças num elenco em frangalhos, que também encarou as saídas de personagens de peso como o artilheiro Pato e o estrategista Juan Carlos Osorio, e mais de uma dezena de nomes. Meses antes, uma sequência hollywoodiana de escândalos de corrupção, com direito a socos na cara e conversas grampeadas, culminara na inevitável renúncia de um presidente atolado em acusações gravíssimas, isolamento e dívidas na casa das duas centenas de milhões. Nas finanças, a bancarrôta. Na política, o fratricídio absoluto. No futebol, um time que sabe-se lá como conseguira se qualificar à pré-Libertadores e que, para 2016, apostava em Michel Bastos como seu capitão e Alan Kardec como homem-gol. Este era o estado das coisas.
Sobre o uruguaio, romantismos à parte, ninguém se iludia: passava muito longe de ser o jogador que entre 2003 e 2006 comandou a defesa como se fosse seu próprio rebanho, conquistando todos os títulos possíveis e, mais importante, injetando um novo DNA a um clube com a auto-estima judiada por uma década de marasmo. Aposentado da seleção Celeste pela qual também se eternizou jogando duas Copas do Mundo e levantando uma Copa América como capitán, Diego chegava naquele aeroporto com um histórico recente de lesões e passagens discretíssimas por clubes menores ao redor do planeta para escrever aquele que seria provavelmente o último capítulo de sua linda trajetória no futebol, justo no lugar que mais amou e onde mais foi amado - um São Paulo que, então, estava desnorteado.
O apelido de Diós é simultaneamente uma reverência e uma ironia fina: talvez não haja registro no clube de um ídolo mais humano que Lugano. Falível, humilde, questionador, tecnicamente rústico, mas consciente não apenas de suas limitações, como também de tudo aquilo que os jogadores devem representar para todos os zés-ninguéns que vestem as camisas com as mesmas cores que as suas, pelas vielas do mundo. Ao contrário do que pode suceder a qualquer humano excessivamente endeusado, o compatriota de Eduardo Galeano pareceu sempre saber que seu nariz não devia andar apontado nem ao céu nem tampouco ao chão, e sim ao horizonte, para que pudesse olhar todos seus iguais olho no olho e saber qual o próximo passo a dar.
Em 2016, entre altos (como esquecer de sua enorme atuação no 1x1 contra o River Plate, no Monumental de Núñez?) e baixos, aos 35 anos, Diego Lugano se tornou o reserva imediato de uma dupla de zaga que parecia encarnar, separadamente, valores que haviam pautado sua própria carreira: o profissionalismo extremo de Rodrigo Caio e a paixão de veias saltadas do recém-chegado Maicon se combinaram bem e o time, aos solavancos, fez surpreendente campanha na Libertadores, competição em que atingiu a fase semi-final. No jogo derradeiro, em Medellín, quando o leite já parecia derramado, Lugano foi titular. Após falhar num gol e testemunhar uma arbitragem no mínimo tragicômica, se indignou. Trajando a braçadeira de capitão, foi expulso. Há quem diga que essa foi sua segunda falha no jogo. A esmagadora maioria dos são paulinos, contudo, se sentiu dignamente representada por um homem que ali era tudo menos um deus. Era um de nós, comendo o pão que o tinhoso amassou, e cuspindo-o de volta na cara dele.

Para ser bem franco, o amargor da eliminação foi menor que o esperado. Era curiosa a sensação de que aquele grupo montado tão às pressas deu liga, foi além dos seus limites em muitos momentos e, não fossem alguns detalhes, erros e percalços, poderia até ter avançado às finais, mesmo tendo enfrentado um adversário tecnicamente superior, que acabaria campeão. Quem apostaria que chegariam tão longe, ainda mais sendo uma equipe incapaz de vencer fora do Morumbi? Bem, de qualquer maneira, parte da missão estava cumprida, e ela dizia mais respeito ao resgate da humildade perdida pela instituição nos seus anos Soberanos e do sentimento de identificação das arquibancadas com o campo do que propriamente aos resultados. O segundo semestre parecia promissor, mas não foi dos melhores. Serviu apenas para recolocar o torcedor são paulino no eixo da realidade de um clube juntando os escombros de uma guerra, com as recaídas que cabem ao processo.
Não seria totalmente irrelevante lembrar de episódios como a traumática saída repentina de Bauza, a venda de Ganso, a chegada do substituto Cueva levando à renúncia do diretor Luiz Cunha, a mal explicada demissão de Gustavo Vieira de Oliveira seguida do breve retorno de Marco Aurélio Cunha, a atmosfera de efervescência política turbinada pela oposição, a invasão do CT, a agressão a alguns jogadores, a mediana passagem de Ricardo Gomes e a necessária moral dada a alguns meninos de Cotia na reta final da medíocre campanha no Brasileiro. Ufa. Em meio a tudo isso, em uma não tão silenciosa guerra interna, o São Paulo se planejava para 2017, um ano eleitoral extremamente atípico. Os torcedores gritavam por mais uma reformulação, mas a diretoria tinha outros planos e apostava que os principais reforços já estavam em casa.
A nova temporada deste seriado chamado São Paulo Futebol Clube começou com episódios interessantes, que por si só, atraíram muita audiência. O retorno de Rogerio Ceni, visto por alguns como o maior ídolo da história tricolor, trazia consigo um oceano de pontos de interrogação agora que o assim chamado Mito teria de começar do zero, descer ao mundo dos humanos e se provar como técnico mortal. Nomes antes renegados ou totalmente anônimos ganharam importância em um projeto que visava valorizar o patrimônio de um clube que se notabilizou por gastar demais, ganhar de menos e enxugar gelo nos anos anteriores. Agora não: o São Paulo precisava de estabilidade. A equipe de Ceni demonstrou vocação ofensiva e chegou a ser vista como uma sensação do início de ano no Brasil.

E Lugano? Bem, por mais que tenha sido um fiel companheiro e amigo de Ceni durante sua passagem anterior, não é segredo para ninguém que o camisa 5 não é exatamente a personificação de um jogo propositivo e veloz, como os atuais conceitos do novo treinador pedem de seus zagueiros. As limitações técnicas e físicas existem, como seria de se esperar pelo estilo e pela idade, que faz com que o uruguaio seja a principal liderança do elenco. Articulado, Diego é o representante dos atletas em conversas delicadas com a diretoria, como para debater sobre bichos e premiações. Dentro de campo, superou a concorrência - que, com Breno e Douglas aptos a jogar, tornou-se mais numerosa do que em 2016 - e foi até aqui o reserva mais utilizado num setor que, por muitos meses, atuou hiper-exposto e, por isso, foi alvo de críticas pesadas de imprensa e torcida.
Sobre ele, nota-se uma lupa um tanto quanto pesada demais que talvez convenha somente aos ídolos: o "não tem mais a menor condição de atuar pelo São Paulo" carregado de certo prazer sádico que alguns lhe apregoam a cada mínimo sinal de falha jamais é aplicado, por exemplo, ao ótimo Rodrigo Caio, quando eventualmente comete bobagens ainda piores e mais custosas - e se procurar no excelente Maicon, vai achar também. Não, apesar do meu sobrenome, não sou lunático a ponto de comparar a atual forma do camisa 5 à da dupla titular nem de cobrar sua presença constante no onze inicial. Mas a cada vez que essa diferença de rigor no escrutínio acontece, torna-se evidente que para muitos há um senso de urgência no ar: quando Lugano aposenta?, como se fosse o desejo geral ver Douglas e Lucão serem chamados para jogar em seu lugar, e ver a engrenagem girar, e assim tudo ficará rapidamente bem.
Após as três eliminações seguidas em mata-matas e a derrota na estreia do Brasileiro para o Cruzeiro, uma enorme turbulência tomou conta do ambiente são paulino. Episódios corriqueiros, como o da prancheta com Cícero, vazaram à imprensa e somaram-se à má condução interna do caso fair play de Rodrigo Caio e a algumas entrevistas catastróficas de Rogerio, que abusou do matematiquês para provar por A+B que o time que em boa parte do tempo fazia sangrar os olhos da torcida estava, na realidade, jogando bem, atacando bem e só não vencia por conta de fatores externos. A tão buscada comunhão entre arquibancada e campo estava por um fio de sumir. Os questionamentos pulularam não apenas na imprensa como em algumas alas da torcida e, em algo como um mês, Rogerio passou de "a novidade mais promissora do futebol brasileiro" para "um enganador arrogante que só está aí pelo que fez como jogador".
E ali, quando cada palavra era inflamável, Lugano passou 2 horas de uma quinta-feira conversando com jornalistas no CT. "Encantando as serpentes", como ele próprio definiria. Na mesma semana, junto a Rodrigo Caio e Lucas Pratto, reuniu o plantel em torno do desgastado comandante, que ele tão bem conhece de outros carnavais. Nada disso teria adiantado se o time não respondesse com uma vitória, o que prontamente aconteceu nos 2x0 contra o Avaí, jogo em que Lugano foi titular e teve boa atuação. Na saída do gramado, o uruguaio ostentava um semblante de alívio quando esperou os companheiros na boca do túnel e os abraçou um a um, ciente da importância daqueles 3 pontos para dissipar a pressão. O fato de o capitão ter ido bem contra os catarinenses não quer dizer, claro, que ele não tenha tido outras jornadas muito menos inspiradas também. Até os quero-queros do gramado do Morumbi sabem: o fim se aproxima, mas a questão é que tratar Lugano como um inválido é um disparate.

E assim estamos: um dos maiores baluartes da história do São Paulo Futebol Clube tem o vínculo se encerrando em menos de um mês e corre sério risco de sair pela porta dos fundos no meio da temporada. O tema é tratado entre o treinador e o agora presidente eleito como uma batata quente diplomática que ninguém quer segurar. Em meio a declarações frias e tergiversações de todos os responsáveis envolvidos, incluindo Rogerio Ceni, que evita ao máximo se posicionar, fica claro o desconforto em tentar fazer a gigantesca importância do camisa 5 ser medida pela régua dos ordinários. Na mesma semana em que ofereceu R$ 7 milhões por Cleber, o quinto reserva da defesa do Santos, Leco afirma que o salário do ídolo uruguaio é entrave para uma renovação por mais 6 meses.
Haja vista o passado recente do clube, é compreensível que o rigor financeiro seja uma das preocupações da administração de Leco, um astuto mandatário que recentemente renovou os acordos de Cueva, Araruna, Lucas Fernandes, Rodrigo Caio, Luiz Araújo e Thiago Mendes, além de investir alto numa grande contratação como a de Lucas Pratto e em empréstimos como os de Wellington Nem, Jucilei e Cícero - todos eles, sem exceção, bastante necessários ao clube. Nem o mais delirante torcedor tricolor espera que se ofereça mais 2 anos de contrato ou um aumento a Lugano, tampouco a titularidade - não é disso que estamos tratando aqui. Tudo o que se cobra é uma postura honesta e respeitosa com alguém que tanto ofereceu e segue oferecendo ao São Paulo, este clube que até janeiro de 2016 estava sem norte e hoje vislumbra um bom futuro. Com a ascensão de figuras como Pratto e Rodrigo Caio, a missão de Diego como líder no clube está quase completa. Todos sabemos que a questão não é dinheiro e o argumento do custo-benefício chega a ser ofensivo. Talvez Lugano tenha feito tanta questão de se distanciar do status divinal de um ídolo que, ao fim das contas, será descartado como apenas um humano qualquer.
Em tempo: eu aderi à campanha #RenovaLugano e convido os amigos tricolores a fazerem o mesmo. As redes sociais e as arquibancadas estão aí pra nos manifestarmos. Feliz daquele que tem ídolos. Feliz daquele que tem Lugano!
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